Mulher de Itaberaí que deu à luz em ambulância já havia perdido uma gravidez

Redação
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Mulher de Itaberaí que deu à luz em ambulância já havia perdido uma gravidez

Hospital tinha conhecimento do risco gestacional, segundo familiares; recém-nascido permanece em estado grave na UTI em Goiânia

Imagem ilustrativa

O bebê nasceu na rodovia, amparado pela tia, que precisou improvisar o parto sem luvas ou lençóis (Foto: Freepik)

Inglid Martins

João Pedro nasceu dentro de uma ambulância na GO-070, durante a transferência da gestante e sem acompanhamento técnico, reacendendo um trauma antigo da família. Amanda Silva Dourado, 31 anos, já havia perdido outro filho, também com 31 semanas de gestação, em circunstâncias semelhantes marcadas pela ausência de assistência médica, anos atrás. Segundo a tia do bebê, Ghabryela Dourado, o Hospital Municipal Regional de Itaberaí tinha conhecimento do histórico de risco da paciente, mas, ainda assim, não garantiu suporte adequado para a transferência.

Agora, além da angústia pelo estado de saúde do recém-nascido — que permanece internado na UTI em estado grave — a família enfrenta dificuldades para custear as viagens diárias a Goiânia em busca de informações. De acordo com os familiares, o hospital libera o boletim médico apenas presencialmente.

Um histórico de dor e ausência de suporte

Ghabryela afirma que a irmã já havia passado por situação semelhante. O parto do outro bebê, também prematuro, ocorreu sem a presença imediata de médico. “Repetiu a mesma cena. O outro foi minha tia quem retirou, porque o médico ainda não havia chegado”, relembra. O caso anterior ocorreu no Hospital São Sebastião.

Para a família, a nova falha na transferência reabriu feridas profundas. “A gente já teve esse trauma muito grande devido ao meu outro sobrinho que veio a óbito. Não queríamos passar por isso de novo”, desabafa Ghabryela, que decidiu tornar o caso público para alertar sobre a gravidade da situação.

O caso teve início por volta das 10h40, quando a gestante deu entrada na unidade de Itaberaí com perda de líquido amniótico. Após exames constatarem o rompimento da bolsa, a transferência para o Hospital e Maternidade Dona Iris (HMDI), em Goiânia, foi autorizada em caráter de urgência. Ghabryela afirma que a família solicitou acompanhamento especializado durante o trajeto, mas foi informada de que não havia profissional disponível. “Fomos informadas de que todos estavam ocupados”, relata. Sem alternativa, a viagem seguiu apenas com as duas irmãs e o motorista.

No caminho, o quadro clínico se agravou e o trabalho de parto começou dentro da ambulância em movimento. Sem auxílio técnico, Ghabryela precisou agir sozinha para retirar o bebê e mantê-lo estável até conseguir apoio. “Foi desesperador. Eu não sabia o que fazer, nunca nem tinha visto um parto”, contou.

Ela relata que segurava o cordão umbilical enquanto tentava ajudar a irmã, que desmaiou cerca de três vezes durante e após o parto, além de apresentar dores intensas e vômitos.

Imagem da mulher
Socorro adequado só veio na UPA de Inhumas, onde o bebê finalmente recebeu oxigênio (Foto: cedida ao Mais Goiás)

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Logística exaustiva: boletim apenas presencial

Além do trauma, a família enfrenta agora uma barreira logística. Como o hospital em Goiânia informa o boletim médico apenas presencialmente, os familiares precisam se deslocar diariamente de Itaberaí até a capital.

A rotina gera custos elevados com transporte, que a família tem dificuldade em manter. Amanda ainda se recupera do parto e das complicações enfrentadas durante o trajeto, o que torna as viagens ainda mais desgastantes.

Sem parentes morando em Goiânia, a família precisa se revezar entre acompanhar o recém-nascido e dar suporte à mãe. A ausência constante de um familiar ao lado do bebê intensifica a angústia de Amanda neste período de recuperação. João Pedro está internado em estado grave na UTI do Hospital Jacob Facuri, na capital.

Procurada pelo Mais Goiás, a Prefeitura de Itaberaí informou que está em contato com a família para prestar a assistência necessária, por meio das equipes responsáveis.

Leia na íntegra a nota da Prefeitura de Itaberaí:

“A Administração Municipal manifesta profundo pesar pelo ocorrido e se solidariza com a família neste momento.

Informamos que já foram adotadas providências para a devida apuração dos fatos, com o objetivo de esclarecer as circunstâncias do atendimento e adotar as medidas necessárias para o aprimoramento dos protocolos assistenciais. A segurança e o bem-estar das gestantes e dos recém-nascidos constituem prioridade absoluta da rede municipal de saúde.

Ressalta-se que, conforme informações preliminares, a paciente não realizou acompanhamento pré-natal na rede pública de saúde e, no momento da avaliação, não apresentou à equipe assistencial dados clínicos relevantes que pudessem alterar a conduta inicialmente adotada. Registra-se ainda que, na ocasião do atendimento, encontrava-se sem queixas álgicas e com dilatação inicial.

A Prefeitura permanece em contato com as autoridades competentes e com a unidade hospitalar envolvida, colaborando integralmente para o esclarecimento dos fatos e para o aperfeiçoamento contínuo dos fluxos de atendimento e transporte de gestantes, especialmente nos casos classificados como de alto risco.”

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