Foto: Proposta garante acesso à justiça e o direito à reparação integral – Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Um novo projeto de lei, identificado como PL 665/26, está em tramitação no Congresso Nacional com o objetivo de instituir a Política Nacional de Prevenção e Enfrentamento ao Transfeminicídio (PNPET). A iniciativa visa combater as mortes de mulheres trans e travestis que são motivadas pelo ódio à identidade de gênero, estabelecendo um conjunto de ações para garantir assistência e proteção integral tanto às vítimas quanto a seus familiares. A medida surge em um contexto de alta preocupação com a segurança e os direitos dessa população no país.
Projeto de lei busca combater mortes por transfobia e garantir proteção
A proposta legislativa estabelece como um de seus pilares a erradicação do transfeminicídio e de todas as formas de violência de gênero em território nacional. Para alcançar esse objetivo, o texto prevê a implementação de um sistema robusto de notificações, essencial para a coleta e divulgação de estatísticas e dados precisos sobre as tentativas e os casos consumados de violência. Essa base de informações é considerada fundamental para a formulação de políticas públicas mais eficazes e direcionadas, permitindo uma compreensão aprofundada da dimensão do problema e de suas manifestações.
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Além do monitoramento, o projeto impõe ao governo brasileiro o dever de oferecer um atendimento humanizado e que evite a revitimização das mulheres trans e travestis. Esse cuidado na abordagem é crucial para não agravar o trauma das vítimas. A proposta também assegura o pleno acesso à justiça e o direito à reparação integral para as mulheres agredidas e seus dependentes, reconhecendo a necessidade de compensação pelos danos sofridos e garantindo que os responsáveis sejam devidamente responsabilizados perante a lei.
Ações detalhadas para prevenção e apoio às vítimas
A iniciativa detalha uma série de ações práticas que, se aprovadas, deverão ser implementadas em diversas esferas do poder público e da sociedade. Essas medidas abrangem desde procedimentos básicos de registro até a formação de profissionais e o desenvolvimento de espaços seguros.
- Uso do nome social: Garantia do direito ao uso do nome social em boletins de ocorrência e demais registros policiais e judiciais, assegurando o respeito à identidade de gênero das vítimas.
- Capacitação de policiais: Implementação de programas de capacitação para policiais e outros agentes de segurança pública, visando um atendimento adequado, respeitoso e livre de preconceitos.
- Aplicação da Lei Maria da Penha: Extensão da aplicação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) para abranger também mulheres trans e travestis, reconhecendo sua vulnerabilidade à violência de gênero.
- Criação de abrigos seguros: Incentivo à criação e manutenção de abrigos seguros e casas de acolhimento especializadas, oferecendo um refúgio para vítimas de violência.
- Formação de professores: Promoção da formação e sensibilização de professores e demais profissionais da educação, com o objetivo de combater o preconceito e a discriminação no ambiente escolar.
Essas ações buscam construir uma rede de proteção mais abrangente e eficaz, atuando tanto na prevenção da violência quanto na assistência às pessoas que já foram vitimadas, promovendo um ambiente de maior respeito e inclusão.
O cenário alarmante da violência contra pessoas trans no Brasil
A deputada Erika Hilton (Psol-SP), autora do projeto, ressalta a urgência da medida ao apontar que o Brasil ocupa a liderança no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans há mais de uma década. Esse dado alarmante sublinha a gravidade da situação e a necessidade de intervenções legislativas contundentes. Segundo a parlamentar, o transfeminicídio não é um evento isolado, mas o desfecho trágico de um ciclo contínuo de violações que se inicia com a discriminação e o preconceito cotidianos. A violência, nesse contexto, é descrita como uma tentativa de anular a identidade e negar a humanidade das vítimas, um ataque direto à sua existência.
Em sua justificativa para a proposta, a deputada enfatizou a importância de transformar a dor e a indignação em ações concretas do Estado. “É o momento de transformar luto em política pública, indignação em ação institucional e compromisso constitucional em garantia concreta de direitos”, afirmou Hilton, destacando a responsabilidade do poder público em assegurar a dignidade e a segurança de toda a população, incluindo as mulheres trans e travestis.
Tramitação e o caminho para a sanção presidencial
Para se tornar lei, o Projeto de Lei 665/26 passará por um processo legislativo que envolve a análise de diversas comissões na Câmara dos Deputados. Entre elas estão a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, a Comissão de Finanças e Tributação, e a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Cada uma dessas comissões avaliará a proposta sob diferentes perspectivas, como a constitucionalidade, o impacto financeiro e a adequação às políticas de direitos humanos e segurança pública.
Após a aprovação na Câmara, o texto seguirá para o Senado Federal, onde também será submetido à análise e votação. Somente após a aprovação em ambas as casas legislativas, o projeto será encaminhado para sanção presidencial, tornando-se, então, uma lei federal. O percurso legislativo pode ser longo e complexo, mas a discussão sobre a criação de uma política nacional de combate ao transfeminicídio representa um passo significativo na busca por maior igualdade e proteção para a comunidade trans no Brasil.

