O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta terça-feira (28) o decreto que oficializa o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. A promulgação encerra os trâmites internos brasileiros e permite que o tratado comece a valer provisoriamente a partir de 1º de maio. A medida abre caminho para uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 720 milhões de pessoas e economias que somam mais de US$ 20 trilhões.
Negociado por 27 anos, o acordo reduz gradualmente tarifas comerciais e amplia o acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu. Em contrapartida, bens e serviços europeus ganham maior espaço no Brasil. A expectativa é de aumento da concorrência e estímulo a investimentos em diferentes setores econômicos.
Decreto pronto após aprovação do Congresso
O Congresso Nacional aprovou o texto do tratado e a troca de notificações entre Brasil e União Europeia foi concluída. Com essas etapas cumpridas, a assinatura presidencial do decreto permite que a aplicação provisória comece em maio. A entrada em vigor completa depende ainda da ratificação interna de cada membro do Mercosul conforme seus próprios processos legislativos.
Durante o discurso de assinatura, Lula ressaltou a dificuldade das negociações. Segundo o presidente, acordos impostos por países desenvolvidos aos em desenvolvimento avançam rapidamente, mas quando nações emergentes reivindicam direitos, encontram mais obstáculos. “O acordo foi feito a ferro, suor e sangue”, afirmou.
Lula citou também as tensões comerciais globais. Diante das tarifas impostas pelo presidente americano Donald Trump no ano passado, o Brasil buscou novos parceiros comerciais. “Está cheio de gente querendo vender, gente querendo comprar”, disse o presidente, reforçando que o Brasil negocia em igualdade de condições como grande potência econômica.
Impactos no comércio brasileiro e europeu
A implementação gradual do acordo deve impactar diretamente o comércio exterior brasileiro. Importações e exportações terão redução de tarifas, expandindo oportunidades para produtores nacionais acessarem o mercado europeu. Setores como agricultura, manufatura e serviços devem sentir as mudanças com maior concorrência e investimentos estrangeiros.
Especialistas apontam que a medida reforça o multilateralismo em um contexto de protecionismo internacional. O acordo oferece contrabalanceço às políticas protecionistas de outros países desenvolvidos. Para o Brasil, significa diversificação de parceiros e redução de vulnerabilidade a pressões comerciais unilaterais.
A promulgação ocorre após meses de pressão política. A presidência brasileira no Mercosul tinha a conclusão do tratado como prioridade estratégica. O acerto foi assinado em janeiro deste ano durante a presidência paraguaia do bloco, consolidando negociações que atravessaram governos de múltiplas gestões.
Resistência na Europa
Apesar do avanço, o acordo enfrenta resistência dentro da União Europeia, especialmente de países e setores ligados à agricultura. A França, maior produtor agrícola do bloco, manifestou preocupações. A ministra da Agricultura francesa, Annie Genevard, sinalizou que o país pode adotar medidas unilaterais caso o setor agrícola e pecuário seja prejudicado pelo tratado.
Agricultores europeus protestam desde a negociação final. Temeiam que produtos do Mercosul, particularmente carne e grãos sul-americanos, entrem massivamente no mercado europeu reduzindo preços e competitividade local. Mesmo com essa pressão, o Parlamento Europeu avançou na aprovação, permitindo o início da aplicação provisória.
Questões ambientais também geram tensão. Grupos europeus preocupam-se com padrões de conservação ambiental em países sul-americanos, particularmente relacionados a biomas como a Amazônia. A União Europeia negociou cláusulas ambientais no acordo, mas críticos questionam se são suficientes.
Cronograma de implementação
Os próximos passos envolvem:
- 1º de maio: início da aplicação provisória no Brasil
- Junho a dezembro: países do Mercosul ratificam internamente conforme processos legislativos próprios
- Após ratificação plena: entrada em vigor completo do tratado
- Período de transição: aplicação gradual de regras comerciais enquanto ratificação européia segue em discussão
A aplicação inicial pode ser feita de forma parcial. Isso significa que nem todas as cláusulas entram em vigor simultaneamente. Conforme trâmites executivos avançam entre os blocos, novas regras comerciais são ativadas progressivamente. No Parlamento Europeu, o processo de ratificação completa ainda deve passar por votações e análises legislativas adicionais.
A entrada em vigor provisória é mecanismo comum em tratados comerciais complexos. Permite que países comecem a usufruir benefícios imediatos enquanto instituições legislativas completam procedimentos formais. No caso do Mercosul-União Europeia, reduz atrasos econômicos causados por burocracias administrativas.
Contexto político e econômico
O acordo representa vitória diplomática brasileira em ambiente de crescente protecionismo internacional. Enquanto potências desenvolvidas erguem barreiras tarifárias, o Brasil avança na abertura comercial estratégica com parceiros de peso econômico similar. A medida consolida o posicionamento de Lula na retomada do multilateralismo como alternativa ao unilateralismo.
Para a União Europeia, o acordo reforça sua posição como bloco comercial competitivo frente aos Estados Unidos e à China. Apesar das resistências internas, líderes europeus reconhecem a importância de expandir mercados e assegurar fornecimento diversificado de matérias-primas, alimentos e bens manufaturados.
Analistas destacam que a implementação provisória em maio marca ponto de virada nas relações comerciais hemisféricas. Se os impactos iniciais forem positivos para ambos os lados, a ratificação completa deve seguir com menor resistência política. Se surgissem problemas comerciais significativos, países como França poderiam intensificar oposição na ratificação final.


