Um livro recente trouxe à tona novas alegações sobre a participação de estrangeiros no cerco a Sarajevo. Ricos pagavam quantias elevadas a forças sérvias para atirar contra civis na capital da Bósnia entre 1992 e 1996. Os relatos indicam que participantes vinham principalmente da Itália e de outros países europeus.
O cerco durou quase quatro anos e causou mais de 11 mil mortes na cidade. Muitos dos atingidos eram civis que tentavam se deslocar pelas ruas expostas. As novas informações surgem de investigações jornalísticas e de um dossiê entregue à Justiça italiana.
Livro detalha competição entre atiradores
O jornalista croata Domagoj Margetic publicou “Pay and Shoot”. A obra cita relatório de inteligência bósnio assinado por Nedzad Ugljen, morto em 1996. Estrangeiros desembolsavam cerca de 80 mil marcos alemães, o equivalente a US$ 53 mil na época, para obter permissão de atirar.
- Valores subiam para 95 mil marcos em casos de mulheres jovens
- Preço chegava a 110 mil marcos para alvos grávidas
- Participantes competiam para acertar as mulheres consideradas mais bonitas
O texto menciona ainda um possível membro de realeza europeia que teria chegado de helicóptero e mirado crianças. Fontes ligadas à milícia sérvio-bósnia teriam relatado esses episódios ao agente bósnio.
Denúncia italiana avança com identificação de suspeitos
A Procuradoria de Milão abriu inquérito após dossiê de 17 páginas entregue pelo jornalista Ezio Gavazzeni. Ele contou com apoio da ex-prefeita de Sarajevo Benjamina Karic e do ex-magistrado Guido Salvini. Três pessoas já figuram como investigadas.
Um motorista de caminhão de 80 anos, da região de Friuli, foi alvo de busca e interrogado. Dois outros suspeitos incluem um caçador do centro da Itália e um empresário da Lombardia. Eles teriam comentado as viagens em conversas sociais.
Gavazzeni lançou o livro “I cecchini del weekend”. A obra reúne depoimentos, incluindo o de um ex-mercenário francês que atuou como guia. Ele estimou que 230 italianos participaram, além de franceses, belgas e outros. Os grupos viajavam de Trieste ou de Milão, muitas vezes disfarçados de missões humanitárias.

Rotas e organização das viagens
Os participantes voavam para Belgrado e seguiam por terra até as colinas ao redor de Sarajevo. Armas eram entregues no local. Pagamentos ocorriam em dinheiro. Alguns relatos falam de agências na Bélgica e em Londres que organizavam os pacotes.
Testemunhos indicam que os atiradores usavam termos como “archers” para os atiradores e “deer” para as vítimas. Contadores acompanhavam o número de acertos para definir o valor final. Cartuchos usados serviam como recordação, marcados por cor conforme o tipo de alvo.
O ex-agente bósnio Edin Subasic relatou ter informado o serviço secreto italiano Sismi em 1994. A resposta teria sido o fim das viagens meses depois. Michael Giffoni, ex-diplomata italiano em Sarajevo, confirmou a veracidade do relato de Subasic.
Contexto do cerco e impacto
Forças sérvias-bósnias controlavam as colinas elevadas. De lá, franco-atiradores miravam ruas, mercados e áreas residenciais. O cerco combinava bombardeios constantes com tiros isolados que geravam terror diário entre a população.
Documentário “Sarajevo Safari”, de Miran Zupanič, lançado em 2022, já havia abordado o tema. Ele menciona viajantes de vários países, incluindo Rússia, Estados Unidos e Canadá. As alegações circulam há décadas, mas ganharam força com as novas investigações.
A Justiça bósnia também analisa o caso, mas o foco principal permanece na Itália. O processo busca identificar responsáveis por homicídio doloso. Trinta anos se passaram desde os fatos, o que dificulta a coleta de provas.
O cerco a Sarajevo terminou em 1996 com os acordos de Dayton. Radovan Karadzic, líder sérvio-bósnio, foi condenado por genocídio e crimes contra a humanidade. As novas revelações reabrem discussões sobre o alcance da violência e sobre a impunidade de atores externos.


