Tradição: fiéis usam carros de boi e iniciam romaria rumo a Trindade

Redação
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Tradição: fiéis usam carros de boi e iniciam romaria rumo a Trindade

Segunda maior manifestação religiosa do Brasil, a Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, já começou a atrair fiéis de todo o país. Os peregrinos já cruzam cidades em carros de boi para chegar ao município, considerado a capital da fé, onde ocorrem as festividades. Neste ano, o tema será “Abba, Pai”.

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Entre os fiéis que já iniciaram o trajeto está o produtor rural Wilton Vieira, que deixou Orizona, cidade a cerca de 165 km de Trindade, no último dia 15 de junho. Seguindo a tradição de fé há 40 anos, o romeiro é acompanhado por 44 pessoas divididas entre 14 carros de boi. 

A viagem deve durar, de acordo com Wilton, 15 dias de estrada. No entanto, como vão presenciar o desfile e assistir a missa por dois dias, o trajeto deve se estender por três semanas.

“A viagem tem dificuldades, né. É frio, poeira, calor, mas nada que uma fé, uma tradição não supere. Vamos tirando de letra porque temos muita fé. Só falta mais apoio, uma polícia militar ajudando nas travessias da cidade e nas rodovias”, afirma.

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Fiéis na Romaria do Divino Pai Eterno em carros de boi
Crianças também participam da tradição – (Foto: arquivo pessoal)

Tradição herdada 

Assim como Wilton, o trabalhador rural Henrique Rodrigues Pinheiro, de 33 anos, iniciou a romaria rumo à Trindade no último sábado (20). De Caldazinha, Henrique herdou o costume do avô há 17 anos e contou com a ajuda do “companheiro” de viagem até 2025 – ano que o idoso faleceu. 

Segundo ele, o costume familiar começou quando o avô ainda era criança. O trabalhador lidera um grupo de cerca de 40 fiéis e 10 carros de boi de três municípios distintos: Caldazinha, Senador Canedo e Aparecida de Goiânia. A viagem deve durar uma semana, com chegada prevista para a próxima sexta-feira (26).

“O trânsito é o maior obstáculo. Precisamos atravessar as cidades, como Aparecida de Goiânia e Senador Canedo. A polícia ajuda, mas para nós é a maior dificuldade que enfrentamos”, conta.

Fiéis na Romaria do Divino Pai Eterno em carros de boi
Romeiros tocando carros de boi – (Foto: arquivo pessoal)

Preparativos 

A logística da viagem, que requer alimentação e pausas de descanso tanto para romeiros quanto para os animais, exige preparação antecipada. O carpinteiro e influencer Luiz Carlos de Souza, de 56 anos, por exemplo, explica que passa o ano todo se preparando para o evento e fabricando carros de boi. 

Os preparativos se intensificam cerca de 30 a 15 dias antes da partida, com a preparação de suprimentos, como carne seca, linguiça seca, carne de lata e rapadura. O trabalho é dividido entre homens (responsáveis pela carne) e mulheres (preparam doces e quitandas).

“Já matamos os porcos e os guardamos nas latas. As rapaduras foram feitas na semana passada e, essa semana, as mulheres vão começar a fazer os doces. Também fazemos paçoca para comer durante a caminhada”, explica.

Mantendo a tradição da família que se aproxima de um século, Luiz e os romeiros de Anicuns devem deixar a cidade no próximo sábado (27). O carpinteiro projeta que 40 carros de boi e 280 pessoas devem realizar o percurso de 57 km.

“Vou desde 1 ano de idade. Comecei na década de 80 e fui até os anos 90 de carro de boi. Depois comecei a ir de automóvel, mas voltei a ir de carro de boi em 2016. O trajeto de carro de boi aprendi com o meu pai aos 5 anos e, desde então, aprendi a gostar”, afirma.

Fiéis na Romaria do Divino Pai Eterno em carros de boi
Luiz Carlos de Souza, de Anicuns – (Foto: arquivo pessoal)

Dificuldades

Luiz explica que a água para os animais é um dos maiores obstáculos do percurso devido aos corredores, que impedem que o gado chegue até os rios. Para evitar o cansaço e a fadiga dos animais, os romeiros costumam viajar durante à noite e o início da manhã.

Os grupos costumam pousar em postos de combustíveis, fazendas ou em acampamentos à beira da estrada. Durante as paradas, os homens costumam levantar as barracas, enquanto as mulheres ficam responsáveis pela alimentação. 

“Devido à escassez de água e para não judiar dos animais com o sol quente, a gente costuma prolongar os dias de viagem. Muita gente vai pela bebedeira, não pela fé ou tradição. Isso atrapalha muito também”, diz.

Fiéis na Romaria do Divino Pai Eterno em carros de boi
Agropecuarista Ulisses Adorno Prudente, de 48 anos – (Foto: arquivo pessoal)

A dificuldade também é compartilhada pelo agropecuarista Ulisses Adorno Prudente, de 48 anos. O ex-funcionário público de Mossâmedes, que participa da romaria há 25 anos, conta que o grupo de 30 carros de boi e 150 pessoas costuma ter dificuldades para encontrar um lugar para repousar com pasto para o gado. 

Lonas e os próprios carros de boi são usados como dormitórios, além de uma espécie de dispensa móvel. Com uma estimativa de 15 dias de viagem contando ida e volta, Ulisses afirma que outro empecilho é a divisão de tarefas durante o percurso.   

“Nos carros de boi levamos tudo que é necessário para dormirmos e prepararmos refeições. A comida é feita diariamente nestas barracas. A primeira vez fui de carona, mas o encantamento foi tanto que nos anos seguintes pegava emprestado carros de boi e o gado. Depois comecei a vir com os meus próprios”, concluiu.

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