Os sinais das últimas horas de que EUA e Irã se aproximam de um acordo — mencionados primeiro pelo site noticioso Axios — são os mais claros desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.
Aparentemente, desta vez, o otimismo — que beira a euforia nos mercados de petróleo — está ancorado em questões mais pragmáticas, como os custos políticos, econômicos e até mesmo institucionais de uma escalada.
As pesquisas de opinião pública têm apontado queda consistente na aprovação do presidente americano, Donald Trump. A seis meses de cruciais eleições legislativas e e locais de meio de mandato, a desaprovação de Trump atingiu o recorde de 62%, segundo o estudo Washington Post-ABC News-Ipsos divulgado no domingo.
Economicamente, para o mundo, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, tem repetido alertas de que a guerra está próxima de empurrar a economia global para os “piores cenários” de inflação, enquanto as reservas mundiais de petróleo minguam em ritmo acelerado.
Institucionalmente, o governo Trump teve de lançar mão de malabarismos retóricos para não violar a lei que exige que uma guerra de mais de dois meses seja encerrada ou ter sua continuidade submetida ao Congresso. A saída foi alegar que a guerra iniciada em 28 de fevereiro se encerrou no frágil cessar-fogo de 7 de abril — e que todas as hostilidades que vieram depois eram parte de outro processo.
Nesse cenário, a diplomacia volta a ocupar espaço central como instrumento de contenção. Mesmo o tom duro do post da manhã de quarta-feira de Trump, que inclui ameaças explícitas, convive com a admissão de que há termos “já acordados” em discussão com Teerã. Isso sugere que os canais ativos — ainda que indiretos — estiveram e estão em funcionamento e aponta para a busca de uma saída. Ainda que essa saída possa ser apresentada aos públicos internos, tanto do Irã quanto dos EUA, como uma vitória militar incontestável.
A suspensão da operação para escoltar navios pelo Estreito de Ormuz — anunciada por Trump dois dias antes — reforça a leitura de que Washington tem evitado um aprofundamento do conflito, enquanto busca manter sua capacidade de dissuasão.
Para o Irã, a continuidade do confronto tem sido altamente custosa, na mesma medida em que o fim dele pode se tornar um alívio sem precedentes na última década. Segundo o que se especulou sobre um eventual acordo, ele permitiria o levantamento das sanções contra o país e a liberação de ativos congelados em bancos no exterior.
Isso, ao mesmo tempo em que as discussões sobre o programa nuclear ficariam para uma fase futura.
Existe tudo isso. E há a China. A grande compradora de petróleo da região, obviamente, tem interesse direto na estabilidade do Golfo e na manutenção das rotas energéticas.
A movimentação de seu chanceler, Wang Yi, em contatos com autoridades iranianas sugere uma tentativa de facilitar entendimentos mínimos. Esse tipo de mediação, mais discreta, tende a favorecer acordos parciais, focados em medidas concretas, como a redução de operações militares e a garantia de navegação segura.
Um acordo, assim, daria ao regime do Irã a chance de sobreviver — mesmo após a morte da maior e mais importante parte de seus líderes — e posar como a potência regional que venceu “O Grande Satã”, como se referem aos EUA.
E a Trump, a oportunidade de — ignorando a questão nuclear — apresentar-se como o herói que liberou a navegação em uma via marítima que nunca esteve fechada até a guerra que decidiu lançar.


