Emirados Árabes anunciam saída da Opep após mais de cinco décadas – O GLOBO

Redação
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Emirados Árabes anunciam saída da Opep após mais de cinco décadas – O GLOBO

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram a saída da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e também da Opep+, aliança que reúne membros do cartel do petróleo e aliados como a Rússia, em um movimento com potencial para mexer no equilíbrio do mercado global de energia. A decisão entra em vigor no dia 1º de maio.

A ruptura representa um revés para a Opep e sua estrutura ampliada, especialmente para a Arábia Saudita, principal liderança do grupo e historicamente responsável por coordenar estratégias de produção capazes de influenciar os preços globais do petróleo. Representa ainda a busca de soberania sobre os rumos da produção nacional de Abu Dhabi.

Os Emirados Árabes foram o terceiro maior produtor de petróleo entre os 12 membros da Opep em março, com 2,4 milhões de barris diários, de acordo com dados da Agência Internacional de Energia. A produção de todos os países foi reduzida devido à guerra no Irã. Naquele mês, sem ter como escoar o petróleo pelo Estreito de Ormuz, a queda foi de 27% em relação ao volume produzido em fevereiro.

Em Washington, o anúncio também ganha leitura política. O movimento é visto como uma vitória para Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, crítico recorrente da atuação da Opep. Trump vinha acusando o grupo de “explorar o resto do mundo”, em referência à percepção de que a organização contribui para manter os preços do petróleo em patamares elevados.

A saída dos Emirados da Opep ocorre em um momento delicado para o setor, marcado por volatilidade nos preços e rearranjos geopolíticos. O ministro de Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail Mohamed al-Mazrouei, disse à Reuters que a decisão foi tomada após uma análise cuidadosa das estratégias energéticas do país.

Questionado sobre se os Emirados Árabes Unidos consultaram a Arábia Saudita, ele afirmou que o país não levantou a questão com nenhuma outra nação.

— Esta é uma decisão de política, tomada após uma análise cuidadosa das políticas atuais e futuras relacionadas ao nível de produção.

Efeitos da guerra do Irã

Os produtores do Golfo da Opep já vêm enfrentando dificuldades para exportar através do Estreito de Ormuz, entre o Irã e Omã por onde normalmente passa um quinto do petróleo bruto e do gás natural liquefeito do mundo, devido a ameaças iranianas e ataques contra embarcações.

Além do impacto econômico, a decisão dos Emirados adiciona tensão a um tabuleiro regional já sensível. O movimento ocorre após alertas de que aliados na região não estariam fazendo o suficiente para proteger seus próprios interesses diante de ameaças associadas ao Irã.

Os Emirados Árabes Unidos vêm há vários anos expressando sua frustração com a Opep em relação às cotas de produção do cartel, que têm impedido o país de exportar maiores quantidades de petróleo.

Esse desejo o colocou em rota de colisão com a rival regional Arábia Saudita em reuniões da Opep nos últimos anos. A tensão entre os dois países também aumentou neste ano porque, numa disputa por influência regional, Riad e Abu Dhabi apoiaram facções opostas na guerra no Iêmen.

A guerra no Irã tornou as relações na Opep ainda mais tensas porque colocou o Irã, membro do cartel, contra aliados dos EUA no Golfo, incluindo os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita.

Para Jorge León, chefe de análise geopolítica da Rystad Energy e ex-funcionário da Opep, o grupo fica “estruturalmente mais fraco” sem os Emirados Árabes Unidos, já que a Arábia Saudita seria o único membro com capacidade ociosa de produção, além dos emirados.

No entanto, mesmo sem os Emirados Árabes Unidos, a aliança mais ampla Opep+ ainda será responsável por cerca de 40% da produção global.

Ebtesam Al Ketbi, presidente do Centro de Políticas dos Emirados, escreveu no X que a saída da Opep marca uma transição de “compromissos coletivos baseados em cotas para uma flexibilidade soberana na gestão da produção, permitindo uma resposta mais rápida a interrupções como as relacionadas ao Estreito de Ormuz”.

Distrito Cultural da Ilha Saadiyat, a 'ilha dos museus' de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos: país está diversificand sua economia, apostndo no turismo e no sistema finaceiro . — Foto: Divulgação / Departamento de Turismo de Abu Dhabi
Distrito Cultural da Ilha Saadiyat, a ‘ilha dos museus’ de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos: país está diversificand sua economia, apostndo no turismo e no sistema finaceiro . — Foto: Divulgação / Departamento de Turismo de Abu Dhabi

Outro ponto que pesa na decisão dos Emirados Árabes é que o país vem buscando diversificar sua economia, apostando no turismo, na tecnologia e no setor financeiro. O governo vem implementando mudanças para se aproximar do Ocidente.

Em janeiro de 2022, por exemplo, o país mudou a configuração do fim de semana de sexta-feira e sábado para sábado e domingo, alinhando-se aos ritmos de Londres, Nova York e Hong Kong, e orientando-se para o comércio global em vez das convenções regionais.

O que é a Opep e como ela funciona?

A Opep reúne 12 países que são grandes exportadores de petróleo. Ela foi fundada em Bagdá, Iraque, em 1960, por cinco nações: Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela. Estes são chamados de membros fundadores.

Ao longo dos anos, outros países aderiram à associação: Líbia (1962), Emirados Árabes Unidos (1967), Argélia (1969), Nigéria (1971), Gabão (1975), Guiné Equatorial (2017) e Congo (2018). Esses são os chamados membros plenos, pois não faziam parte do grupo quando ele foi criado.

Petroleiros no Estrei no Ormuz, no litoral dos Emirados Árabes Unidos, — Foto: AFP
Petroleiros no Estrei no Ormuz, no litoral dos Emirados Árabes Unidos, — Foto: AFP

Entre os membros da Opep há ainda os associados, que são países que não se qualificam para a adesão plena, mas que são admitidos sob condições especiais. De acordo com o estatuto da Opep, eles não têm direito a voto nas reuniões.

A Opep foi criada com o objetivo de estabelecer uma política comum em relação à produção e à venda de petróleo, de forma a influenciar os preços do petróleo no mercado internacional. Por serem grandes produtores, seus membros são capazes mexer com as cotações, ao aumentar ou cortar a produção de forma coordenada.

A saída dos Emirados Árabes não será a primeira. Em 2019, o Catar também abandonou o grupo e, em 2024, a Angola se retirou. Quatro anos antes, o Equador saiu do cartel pela segunda vez.

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