Um leão atravessa uma agência bancária na Rua 3, no Centro de Goiânia, e segue até a mesa do gerente. Outro divide três lotes do Setor Aeroporto com um cachorro da raça doberman. Um terceiro deixa uma loja de animais exóticos ainda filhote e vai morar em uma fazenda próxima à capital.
As cenas parecem inventadas, mas fazem parte da memória de uma Goiânia em que algumas famílias mantêm grandes felinos em espaços hoje destinados a cães de guarda ou de companhia.
Os leões recebem nomes, convivem com crianças, reconhecem os proprietários e ocupam quintais, chácaras e estabelecimentos comerciais. A proximidade alimenta a impressão de que o animal criado desde pequeno perde a natureza selvagem e passa a se comportar como um cachorro.
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Não se trata de um hábito comum entre a maioria dos moradores. A manutenção de um leão exige dinheiro para compra, alimentação, transporte e espaço. Os casos conhecidos se concentram em famílias com condições financeiras para sustentar o animal e, muitas vezes, interessadas no prestígio associado à posse de uma espécie rara.
Ainda assim, as histórias de Juruna, Lyons, Guru, Nero e de outras leoas mantidas em Goiás mostram que a presença desses animais não se resume a uma única lenda urbana. Fotografias familiares, lembranças de vizinhos e depoimentos de antigos proprietários registram um comportamento que atravessa diferentes bairros e propriedades próximas a Goiânia.
Mais do que curiosidades, esses relatos revelam uma época em que afeto, excentricidade e confiança na convivência eram usados para justificar a transformação de animais selvagens em bichos de estimação.
Leões em Goiânia não eram apenas uma lenda urbana
Os relatos aparecem no Setor Aeroporto, no Centro, no Setor Oeste, no Setor Leste Universitário e em propriedades rurais do entorno da capital.
A Goiânia das décadas de 1970 e 1980 tem uma população menor, relações de vizinhança mais próximas e uma estrutura de fiscalização ambiental diferente da atual. Um leão mantido em um lote chama atenção, provoca medo e vira assunto no bairro, mas nem sempre resulta em intervenção do poder público.
Naquele contexto, a posse de um grande felino também comunica poder econômico. Poucas famílias conseguem comprar o animal e arcar com o consumo diário de carne, a construção de espaços cercados e os custos do transporte.
O fascínio costuma começar pelo filhote. Pequeno, dependente e habituado ao contato humano, ele parece controlável. Com o crescimento, porém, surgem necessidades que uma residência ou propriedade comum não consegue atender.
O leão adulto exige espaço, segurança, alimentação e manejo especializado. O vínculo com o proprietário pode modificar parte de seu comportamento, mas não elimina força, territorialidade ou instintos.

Em 1979, moradores da Rua 25-A, no Setor Aeroporto, convivem com um vizinho incomum. Um leão ocupa três lotes cercados por muros e divide o espaço com um doberman.
Não há residência no terreno. Os dois animais permanecem no local e são vistos por quem vive nas casas próximas.
Uma fotografia preservada por uma família do bairro mostra o felino ao lado do cachorro. O leão é identificado como Juruna e pertence ao dentista Ademar de Paula.
Na residência vizinha vivem quatro crianças. A mais velha tem 7 anos. Para os proprietários, Juruna aceita a presença humana e permanece sob controle. Para quem mora ao lado, o muro representa a única separação entre a família e um animal de grande porte.
A forma como Juruna deixa o terreno reforça essa diferença de percepção. Segundo lembranças preservadas pelos antigos vizinhos, o leão é transportado na parte traseira de um automóvel, com a tampa do porta-malas aberta, sem jaula ou veículo adaptado.
A cena mostra como a familiaridade altera a avaliação do risco. Para o proprietário, o animal reconhece comandos e aceita o transporte. Para as pessoas que cruzam o caminho do veículo, trata-se de um leão exposto em uma rua residencial.
Leão Juruna entrou em banco no Centro de Goiânia

A história mais conhecida de Juruna acontece em uma agência bancária na Rua 3, no Centro.
Ademar de Paula aguarda a liberação de uma carteirinha relacionada ao cheque especial. Depois de sucessivos adiamentos, o gerente, cujo sobrenome é Leão, pede que o cliente volte em outra data.
O dentista responde que retornará acompanhado pelo “xará” do funcionário.
Na data combinada, Ademar entra na agência com Juruna. O leão atravessa o espaço ocupado por clientes e empregados e segue até a mesa do gerente. Segundo a memória preservada pelo proprietário, a documentação é liberada depois da visita.
Hoje, a entrada de um grande felino em um banco mobilizaria forças de segurança, órgãos ambientais e equipes de manejo. Na narrativa daquela época, porém, o episódio aparece como uma provocação bem-humorada.
A naturalidade com que o caso é lembrado ajuda a compreender a forma como alguns proprietários enxergam esses animais. Juruna não é apresentado como ameaça, mas como acompanhante capaz de seguir o dono durante uma tarefa cotidiana.
Criar desde filhote não transforma leão em cachorro
O comportamento dócil de um animal criado em contato com seres humanos produz uma conclusão equivocada: a de que ele foi domesticado.
Amansar e domesticar, porém, são processos diferentes.
Um animal amansado aprende a tolerar a presença humana, reconhece determinadas pessoas e pode aceitar alimentação e contato físico. Isso acontece com um indivíduo.
A domesticação envolve alterações transmitidas durante muitas gerações. É o processo que diferencia cães e gatos das espécies selvagens das quais se originam.
Um leão criado desde filhote pode reconhecer o proprietário e manter uma rotina aparentemente previsível. Continua, no entanto, pertencendo a uma espécie selvagem. O vínculo não elimina reações provocadas por medo, disputa territorial, fome, dor ou estímulos inesperados.
Esse princípio também se aplica aos animais encontrados atualmente nas cidades. O Mais Goiás mostra que alimentar animais silvestres aumenta a aproximação com seres humanos e o risco de acidentes. Quando passam a associar pessoas à oferta de comida, os animais reduzem a distância natural e podem reagir quando o alimento não aparece.
Uma das perguntas deixadas pelas histórias é como esses animais chegam a Goiás.
Antigos proprietários relatam compras realizadas em estados do Sul do Brasil. Outros afirmam que os filhotes são recebidos como presentes oferecidos a famílias com maior poder aquisitivo.
Em Goiânia, depoimentos de antigos frequentadores apontam que uma loja de animais instalada no Shopping Flamboyant teria exposto e comercializado espécies exóticas, entre elas filhotes de leão.
Não há, até o momento, documentação comercial apresentada publicamente que comprove as vendas. A informação permanece sustentada por relatos de pessoas que frequentam o estabelecimento naquele período e por memórias de famílias que mantêm animais exóticos.
Essa limitação precisa permanecer clara na reportagem. A existência das histórias não substitui documentos de origem, notas fiscais, registros de importação ou licenças ambientais.
Ainda assim, a possibilidade de um leão ser apresentado em uma loja chama atenção por colocá-lo dentro de um espaço associado ao consumo familiar. O animal deixa de aparecer apenas em zoológicos e circos e passa a ser observado como mercadoria.
O comportamento de compra começa pelo encantamento. O filhote aceita contato, desperta curiosidade e parece caber na rotina. O comprador vê o animal naquele momento, mas nem sempre calcula o tamanho, o custo e os riscos da fase adulta.
Lyons foi levado para uma fazenda próxima a Goiânia
Lyons aparece entre os leões mantidos por famílias da região. Ainda filhote, o animal é levado para uma fazenda nos arredores de Goiânia.
Nos primeiros meses, sua presença não altera a rotina da propriedade. Com o crescimento, porém, o rugido passa a assustar as vacas leiteiras.
Segundo o relato preservado por pessoas próximas à família, o comportamento do gado muda e a produção de leite sofre impacto. Os proprietários concluem que não possuem estrutura para manter o leão.
Lyons acaba transferido para um circo.
O caso resume um ciclo presente em diferentes histórias. Primeiro surge o fascínio pelo filhote. Depois aparecem o tamanho, a alimentação, a força e os efeitos sobre a rotina da propriedade. Por fim, a transferência se torna a única alternativa encontrada.
Naquele período, circos e zoológicos recebem animais que deixam de caber na vida doméstica. A mudança resolve o problema imediato do proprietário, mas não significa necessariamente que o felino encontra condições adequadas de espaço e bem-estar.
Famílias também mantinham cobras, onças e escorpiões
O interesse por animais exóticos não se restringe aos leões.
Relatos de famílias que vivem em Goiás mencionam serpentes, onças, escorpiões e outros animais mantidos em casas e chácaras.
Em um dos casos, uma mulher encontra dezenas de cobras na residência do marido depois do casamento. Parte delas é venenosa. A família também mantém leões e leoas, alguns tratados como integrantes da casa.
Um dos felinos recebe banho, dorme no quarto e acompanha a rotina dos proprietários. As leoas mantidas posteriormente em Goiás passam por chácaras antes de serem transferidas para zoológicos.
No Setor Oeste, caixas com serpentes ocupam o quintal de uma residência. O medo de empregados e as reclamações de vizinhos contribuem para a redução gradual da coleção de animais.
Essas memórias contêm uma contradição. Os proprietários descrevem afeto, dedicação e desejo de proteger os animais. Ao mesmo tempo, a convivência dentro de residências reduz a capacidade de reconhecer as necessidades específicas de cada espécie.
Guru muda a percepção da cidade sobre os leões

A imagem do leão como um cachorro de grande porte encontra seu limite mais grave na história de Guru.
O animal é mantido nas dependências de uma loja de materiais de construção no Setor Leste Universitário. Relatos afirmam que ele convive com a família do proprietário, permanece solto em determinados períodos e exerce uma função semelhante à de um cão de guarda.
Em julho de 1986, Guru escapa e percorre ruas do bairro. O episódio termina com a morte de uma criança de 2 anos e provoca repercussão na capital.
O leão é capturado e transferido para o Zoológico de Goiânia.
A ocorrência muda a forma como parte da população enxerga a criação doméstica de grandes felinos. O animal que reconhece os proprietários e passa períodos sem incidentes continua capaz de reagir de maneira imprevisível diante de outras pessoas.
A tragédia rompe a narrativa de que carinho e convivência são suficientes para eliminar o risco. Um leão pode aceitar o contato do dono, mas não interpreta todos os seres humanos como integrantes do mesmo grupo.
Leis sobre fauna já existiam, mas controle era diferente
A afirmação de que não existia qualquer legislação para controlar a posse de animais selvagens nas décadas de 1970 e 1980 não é precisa.
A Lei de Proteção à Fauna, de 1967, já estabelece regras sobre utilização, caça, captura e comércio de animais silvestres. A legislação, entretanto, é formulada principalmente para a fauna nativa brasileira e não oferece, naquele momento, o mesmo detalhamento aplicado atualmente à manutenção de espécies exóticas.
Os leões são animais exóticos porque não pertencem à fauna brasileira. Para determinar se cada animal mantido em Goiânia possui origem regular, seria necessário localizar documentos de importação, compra, transporte e autorização. Esses registros não acompanham a maior parte dos relatos familiares conhecidos.
As normas ficam mais específicas nas décadas seguintes. A Instrução Normativa nº 13, de 2010, do Ibama, proíbe a reprodução de grandes felinos exóticos, como leões, tigres e leopardos. A medida prevê controle populacional e restringe as situações em que zoológicos podem desenvolver programas de reprodução.
A Instrução Normativa nº 7, de 2015, organiza as categorias autorizadas de manejo da fauna em cativeiro, entre elas zoológicos, mantenedouros e criadouros. Essas estruturas dependem de cadastro, autorização e atendimento a exigências técnicas.
Na prática, o modelo atual não permite que uma pessoa simplesmente compre um filhote de leão e o leve para casa como animal de estimação.
Comércio de animais muda de endereço
A possibilidade de um leão ser vendido publicamente em uma loja parece distante da realidade atual. O comércio ilegal de animais, porém, não desaparece. Parte das negociações migra para redes sociais e aplicativos de mensagens.
O Mais Goiás revela como animais silvestres e exóticos são negociados pela internet em Goiás. A oferta inclui aves, répteis, primatas e documentos de procedência cuja autenticidade nem sempre pode ser confirmada.
A lógica de consumo mantém elementos encontrados nas histórias antigas. Raridade, aparência e desejo de distinção transformam animais em símbolos de prestígio.
O que muda é a estrutura de fiscalização e a percepção social. A posse deixa de ser tratada apenas como excentricidade e passa a ser discutida sob as perspectivas da segurança pública, da conservação e do bem-estar animal.


