Cinebio dilui as contradições do artista em promessas de “na volta a gente compra”
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É com a validação da Academia e quatro estatuetas do Oscar 2019 que a produtora GK Films se autoriza a fazer de Michael uma cinebiografia musical muito parecida com Bohemian Rhapsody. Da estrutura de filme-de-karaokê, passando por escolhas tão particulares que soam supersticiosas (de novo Mike Myers fazendo ponta de executivo!) até chegar na decisão de isolar seu personagem principal numa bolha performática, o filme sobre Michael Jackson em tudo refaz prós e contras da cinebio do Queen.
No caso do Rei do Pop, falar de bolha performática não soa tão fora de lugar, na medida em que a extravagância e a alienação tornaram-se na virada do século os traços definidores da figura midiática de Jackson. O filme dirigido por Antoine Fuqua esboça o isolamento em meia-dúzia de cenas didáticas de foreshadowing: Michael conversando com os bichos de estimação, Michael agarrado ao livro de Peter Pan, a luva cobrindo o vitiligo, Michael na primeira cirurgia plástica, Michael trocando a família pelo guarda-costas que viraria figura paterna, Michael à vontade com crianças, por fim Michael vítima da indústria farmacêutica. Entre um vibrante número musical e outro, o filme vai polvilhando esses sinistros vislumbres de uma crise futura sem se comprometer em cena a realizá-la.
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Isso não deixa de ser uma escolha muito conveniente, o recorte histórico. Michael cobre o longo período de emancipação que vai do sucesso do Jackson 5 nos anos 1960 até a definitiva empreitada em carreira solo no fim dos anos 1980, com o lançamento de “Bad”. É a jornada essencial do sucesso, cobre os grandes hits da carreira, e estrategicamente deixa de fora os problemas judiciais que viriam a reboque da mudança para o Rancho Neverland a partir de 1988. Produtores do filme e o espólio do cantor sublinham na divulgação que a fase noventista de Jackson será tema de um segundo longa-metragem.
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Por enquanto o que temos, a exemplo de Bohemian Rhapsody, é a narrativa memorialista, de todos os personagens que orbitaram o astro em vida, viveram para contá-la, e agora cedem ao filme os direitos de uso das canções. A figura do gênio incompreendido é essencial para permitir a cinebiografia higienizada, onde toda potencial contradição é contida na bolha e sanada pela alienação: Michael, assim como Freddie Mercury, era maior que a vida, certamente maior que seus familiares, colegas e amores, tudo se perdoa em nome da sua mitificação, inclusive perdoa-se fazer um filme que o isola na caricatura da eterna criança amoral.
O que Michael Jackson demonstra aqui de poder de agência e protagonismo sobre sua própria vida resume-se ao seu folclórico processo criativo. É um dos únicos foreshadowings que o longa prevê e depois realiza: quando Berry Gordy apresenta ao jovem Michael a mesa de equalização da Motown. Anos depois surge o astro que conhecemos, metódico e incansável na solitude do estúdio, plenamente certo do efeito que sua criação causará. A cena da gênese de “Beat It” soa anedótica: Jackson só revela uma sensibilidade para o real através da televisão; ele assiste a uma reportagem sobre brigas de gangues em Los Angeles e através de “Beat It” imediatamente opera a paz entre Bloods e Crips em nome da arte.
Entre o folclórico, o caricato e o descompromissadamente sinistro, Michael transcorre por pouco mais de duas horas na cadência calculada de um metrônomo: os constantes saltos temporais nas montagens musicais dão conta de sobrevoar a vida vivida e não deixar nenhuma canção de fora, e quando o tempo presente se assenta ele só se presta a martelar os temas da emancipação e da competência. É evidente que num filme assim a performance se encarregará de tudo: só ela é capaz de dar densidade e alguma gravidade a esse panorama de Greatest Hits. Colman Domingo entende isso muito bem; seu Joe Jackson entra em cena com próteses e maquiagem carregada como um vilão da Disney reimaginado por Ryan Murphy, e o ator responde à encomenda com uma bombástica atuação de folhetim. No papel de Michael, o sobrinho do Rei do Pop, Jaafar Jackson, parece fazer um trabalho melhor que o de Rami Malek porque oferece uma mimetização mais suave, menos personalista. De novo, a ideia parece ser consagrar ideias prontas sobre essas pessoas sem gerar muitos ruídos, sem alimentar as contradições.
A certa altura do filme, Michael Jackson diz aspirar a uma excelência artística como a de Charles Chaplin, comediante capaz de idealizar, estrelar e dirigir os seus próprios filmes. Melancolicamente, o Chaplin que Jackson emula aqui talvez seja aquele de Tempos Modernos, mastigado pelas engrenagens da fábrica. Como na maioria das cinebios musicais autorizadas que neste século consagram o filme-de-karaokê, Michael faz do Rei do Pop pouco mais do que um exemplar operário do sucesso.


