Com base em relatos de vítimas, o papiloscopista constrói, traço por traço, a imagem de um possível autor de um crime normalmente hediondo. O trabalho pode levar horas e, em alguns casos, há o acompanhamento psicológico para ajudar a vítima a se lembrar das características do infrator, mesmo estando em estado de abalo emocional.
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Desta forma, é realizado o trabalho minucioso do retrato falado, cuja técnica é desenvolvida por oito profissionais da Superintendência de Identificação Humana em todo o Estado de Goiás. Em média, são criados mensalmente cinco retratos falados, que são utilizados pela polícia para ajudar a identificar suspeitos e procurados em casos específicos, principalmente em ocorrências envolvendo crimes sexuais e tentativas de assassinato.
A técnica, que antes era manuscrita e hoje é totalmente digital, ajudou na captura do serial killer Tiago Henrique, conhecido como “Maníaco de Goiânia”, preso em 2014, de acordo com o delegado e superintendente de identificação humana de Goiás, Webert Leonardo. Com quase 40 vítimas confessas, o goiano é considerado o maior matador em série dos últimos 60 anos, tendo levado a Polícia Civil de Goiás (PCGO) a desencadear a maior e mais complexa investigação da história da corporação (relembre abaixo).

“Como ele atacava de moto e capacete, a identificação era muito difícil. No entanto, em um dos crimes (o homicídio de uma mulher no Bairro Goiá), a irmã da vítima conseguiu presenciar traços do rosto do criminoso e colaborou na confecção de um retrato falado detalhado. Quando Tiago foi preso pela força-tarefa, a semelhança entre as características apontadas na imagem produzida pela polícia e as fotos reais do vigilante chamou a atenção pública e validou a precisão técnica da equipe envolvida”, reforça Webert.
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Outros casos históricos que contaram com retratos falados, conforme o delegado, incluem o serial killer Francisco de Assis Pereir, conhecido como “Maníaco do Parque”, e o “Caso Ives Ota”, relacionado ao sequestro e assassinato do menino Ives Yoshiaki Ota, de 8 anos, ocorrido em agosto de 1997 no Estado de São Paulo.
O que é?
O retrato falado, cujo termo técnico oficial na perícia é Representação Facial Humana (RFH), conforme o superintendente, é uma técnica investigativa que transforma a memória de uma testemunha ou vítima em uma imagem visual do suspeito.
A imagem produzida tem como objetivo dar uma “direção” para a investigação quando não há imagens de câmeras de segurança no local. O material, porém, não serve como prova definitiva para condenar alguém, mas funciona como uma espécie de filtro, ajudando a polícia a perceber denúncias falsas ou verdadeiras e a estreitar o círculo de suspeitos.
“Os profissionais utilizam softwares especializados de composição facial e programas avançados de edição de imagem, operados em mesas digitalizadoras. O processo deixou de ser um simples ‘desenho’ e passou a ser uma arte forense digital computadorizada, permitindo ajustes precisos e texturas muito mais realistas em tempo real. Inclusive com uso de ferramentas de inteligência artificial para auxiliar os profissionais”, explica.
O primeiro retrato falado feito de forma virtual no Estado foi divulgado em 10 de junho de 2021. A ferramenta possibilita que a vítima dê informações sobre as características físicas de criminosos por meio de videoconferência. A primeira vítima que realizou o procedimento foi uma mulher, na época com 23 anos, que foi abusada sexualmente em 24 de maio do mesmo ano, em Iporá. O criminoso estava em uma moto quando a abordou e cometeu o crime.

“É utilizado em casos onde não há outra forma de identificar visualmente o autor do crime, exceto pela memória de quem presenciou o fato. É muito comum em crimes graves como roubos e extorsões, estupros e abusos sexuais (onde frequentemente a vítima é a única testemunha), além de homicídios sem monitoramento de câmeras por perto”, reforça Webert.
Desaparecidos
Outra característica importante do retrato falado, segundo Webert, é que ele auxilia na localização de pessoas desaparecidas. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 3.789 pessoas desapareceram em Goiás em 2024 — uma média de 10 por dia.
Mesmo pessoas que estão desaparecidas há anos, como mostrado pelo Mais Goiás nos casos Juliana Pereira de Morais, Maycon Eder Alves de Jesus e Mayra da Silva Paula, é possível realizar técnicas de retrato falado para auxiliar nas buscas e na possível localização das vítimas, dando esperança a famílias que esperam reencontrar entes queridos.
“Há casos em que pessoas desaparecem e a família traz fotos antigas dessa pessoa desaparecida, e gente aqui da superintendência de identificação humana, com o nosso grupo seleto e altamente especializado devido ao nível de detalhamento técnico e sensibilidade psicológica, consegue através de muito estudo técnico e científico fazer, por exemplo, uma projeção de envelhecimento dessa pessoa”, afirma.
Capacidade de memória
A visão do retrato falado, porém, depende da capacidade de memória e descrição da testemunha, do tempo ocorrido desde o evento e, principalmente, do profissional técnico especializado para colher essas informações. Todo o processo requer um alto grau de concentração e profissionalismo para conseguir ter êxito.
Porém, o trabalho também conta com desafios. De acordo com o delegado, as maiores dificuldades enfrentadas para que essa ferramenta venha a ser feita da forma mais eficiente possível estão relacionadas à baixa iluminação nos locais de crime.
Apetrechos utilizados pelos criminosos, como bonés, óculos e acessórios também dificultam o trabalho, visto que a vítima tem maior dificuldade em captar as características dos indivíduos. A própria falta de capacidade da vítima de memorização devido ao choque provocado pelo crime também é um dos dilemas do trabalho.
“A memória humana em situações de estresse (trauma) se fragmenta rápido. A entrevista com o especialista em retrato falado utiliza técnicas como a entrevista cognitiva para acessar esses detalhes antes que o tempo apague ou distorça as lembranças da testemunha”, concluiu.
Tiago Henrique
O retrato falado foi fundamental para elucidar o caso Tiago Henrique Gomes da Rocha, considerado o mais complexo da história de Goiás. O serial killer foi preso em 14 de outubro de 2014, durante uma mega força-tarefa da Polícia Civil para desvendar a onda de assassinatos na região da Grande Goiânia.

Quatro papiloscopistas atuaram na “caçada” que, inicialmente, convocou 16 delegados e 30 agentes de polícia. O trabalho minucioso levantou todas as características físicas dele e dos componentes da moto que utilizava, de forma que os agentes envolvidos identificariam, de primeira, se o vissem.
Antes de ser preso, de janeiro a agosto de 2014, o serial killer matou 16 pessoas, sendo 15 mulheres, de 13 a 28 anos, e um homem de 51. Desde que foi preso, Tiago vem enfrentando o banco de réus, que o condenou a quase 700 anos de prisão por 35 assassinatos, entre vítimas mulheres e pessoas em situação de rua. Tiago viveu a última década numa cela isolada do Núcleo de Custódia do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, onde continua atualmente.


