Adolescentes nos Estados Unidos passam mais de uma hora no telemóvel entre as 22h e as 6h em noites de escola. A constatação vem de uma nova investigação que analisou padrões de uso de dispositivos eletrônicos. Mais de metade deles ainda verifica o aparelho entre a meia-noite e as 4h.
Esses hábitos interferem diretamente no tempo de descanso. A Academia Americana de Pediatria e a Academia Americana de Medicina do Sono recomendam entre oito e dez horas de sono por noite para essa faixa etária. O descumprimento dessa orientação traz riscos ao desenvolvimento cerebral e físico.
Pesquisa analisou dados de grande estudo sobre desenvolvimento cerebral
Jason M. Nagata, professor associado de pediatria na Universidade da Califórnia em São Francisco, liderou o trabalho. A equipe examinou informações do Estudo sobre o Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente. Os resultados mostram como o uso específico de aplicações à noite reduz o sono.
Os jovens dedicam em média 33 minutos por noite a redes sociais, entretenimento, jogos e comunicação. Aplicações como YouTube, Instagram e TikTok concentram a maior parte desse tempo. O envolvimento ativo exigido por essas plataformas mantém o cérebro em estado de alerta quando deveria desacelerar.
- Mais de metade dos adolescentes usa o telemóvel por uma hora ou mais entre 22h e 6h
- Mais da metade verifica o aparelho entre meia-noite e 4h
- 17% relatam ser acordados por notificações pelo menos uma vez por noite
- 20% usam o telemóvel se acordam durante a madrugada
- Tempo médio em redes sociais e entretenimento chega a 33 minutos diários à noite
Falta de sono compromete funções cognitivas e emocionais
A privação de sono afeta a capacidade de consolidar informações aprendidas durante o dia. Mary A. Carskadon, professora de psiquiatria na Universidade de Brown, explica que a adolescência é um período intenso de aprendizado escolar, esportivo e social. Sem descanso adequado, esse processo fica prejudicado.
Um estudo anterior de 2013 acompanhou adolescentes saudáveis por três semanas. Na fase com apenas seis horas e meia de sono, os participantes relataram maior irritabilidade, ansiedade e fadiga. Os pais também notaram piora na regulação emocional.
Quanto menos dorme o adolescente, maior a irritabilidade. Para jovens mais vulneráveis, o risco inclui sintomas de depressão, ansiedade e até comportamentos de risco. Especialistas destacam que o impacto vai além do cansaço imediato.
Notificações interrompem o ciclo natural do sono
A luz da tela, o som das notificações e o hábito de checar o aparelho criam fragmentação do sono. Mesmo que o jovem volte a dormir, o descanso perde qualidade. O reflexo automático de pegar o telemóvel ao acordar à noite reativa pensamentos e dificulta o retorno ao sono.
Pesquisas anteriores já associavam o uso de telas antes de dormir ao atraso na hora de deitar. O novo estudo reforça que o problema continua depois que as luzes se apagam. O ciclo comportamental reforça o hábito e torna mais difícil mudar a rotina.
Pais e família precisam participar da solução
Jason M. Nagata e Mary A. Carskadon defendem que a mudança começa em casa. Os pais devem servir de exemplo no uso de ecrãs. O comportamento dos adultos influencia diretamente o dos filhos.
A Academia Americana de Pediatria sugere a criação de um plano familiar de utilização de meios de comunicação. Esse documento define horários, limites e atividades sem dispositivos. Zonas livres de ecrãs na casa também ajudam.
Outra recomendação é manter telemóveis fora dos quartos à noite. Alguns especialistas propõem um “cofre familiar” para recolher os aparelhos. A questão deve ser tratada como familiar, e não apenas responsabilidade dos adolescentes.
Recomendações buscam equilibrar tecnologia e saúde
Especialistas reforçam que não se trata de proibir completamente o uso. O objetivo é estabelecer limites que permitam o descanso necessário. Atividades físicas, leitura impressa e interações presenciais podem preencher parte do tempo antes de dormir.
O tema ganha relevância porque o cérebro adolescente ainda está em formação. Garantir sono de qualidade contribui para melhor desempenho escolar, controle emocional e saúde mental a longo prazo.
As plataformas de redes sociais foram procuradas para comentar o estudo. O YouTube indicou recursos de controlo parental. TikTok e Instagram não responderam aos pedidos até o momento da publicação.


