Uma em cada quatro adolescentes de 13 a 17 anos em Goiás sente que a vida não vale a pena ser vivida na maioria das vezes ou sempre. O dado, que alcança 25,8% das meninas, faz parte da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os meninos, o percentual é de 11,8%.
Considerando todos os estudantes goianos da faixa etária, o indicador ficou em 18,8%. A proporção foi maior entre alunos de escolas públicas, com 19,7%, do que entre os da rede privada, com 13,4%.
O levantamento mostra, ao mesmo tempo, que houve uma redução importante entre as adolescentes. Em 2019, 32,9% das meninas goianas haviam declarado esse sentimento. Em cinco anos, portanto, o indicador caiu 7,1 pontos percentuais. Apesar da melhora, o resultado atual ainda significa que cerca de uma em cada quatro estudantes do sexo feminino conviveu com esse sentimento no período considerado pela pesquisa.
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Por trás dos números
A pergunta feita pelo IBGE considera os sentimentos experimentados pelos estudantes nos 30 dias anteriores à pesquisa. O resultado, portanto, não representa um diagnóstico de depressão ou de qualquer outro transtorno mental. O indicador faz parte de um conjunto de questões utilizado pela PeNSE para acompanhar a saúde mental dos adolescentes. A quinta edição da pesquisa foi realizada em 2024 com estudantes de escolas públicas e privadas e ampliou a possibilidade de análise por estados e municípios das capitais.
Ainda assim, os números revelam uma diferença persistente entre meninas e meninos. No Brasil, 18,5% dos estudantes afirmaram ter sentido que a vida não valia a pena ser vivida na maioria das vezes ou sempre. Entre as meninas, a proporção foi de 25%, contra 12% entre os meninos. O IBGE também registrou diferenças importantes em outros indicadores de saúde mental, como tristeza, irritação e sensação de que ninguém se preocupa com o adolescente.

Em Goiás, esse contraste também aparece de forma expressiva. Para o psicanalista Bruno Saviotti, a adolescência é justamente o período em que identidade, autoestima e pertencimento ainda estão sendo construídos, o que torna os jovens particularmente sensíveis ao olhar dos outros.
“Essa fase tem muita transformação. É uma mudança física, emocional e social intensa. O adolescente está lidando com identidade, autoestima e com o sentimento de pertencimento, que ainda estão em formação. Por isso existe tanta preocupação com o que os outros estão pensando. Ele ainda não tem um conhecimento tão claro de si mesmo e acaba se comparando com outros grupos, principalmente no ambiente escolar, seja pela aparência, seja pelo desempenho.”
Segundo o especialista, as redes sociais ampliaram essa pressão ao criar uma comparação permanente com a vida apresentada por outras pessoas.
“Essa geração sofre com as redes sociais porque existe uma comparação constante, com exposição, busca por aprovação e padrões de beleza. O adolescente vê pessoas felizes, viajando, se dando bem e pode interpretar aquilo como uma falha pessoal. A sensação de exclusão gera insegurança e, quando isso se soma ao bullying, à violência e às experiências de humilhação e rejeição, os conflitos podem se tornar ainda maiores.”
Saviotti também chama atenção para uma contradição vivida por muitos jovens: embora estejam permanentemente conectados, eles podem experimentar uma sensação maior de isolamento.
“Os adolescentes estão mais sozinhos em casa. Eles têm acesso ao mundo pela internet e pela comunicação, mas, ao mesmo tempo, encontram dificuldade para se comunicar. São adolescentes mais isolados, em que cada um está no seu canto. Também existem as questões econômicas e sociais, como pobreza e insegurança, que influenciam a percepção sobre o futuro. Eles convivem com um mundo mais ágil e rápido, mais ansioso, e isso afeta a saúde mental.”
O levantamento do IBGE reúne ainda informações sobre alimentação, violência, bullying, atividade física, consumo de álcool e drogas, sexualidade e relações familiares e escolares. A intenção é acompanhar diferentes fatores que interferem na saúde e no desenvolvimento dos adolescentes.
Para o especialista, os números precisam ser compreendidos para além de uma estatística isolada. A combinação de pressão, comparação, violência, isolamento e insegurança pode alimentar a perda de interesse e uma percepção negativa sobre o futuro.
“Isso provoca perda de interesse, desesperança em relação ao futuro e a sensação de que a vida não tem sentido. É importante entender que não estamos falando apenas de um número, mas de adolescentes que estão atravessando uma fase de muitas transformações e precisam encontrar espaços seguros para falar sobre o que estão vivendo.”

