Não é só o melanoma que dá metástase
O problema é que se fala muito pouco sobre essa doença e a pessoa deixa de procurar um médico, iludida de que aquilo é uma espécie de irritação passageira.
Se fosse a um dermatologista, extirparia a lesão nesses primeiros estágios e pronto. Se bem que existe a turma que, justamente porque resolveu tudo fácil da primeira vez, perde tempo quando vê outra lesão, adiando a ida ao médico sem desconfiar que, sim, um tumor espinocelular também é capaz de se espalhar pelo corpo.
“Isso ocorre com apenas 2% ou 3% dos casos”, informa o oncologista e cirurgião de cabeça e pescoço Neil D. Gross, referência em tumor espinocelular no MD Anderson Cancer Center, nos Estados Unidos. Mas não se engane: como o número de pacientes é nas alturas, o total de pessoas com a doença avançada está longe de ser desprezível.
Nelas, a lesão se torna profunda e destrói tecidos vizinhos. Pior: alcança gânglios linfáticos e, a partir deles, pode viajar por grandes nervos, fazendo o indivíduo perder a sensibilidade no rosto, por exemplo. Quando se vê, já tomou conta de tudo, muitas vezes tornando-se inoperável.
Qual o tamanho da encrenca?
Um dos desafios é este: os cânceres originados nas células escamosas da epiderme entram num saco de gatos, o dos tumores de pele não melanoma. Digo que é um saco de gatos porque mistura outras doenças malignas, como os tumores basocelulares.
Desse modo, sabemos pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) que a estimativa para este ano é de 263 mil novos casos de tumores de pele não melanoma. Aliás, no Sul do país, quase um terço de todos os cânceres são desse tipo. Quantos deles serão carcinomas espinocelulares? Não há ideia.
“Nos Estados Unidos é a mesma coisa”, conta Gross. “E uma das razões é, ironicamente, o fato de ser um câncer muito comum, tão comum que ninguém faz registro, como é obrigatório no melanoma.”
Na maioria das vezes, segundo o médico, a doença é flagrada cedo, tirada no consultório e ninguém fica sabendo oficialmente que aquele caso aconteceu.
Ameaça de morte
“Hoje, nos Estados Unidos, os tumores espinocelulares já matam mais que o melanoma”, assegura o doutor Gross. São cerca de 8,5 mil mortes de americanos por ano de uma doença e mais 8,5 mil de outra. Empate? “Ninguém acredita nisso porque existem pessoas que morrem por complicações de um tumor espinocelular sem, talvez, receberem o diagnóstico. A subnotificação é um obstáculo”, comenta Neil Gross.
O médico explica que, enquanto de uns anos para cá o melanoma, que antes era uma condenação à morte, vem sendo tratado com enorme sucesso com imunoterapia, quem tem o tumor espinocelular se via sem alternativa depois da cirurgia e da radioterapia. Esta serve para varrer eventuais células doentes ao redor do local onde estava a lesão retirada pelo bisturi.
“O mais lamentável é a falta de pesquisas”, constata. “Só contamos com três estudos prospectivos com um grande número de pacientes com tumores espinocelulares.” Só três?! Penso ter compreendido errado. “Isso mesmo”, ele confirma.
Aliás, Neil Gross visitou o Brasil na semana passada justamente para apresentar a um seleto grupo de colegas o terceiro desse trio de estudos prospectivos. Em tempo: “prospectivo” é adjetivo usado em pesquisas médicas quando você pega um grupo de pacientes e começa a acompanhá-los dali em diante para ver no que daria determinado tratamento. Gross mostrou, sem esconder o entusiasmo, os dados do ensaio clínico C-POST, que testou um imunoterápico, o cemiplimabe, em 415 pacientes com doença avançada de 16 países.
Os resultados foram tão bons que o tratamento foi aprovado nos Estados Unidos em outubro do ano passado e, no Brasil, em janeiro deste ano, trazido para o país pela farmacêutica uruguaia Adium.
Quem tem maior risco?
Na aula que deu para os colegas daqui, o médico americano revelou que 84% dos participantes do estudo com o imunoterápico eram homens. Depois me esclareceu a razão: “Se olhamos para o perfil de quem tem a doença avançada, a maioria é sempre do sexo masculino. Talvez porque os homens se exponham mais ao sol sem proteção ou porque alguns têm menos cabelo, favorecendo a lesão no couro cabeludo”, reflete.
Outra razão: as mulheres vão mais ao dermatologista e, assim, ganham a chance de descobrir a doença em seus estágios iniciais para, literalmente, arrancá-la.
Em geral, corre maior risco quem tem pele muito clara e, portanto, mais sensível à radiação solar. “Esse câncer é bem mais raro em pessoas negras”, observa o doutor Gross. No entanto, isso não quer dizer que não possa acontecer nelas também.
“Até porque o tumor espinocelular pode aparecer em indivíduos que sofreram traumas crônicos na pele ou que apresentam cicatrizes de queimaduras, um cenário que vemos em brasileiros de pele mais escura”, completa o oncologista clínico Rodrigo Munhoz, do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, que é presidente do Grupo Brasileiro de Melanoma, o qual, apesar do nome, vem se debruçando sobre tumores cutâneos em geral.
No estudo, a média de idade foi de 71 anos. Na verdade, o risco de um tumor desses cresce a partir dos 50 anos.
O tratamento com o imunoterápico
No C-POST, os participantes foram sorteados para cair no grupo do tratamento placebo ou do cemiplimabe. Claro, antes todos passaram por cirurgia, quando ela se mostrava viável, e pela radioterapia.
No grupo do imunoterápico, medicamento que faz as defesas do próprio organismo notarem o câncer para atacá-lo, o cemiplimabe foi aplicado a cada três semanas durante três meses. O que os pesquisadores queriam saber era se, mais que evitar a morte, o tratamento proporcionaria uma trégua, isto é, um tempo livre da doença, já que ela nunca dá sossego a partir do momento em que avança.
“Esse tumor não costuma voltar apenas como metástase, isto é, em um lugar distante do original”, explica Munhoz. “Ele pode recorrer localmente. Só que isso também causa muita dor e acaba com a qualidade de vida.”
No final, o que se viu foi que os pacientes tratados com imunoterapia tinham um risco 68% menor de morte e de recorrência, quando comparados àqueles que receberam placebo. Para ser mais precisa, a ameaça de o câncer voltar no mesmo local foi reduzida em 80%. E o risco de ele ir parar lá longe, em metástases, caiu 65%. “Passados dois anos, 97,7% dos indivíduos continuavam livres da doença”, anunciou o doutor Neil Gross em sua apresentação.
O que esperar a partir de agora
“Por causa desse resultado, a imunoterapia com cemiplimabe já é um divisor de águas nos casos avançados do carcinoma espinocelular, quando a doença já alcançou dois ou três gânglios ou até mesmo nervos”, pensa o médico americano.
Segundo ele, os próximos passos incluem testar o mesmo imunoterápico antes da cirurgia, para convocar as nossas células de defesa ao combate contra o tumor, diminuindo o seu tamanho e, consequentemente, aumentando a chance de sucesso de tirá-lo completamente com o bisturi.
“Outra estratégia estudada é bem curiosa”, ele conta. “A ideia é injetar o cemiplimabe no tumor, quando ele ainda é muito pequeno, e comparar o resultado dessa injeção com o da cirurgia.”
Sem dúvida, a perspectiva é animadora. Mas muito melhor seria não depender de nada disso. Ou seja, prestar atenção não apenas em pintas diferentes, mas em casquinhas que nunca desaparecem, das quais precisamos falar muito mais.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL


