
Escorpião – Foto: Sigma_S/Shutterstock.com
Pensar em um escorpião imenso, com porte de um cachorro, deslocando-se sobre rochedos úmidos e circulando grandes formações vegetais, para então mergulhar em um curso d’água próximo, ilustra a visão de cientistas sobre o maior escorpião já registrado. Essa criatura teria habitado a região da atual Grã-Bretanha há cerca de 415 milhões de anos.
Essa reveladora percepção foi alcançada por meio da reanálise de fósseis que permaneciam guardados no Museu de História Natural de Londres por mais de um século. Ao combinar esses materiais históricos com achados mais recentes, os pesquisadores construíram um perfil detalhado de um ser que, anteriormente, havia sido classificado como um crustáceo, similar a lagostas e outros invertebrados aquáticos.
Conforme o estudo divulgado em 2 de junho na revista Palaeontology, o Praearcturus gigas possuía um comprimento estimado de cerca de 1 metro, o equivalente a pouco mais de três pés.
Russell Bicknell, paleobiólogo e pesquisador da Universidade Flinders, na Austrália, que não esteve envolvido na nova investigação, descreveu a criatura como “extremamente robusta”. Ele acrescentou que “ninguém desejaria cruzar com algo assim em um local isolado; seria uma verdadeira fera”.
A discussão sobre a classificação do P. gigas não é nova. Pesquisas iniciais, datando de sua identificação na década de 1870, apontavam para sua ligação com um grupo de crustáceos, os isópodes. Contudo, a partir dos anos 1980, com o avanço do conhecimento sobre o *P. gigas* e organismos semelhantes, a hipótese de ser outro tipo de artrópode – um invertebrado com exoesqueleto e membros articulados – mais especificamente um escorpião, começou a ganhar força na comunidade científica, demonstrando a importância da revisão contínua.
Elizabeth Dowding, catedrática de análise paleoambiental na Universidade Friedrich-Alexander de Erlangen-Nuremberg, Alemanha, ressaltou que o trabalho valida a relevância da ciência revisionista. Ela não esteve envolvida na nova investigação.
“Nossa compreensão da extinção e da biologia evolutiva é moldada pela capacidade dos pesquisadores de revisitar e reavaliar continuamente os mesmos dados”, explicou Dowding. “É notável que esta narrativa seja, em si, um testemunho de constante revisão e curiosidade em relação ao mesmo conjunto de evidências rochosas. Isso ilustra o funcionamento intrínseco da ciência.”
Como os cientistas identificaram este escorpião gigante primitivo
A equipe de pesquisa analisou detalhadamente oito fósseis coletados em três locais arqueológicos ao longo dos anos, empregando tomografias computadorizadas e outras tecnologias para estudar os espécimes da coleção do Museu de História Natural. Houve também uma colaboração com um artista para gerar ilustrações da provável aparência do animal em seu habitat ancestral.
De acordo com Richard Howard, curador de artrópodes fósseis do Museu de História Natural e autor principal da investigação, a “evidência decisiva” de que os vestígios fossilizados eram de outra espécie surgiu com um estudo de 2015 que detalhou um escorpião encontrado no Canadá.
O Eramoscorpius brucensis, essa espécie canadense, apresentava uma peculiaridade crucial que se mostrou esclarecedora para Howard e sua equipe: seu esterno, a placa ventral localizada entre as patas, era extenso, triangular e possuía um sulco central, uma configuração idêntica à observada no P. gigas.
“A similaridade entre os esternos dos dois escorpiões é exata”, afirmou Howard, o que permite inferir que se tratam de criaturas intimamente conectadas.
O P. gigas habitou o planeta durante o início do período Devoniano, uma era em que a vida terrestre era majoritariamente aquática. Conforme Howard, a existência de um escorpião desse porte nesse estágio é, de certa forma, inesperada.
“A descoberta de um artrópode gigante neste período recua significativamente o que esperávamos”, declarou o pesquisador. Howard detalhou que escorpiões e outros artrópodes de grande porte, como as versões primordiais de libélulas e milípedes, são geralmente associados a um período cerca de 50 milhões de anos posterior. Naquela época mais recente, florestas exuberantes e vegetação arbórea contribuíram para um aumento substancial nos níveis de oxigênio, criando condições favoráveis para o gigantismo em criaturas terrestres – o que torna a presença do P. gigas no Devoniano ainda mais notável pela escassez de oxigênio.
Contudo, durante o Devoniano inicial, caracterizado por uma atmosfera com baixa concentração de oxigênio, “os limites entre os seres vivos terrestres e aquáticos tornavam-se consideravelmente mais fluidos”, observou Howard.
Para além de sua dimensão colossal, o P. gigas apresentava patas, pinças e cabeça recobertas por saliências rugosas, um traço comum em escorpiões, conforme os cientistas. Apesar da ausência de olhos preservados nos espécimes fósseis do museu, os pesquisadores inferem que o P. gigas, à semelhança dos escorpiões atuais, possuía órgãos visuais na parte frontal do crânio.
Curiosamente, as pinças do P. gigas teriam aproximadamente 16 centímetros de comprimento, comparáveis ao tamanho de uma nota de dólar. Russell Bicknell, da Universidade Flinders, enfatizou: “Isso equivale a cerca de quatro vezes o comprimento das pinças de um escorpião moderno de grande porte.” Para contextualizar, o escorpião-gigante-da-floresta, reconhecido como a maior espécie viva, tipicamente possui entre 10 e 13 centímetros de comprimento. Essa proporção destaca o gigantismo do espécime pré-histórico.
Além disso, o escorpião apresentava estruturas semelhantes a abas no abdômen, denominadas epímeras laterais. “Nenhum outro escorpião conhecido possui tais formações”, pontuou Howard. Essas características são usualmente associadas a artrópodes marinhos, como os caranguejos-ferradura, e Howard sugere que elas podem ter auxiliado o P. gigas na natação.
Este novo estudo igualmente possibilitou a reclassificação de outros dois artrópodes da mesma era. Anteriormente, esses organismos, um dos quais possivelmente também era um escorpião colossal, não eram vistos como parentes do *P. gigas*. Contudo, a pesquisa atual indica que essas espécies adicionais provavelmente fazem parte do gênero *P. gigas*.
Debate sobre o habitat: Criatura terrestre ou anfíbia?
Os pesquisadores também exploraram possíveis comportamentos do animal. Uma das teorias levantadas para justificar seu gigantismo é a de que, como um dos primeiros seres terrestres de sua linhagem, o escorpião se desenvolveria em tal escala como estratégia para evitar predadores.
Entretanto, essa dimensão colossal poderia apresentar um desafio significativo, visto que suas presas em terra consistiam em seres minúsculos, como ácaros e aracnídeos bem menores. “É improvável que uma criatura do porte de um cão conseguisse se alimentar eficientemente de tantas pequenas presas”, observou Howard. “Não consigo imaginar como ele as capturaria.”
Por essa razão, a equipe de cientistas sugere que o P. gigas possuía um estilo de vida anfíbio, com uma dieta composta por peixes primitivos com carapaça e sem mandíbula, que eram comuns nas águas daquele período.
Contudo, a identificação do P. gigas como um escorpião não gera consenso absoluto. Jason Dunlop, diretor científico da coleção de aracnídeos, miriápodes e artrópodes do grupo-tronco do Museu de História Natural (Museum für Naturkunde) em Berlim, expressou em um e-mail à CNN: “Minha ressalva, e os autores a reconhecem, é que dispomos apenas de fragmentos do espécime original.”
Dunlop, que foi coautor do artigo de 2015 e revisor deste novo estudo, apontou que duas características cruciais dos escorpiões — o ferrão na extremidade da cauda e as pectinas, órgãos sensoriais em formato de pente na parte inferior do corpo — não foram localizadas. Ele adicionou que “pinças grandes também podem ser observadas em certos crustáceos”.
Howard admitiu que sua equipe trabalhou com um espécime incompleto, mas defendeu que não há motivos para assumir a ausência de um ferrão na cauda. “Se um esqueleto de dinossauro é encontrado sem a cabeça, não se presume que ele não a possuía”, argumentou.
Para Dunlop, essa postura cética ilustra a complexidade do trabalho com fósseis, já que os espécimes raramente são desenterrados intactos, diferentemente do que é retratado em filmes como “Jurassic Park”. “Fósseis autênticos frequentemente estão fragmentados, desorganizados e incompletos, e o desafio reside em interpretar o que observamos a partir das provas disponíveis”, comentou.
As implicações de revisitar os fósseis
Este trabalho de pesquisa tem diversas consequências importantes. “Ele estabelece as bases para renovar nossa compreensão dos animais dessa era geológica”, afirmou Bicknell. “Creio que nos próximos cinco a dez anos testemunharemos um crescimento na documentação de novos escorpiões desse período.”
Segundo Dowding, a reclassificação do P. gigas como escorpião também acarreta implicações de ordem prática.
“Em virtude dessa reanálise, todos os bancos de dados de paleobiologia precisarão atualizar suas informações para integrar esses novos achados”, explicou Dowding. Isso é particularmente relevante, uma vez que os pesquisadores aplicaram o conhecimento adquirido sobre o P. gigas para reavaliar e esclarecer a classificação de outros dois organismos, impactando a compreensão global da diversidade desse grupo.
“As repercussões deste estudo têm o potencial de transformar a percepção global sobre a diversidade deste conjunto de espécies”, concluiu.



