As famílias brasileiras comprometem quase 30% da renda mensal para pagar dívidas. Esse é o maior percentual já registrado, segundo levantamento do Banco Central divulgado em fevereiro. O endividamento total — soma de todas as obrigações em relação aos ganhos de 12 meses — chegou a 50% dos rendimentos, outro recorde histórico para o país.
A situação reflete a combinação de juros altos e crédito mais caro. Com a taxa Selic em 14,75% ao ano, o custo para tomar empréstimos subiu significativamente. Isso força famílias a recorrerem a linhas de crédito de emergência, cartão de crédito rotativo e cheque especial — as opções mais caras e prejudiciais ao orçamento doméstico.
Histórias de quem enfrenta o peso das dívidas

Patrícia Lisboa da Silva é um exemplo dos milhões de brasileiros em situação similar. Seu nome foi incluído em serviços de proteção ao crédito. Ela prioriza quais contas pagar meses depois de comprometer a renda com despesas de casa, cartões de crédito e escola. “Negativaram meu nome, tentando negociar outros e junta tudo de uma vez. Aí a gente começa a analisar quais são as prioridades”, conta.
A inadimplência — quando o consumidor não consegue pagar no prazo — atingiu 4,4% em fevereiro, o maior nível já registrado. Em março recuou levemente para 4,3%, mas permanece em patamar crítico. Esse cenário força os bancos a ficarem mais exigentes na concessão de crédito, criando um ciclo difícil para quem já está endividado.
Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, explica que as famílias não têm escolha. “Elas estão acessando linhas de crédito emergenciais. A partir do momento que não têm acesso a linhas com juros mais acessíveis, acabam indo para o cheque especial e cartão de crédito rotativo. Os juros são significativamente maiores e pesam muito mais no orçamento”, afirma.
Por que os juros não caem
O Banco Central usa a taxa Selic — a taxa de juros básica da economia — como instrumento para controlar a inflação e influenciar empréstimos e financiamentos. Ela é definida pelo Comitê de Política Monetária em reuniões periódicas. Para reduzir os juros, o Banco Central precisa de espaço fiscal — ou seja, contas públicas equilibradas que permitam política monetária mais acomodatícia.
André Perfeito, economista da Garantia Capital, é direto sobre o impasse. “O patamar de taxa de juros é praticamente insustentável. Estamos falando de taxa de juros reais de 7%, 7,5%. Isso decorre de um processo que não foi feito pelo governo antes — segurar as contas públicas para ajudar o Banco Central a cortar juros. Esse processo devia ter começado lá atrás”, avalia.
A falta de ajuste fiscal impede que o Banco Central reduza a Selic. Com juros elevados, o peso das dívidas aumenta para as famílias brasileiras. E o crédito fica ainda mais caro para quem precisa tomar emprestado.
O que o governo promete fazer
Nos próximos dias, o governo anunciará um novo programa de renegociação de dívidas. A iniciativa busca oferecer alternativas para que famílias reorganizem seus compromissos financeiros. Porém, economistas divergem sobre a eficácia da medida.
Zeina Latif, economista, questiona se essa é função do Estado. “Essa não é uma função do Estado. Isso tem que deixar o mercado resolver. As pessoas encontrarem formas de renegociarem as dívidas, porque também é interesse da instituição financeira. O governo estimulando esse tipo de política pode acabar estimulando artificialmente mais endividamento e gastos”, argumenta.
Roberto Padovani, economista-chefe, oferece uma visão mais abrangente:
- O endividamento segue elevado porque o governo estimula a economia
- Mais estímulo mantém a taxa de juros elevada e sufoca o consumo
- A solução duradoura exigiria gestão fiscal menos expansionista
- Contas públicas menos agressivas permitiriam cortes de juros pelo Banco Central
- Isso traria alívio financeiro real para as famílias
Contexto econômico mais amplo
A inadimplência crescente e o endividamento recorde revelam um problema estrutural. Não se trata apenas de juros altos ou mau planejamento pessoal. O cenário combina política fiscal expansionista — gastos públicos elevados — com uma resposta do Banco Central em forma de juros ainda mais altos para conter a inflação.
Esse movimento cria pressão dupla nas famílias. De um lado, preços sobem pela inflação. Do outro, o crédito fica mais caro e inacessível. As linhas de crédito convencional secam. Famílias recorrem a opções cada vez mais caras. O resultado é um aumento progressivo do comprometimento de renda e da inadimplência.
A renegociação de dívidas anunciada pode oferecer alívio temporário para alguns. Mas economistas concordam que não resolve a questão de fundo: a necessidade de equilíbrio nas contas públicas que permita o Banco Central reduzir juros de forma sustentável.


