Morre o historiador Carlo Ginzburg, renomado por “O Queijo e os Vermes”, aos 87 anos

Redação
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Morre o historiador Carlo Ginzburg, renomado por “O Queijo e os Vermes”, aos 87 anos

O mundo acadêmico lamenta a morte do historiador italiano Carlo Ginzburg, uma figura central no desenvolvimento da micro-história e nos estudos aprofundados sobre a cultura popular. Ginzburg faleceu aos 87 anos nesta quarta-feira (17), conforme comunicado por sua filha, a autora e filósofa Lisa Ginzburg, em uma emotiva publicação no Instagram, acompanhada de uma fotografia ao lado do pai, com a breve mensagem “Adeus, pai”. Seu legado intelectual deixa uma marca indelével na forma como compreendemos o passado.

A micro-história, campo em que Ginzburg foi um dos principais expoentes, representa uma abordagem inovadora e desafiadora à pesquisa histórica. Este método de investigação propõe a análise de eventos e experiências em uma escala diminuta, focando em indivíduos ou comunidades específicas. Seu objetivo central é questionar e oferecer uma perspectiva alternativa aos grandes esquemas explicativos que dominaram a historiografia tradicional por décadas, como o materialismo histórico de base marxista. Ao mergulhar em detalhes muitas vezes negligenciados, a micro-história de Ginzburg revelou as complexas tramas sociais, culturais e mentais de épocas passadas, proporcionando uma compreensão mais nuançada da experiência humana.

A influência de Ginzburg no cenário cultural brasileiro

A presença de Carlo Ginzburg no Brasil foi notável e de grande valor para o intercâmbio acadêmico. Em 2002, o historiador marcou sua primeira visita a Porto Alegre, onde teve um papel fundamental na abertura conjunta do 1º Simpósio Nacional de História Cultural e do 9º Simpósio de História Antiga. Os eventos, que reuniram importantes nomes da área, ocorreram no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), consolidando sua importância para a academia brasileira.

Anos depois, em 2010, Ginzburg retornou à capital gaúcha para participar do prestigiado projeto “Fronteiras do Pensamento”. Sua atuação como conferencista neste fórum cultural demonstrou a amplitude de seu impacto, conectando o rigor acadêmico a um público mais amplo e interessado em discussões intelectuais de alto nível.

Ainda no Rio Grande do Sul, em 2007, Carlo Ginzburg esteve entre os convidados de destaque da Jornada Literária de Passo Fundo. Sua participação em um evento voltado para a literatura reforça o caráter interdisciplinar de sua obra, que transcendeu as fronteiras estritas da história, dialogando com a literatura, a filosofia e a antropologia.

Entre as obras mais importantes do historiador, que moldaram gerações de pesquisadores e estudantes, destacam-se “O Queijo e os Vermes”, “História Noturna” e “Os Andarilhos do Bem”. Todos esses títulos foram lançados no Brasil pela Companhia das Letras, editora que desempenhou um papel crucial na difusão de seu pensamento no país, tornando sua análise acessível a um vasto número de leitores e pesquisadores.

A trajetória de Carlo Ginzburg: da infância à consagração acadêmica

Nascido em Turim, Itália, em 15 de abril de 1939, Carlo Ginzburg carregava um notável legado familiar que influenciou profundamente sua formação. Sua mãe, Natalia Ginzburg, era uma aclamada romancista e tradutora, enquanto seu pai, Leone Ginzburg, professor de literatura russa, foi um ardente militante antifascista. A vida de Leone foi tragicamente ceifada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, quando Carlo tinha apenas cinco anos. Essa perda prematura e o engajamento político de seus pais, especialmente o antifascismo paterno, moldaram a consciência e os compromissos éticos de Ginzburg, direcionando-o para uma constante busca pela justiça e pela voz dos marginalizados na história.

Ginzburg era um intelectual de esquerda e dedicou sua carreira a explorar uma vasta gama de temas. Seus estudos notáveis incluíram desde os complexos julgamentos por bruxaria na Itália do Renascimento, onde desvendou as dinâmicas sociais e culturais por trás das perseguições, até as intrincadas crenças em magia popular da época. Ele também se aprofundou na história intelectual da Europa, sempre buscando os elos entre o micro e o macro, o popular e o erudito, revelando camadas de significado que escapavam às abordagens convencionais.

A sólida formação acadêmica de Ginzburg incluiu a conclusão de seu doutorado em Filosofia na renomada Scuola Normale de Pisa. Sua carreira docente foi igualmente brilhante, passando por instituições de prestígio como a Universidade de Bolonha, novamente a Scuola Normale Superiore de Pisa, e a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Essas passagens por instituições de ponta na Europa e nos Estados Unidos solidificaram sua reputação como um pensador global, com uma vasta rede de influência acadêmica.

Um marco indelével em sua carreira foi o lançamento de “O Queijo e os Vermes” em 1976. Este livro rapidamente se tornou um clássico e foi traduzido para diversos idiomas, incluindo o português. A obra reconstitui de maneira meticulosa o universo mental e as crenças heréticas de Menocchio, um moleiro do século XVI, originário de Friuli, na região nordeste da Itália. Utilizando registros de um tribunal da Inquisição, Ginzburg demonstra como o historiador pode acessar as vozes dos “pequenos” da história, revelando um conflito profundo entre a cultura popular e a cultura erudita da época. A relevância da obra reside em sua capacidade de humanizar o passado, mostrando a agência e as ideias de indivíduos comuns, desafiando a visão de uma história dominada apenas por grandes nomes e eventos.

Em um episódio que ilustra seu compromisso com a justiça e a interseção entre história e ética, Ginzburg se posicionou na defesa do jornalista de extrema esquerda Adriano Sofri. Sofri foi condenado pelo assassinato de um delegado de polícia em 1972, num caso que se estendeu por anos na justiça italiana. Amigo pessoal de Ginzburg, Sofri recebeu uma condenação de 22 anos de prisão em 1997, após uma série de sete julgamentos, sendo libertado em 2012. Em 1991, Ginzburg publicou “O Juiz e o Historiador”, um livro que analisava o primeiro julgamento de Sofri. Na obra, ele argumentava sobre possíveis equívocos do Judiciário, traçando paralelos convincentes com os processos de bruxaria dos séculos XVI e XVII, que ele havia exaustivamente pesquisado. Esta intervenção destacou a crença de Ginzburg de que a metodologia histórica poderia ser uma ferramenta crucial para a crítica e a busca pela verdade em contextos contemporâneos.

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