O mercado está recalculando a rota da inflação após o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de março apresentar dados mais pressionados que o esperado pelos analistas.
Consenso entre os agentes econômicos é que a alta dos preços no mês passado foi amplamente pressionada pelo choque de oferta em decorrência da guerra no Oriente Médio.
“O resultado deve resultar em nova rodada de revisões de projeção de inflação ao mesmo tempo que limitam o ciclo de queda de juros“, ressalta Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, destacando que os dados devem fazer o BC (Banco Central) manter um ritmo conservador no ciclo de corte de juros.
A Warren Investimentos reforça o ponto de vista ao indicar que a média móvel de três meses dos núcleos acompanhados pelo BC subiram de 4,29% para 4,65%.
“Em síntese, o IPCA de março foi pior do que o esperado por nós, com desvio concentrado em alimentos mais sensíveis aos efeitos da guerra. Em serviços subjacentes, o número veio pouco acima do esperado, por conta principalmente de alimentação fora do domicílio, mas com ajuda de serviços de veículos”, diz nota da casa, que atualizou suas projeções para o IPCA de 2026 em torno de 4,8%.
Inflação pressionada
A variação de preços ao consumidor medida pelo IPCA registrou alta de 0,88% em março, acelerando ante os 0,7% de janeiro e das expectativas de mercado que giravam em torno de 0,77%. Já a inflação acumulada em 12 meses subiu de 3,81% em fevereiro para 4,14%.
“Em termos qualitativos, a deterioração foi mais acentuada do que o previsto. Este resultado adiciona um viés de alta à nossa trajetória de acompanhamento do IPCA ao longo do ano, bem como à nossa projeção para o final do ano”, pontua o Santander em relatório.
A alta de commodities causada pela guerra no Oriente Médio é observada no grupo Transportes, que avançou 1,64% no mês. Só a gasolina e o óleo diesel – que registraram altas de 4,59% e 13,9% respectivamente – impactaram o IPCA cheio em 0,26 ponto percentual.
Ademais, chamou atenção dos analistas a pressão nos preços dos alimentos.
“A principal surpresa altista para a nossa previsão veio dos preços de alimentação no domicílio, especialmente do leite, e do grupo de bens industrializados”, diz a XP, reforçando que a surpresa de alta deve levar a uma revisão da projeção de 4,8% do IPCA de 2026 para cima.
O grupo de alimentos subiu 1,6% em relação ao mês anterior. A projeção do Citi, por exemplo, era de 1,3%. Os analistas do banco também destacam como o setor de serviços apresentou crescimento de 0,5%, ligeiramente acima do esperado.
“Considerando todos os fatores, a maior parte da surpresa positiva da inflação do IPCA se deveu à maior volatilidade dos bens, que pode se reverter nos próximos meses. Contudo, se os preços do petróleo permanecerem nos níveis atuais globalmente, a pressão sobre os preços por meio do componente de transportes será de alta”, pondera o Citi, que também considera uma alta em suas previsões.
Olhando para o quadro todo, o Santander avalia que “o mais preocupante foi a natureza generalizada das surpresas positivas em todos os itens. Essa pressão generalizada se traduziu em uma clara deterioração na dinâmica subjacente da inflação, com as métricas principais subindo em todos os mercados”.
Desse modo, o ASA – que revisou projeção do IPCA para 2026 de 4,6% para 5% – destaca um vetor de preocupação que independe da geopolítica.
“Os núcleos de serviços seguem resistindo em patamar elevado. Enquanto a inflação de bens industrializados, a despeito da valorização do real, voltou a acelerar na média móvel de três meses. A combinação de um choque externo de custos com uma dinâmica interna de serviços ainda pressionada é o cenário menos favorável para a convergência da inflação à meta”, pondera o economista da casa Leonardo Costa.
Em suma, além do choque da guerra, itens do núcleo da inflação – que buscam identificar a tendência de longo prazo dos preços, excluindo itens voláteis – permanecem pressionados em patamar alto e continuam constituindo um desafio para o Banco Central, aponta o Daycoval.
“Em linhas gerais, esse resultado acima do esperado […] reforça o viés de alta para a nossa projeção de inflação, atualmente em 4,2% ao final deste ano. E além disso, esse quadro como um todo, acaba corroborando a nossa expectativa de continuidade no ritmo de corte da taxa de juros em 0,25 ponto na próxima reunião”, conclui o banco.


