Grupo montou vigília enquanto aguarda a liberdade do rapper Oruam – — Foto: Reprodução de redes sociais
Fernanda Valença, noiva do rapper Oruam, reuniu apoiadores em frente ao Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, na noite de sexta-feira (26). A mobilização ocorreu após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) revogar a prisão preventiva de Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, conhecido artisticamente como Oruam, detido há 66 dias. O ato visava aguardar a liberação do músico, substituída por medidas cautelares a serem definidas pelo Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ).
O grupo montou faixas com mensagens como “rap não é crime” e uma bandeira com a imagem do cantor ao lado da palavra “Liberdade”. A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP) informou que ainda não recebeu notificação oficial da decisão e aguarda publicação para proceder com a soltura.
A defesa de Oruam, representada pelo advogado Fernando Henrique Cardoso, espera que o rapper deixe a Penitenciária Dr. Sérgio Neves, em Bangu 3, a partir de segunda-feira (29). O ministro Joel Ilan Paciornik, relator no STJ, considerou insuficiente a fundamentação da prisão, baseada em argumentos vagos sobre risco de fuga e novas infrações, uma vez que o artista é réu primário e se apresentou voluntariamente.
- Participação de pastor Demétrio Martins no ato de apoio.
- Leituras de trechos bíblicos sobre fé e esperança durante a vigília.
- Presença de influenciadores e fãs com camisetas personalizadas do cantor.
Mobilização ganha força com elementos simbólicos
O grupo de apoiadores incluiu familiares e amigos próximos de Oruam, que cantaram músicas gospel e realizaram orações coletivas no local. Fernanda Valença compartilhou vídeos nas redes sociais mostrando a união do movimento, que durou boa parte da noite.
Uma faixa com a frase “Mauro você não é bandido” chamou atenção de quem passava pela avenida, reforçando a narrativa de que o rapper segue carreira artística sem envolvimento em atividades ilícitas. A ação destacou o apoio da comunidade ao artista, criado na Cidade de Deus e reconhecido como revelação do trap em 2023.
Detalhes da decisão judicial no STJ
O habeas corpus apresentado pela defesa argumentou contra a manutenção da prisão, citando jurisprudência de tribunais superiores que rejeitam medidas extremas sem provas concretas. Paciornik destacou a ausência de descrição individualizada das condutas atribuídas a Oruam nos autos do processo.
A revogação ocorre após rejeição de pedidos anteriores no TJRJ, em agosto e setembro, pela 4ª Câmara Criminal. O ministro enfatizou que nada ilícito foi encontrado com o cantor durante a operação policial que levou à sua detenção.
A expectativa da defesa é que medidas como proibição de contato com investigados e comparecimento em juízo sejam impostas, permitindo que Oruam retome compromissos profissionais. A SEAP confirmou que procedimentos administrativos serão iniciados assim que a decisão chegar aos canais oficiais.
O processo agora retorna ao juiz de primeiro grau para definição das restrições, com julgamento definitivo do recurso marcado para data posterior no STJ.
Circunstâncias da prisão em julho
Agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) chegaram à residência de Oruam, no Joá, na noite de 21 de julho, para cumprir mandado de busca e apreensão contra um adolescente de 17 anos ligado à facção Comando Vermelho. O jovem, integrante da “Equipe do Ódio”, descumpria medidas socioeducativas em semiliberdade.
Durante a abordagem, o adolescente fugiu após viatura ser atingida por pedras jogadas por presentes no local, incluindo o rapper e amigos. Vídeos gravados pelos envolvidos serviram de base para o inquérito que resultou na expedição do mandado contra Oruam, preso em flagrante ao lado de Paulo Ricardo de Paula Silva de Moraes, conhecido como Boca Rica.
O adolescente se entregou no dia 24 e retornou ao regime de semiliberdade, mas foi apreendido novamente em 23 de setembro por nova infração, agora em internação. Oruam se apresentou voluntariamente dois dias após a operação, negando acusações em carta aberta publicada nas redes.
Acusações e possíveis penas no processo
O Ministério Público denunciou Oruam por tentativa de homicídio qualificado contra dois policiais, além de associação ao tráfico, resistência, desacato, dano ao patrimônio, ameaça e lesão corporal. As penas somadas podem superar 18 anos de reclusão, conforme artigos do Código Penal.
A denúncia alega que o grupo assumiu risco de morte aos agentes ao resistir à ação, com base em depoimentos e imagens das redes sociais. A defesa contesta a falta de evidências diretas contra o cantor, que não portava armas ou drogas no momento.
O rapper, filho de Márcio Nepomuceno, o Marcinho VP, e sobrinho de Elias Maluco, sempre negou laços com o crime organizado, focando em sua carreira musical iniciada em 2021. Ele acumula visualizações em plataformas digitais com faixas sobre vida periférica.
Histórico familiar e carreira artística
Oruam nasceu e cresceu na Zona Oeste do Rio, influenciado pelo ambiente da Cidade de Deus, mas optou pelo rap como forma de expressão. Em 2023, ganhou prêmios como Revelação do Trap pelo portal Sobre Funk, com hits que misturam trap e elementos locais.
A família carrega histórico ligado ao crime, com o pai cumprindo pena em presídio federal por liderança em facção. Apesar de tatuagens em homenagem aos parentes, o cantor enfatiza em entrevistas o distanciamento de atividades ilícitas, investindo em shows e parcerias.
Amigos como MC Poze do Rodo manifestaram apoio público à soltura, celebrando a decisão em vídeos nas redes. A carreira de Oruam inclui exibições de bens de luxo, como carros e joias, financiados por contratos musicais.
Apoio da comunidade e próximos passos
A vigília atraiu dezenas de pessoas, que se revezaram no local até o amanhecer de sábado, aguardando comunicação oficial da SEAP. Representantes da defesa monitoram o trâmite para agilizar a liberação.
Com a revogação, Oruam planeja retomar gravações interrompidas pela detenção, incluindo colaborações adiadas. O caso segue em andamento no TJRJ, com audiências marcadas para análise das provas colhidas pela DRE.


