Jóqueis lutam para manter esporte ameaçado por ausência absoluta de sucessores

Redação
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Jóqueis lutam para manter esporte ameaçado por ausência absoluta de sucessores

Técnica e afeto com o cavalo formam o coração da atividade do jóquei, uma profissão que, assim como o turfe, tenta se recuperar de um cenário de crise e ameaça de desaparecimento. Quem possui toda uma vida dedicada a esse misto de arte e esporte vê com esperança o resgate do prestígio do Hipódromo da Lagoinha, única pista de corrida de cavalos do Centro-Oeste e Triângulo Mineiro que ainda não encerrou atividades.

“Quem estava montando ele nesse dia era eu”, comenta o jóquei Wilson Natal Pereira, o W. Natal, 59 anos, ainda na ativa. O veterano deixou escapar a recordação em voz alta enquanto lia matéria especial sobre o Puro Sangue Inglês, publicada na última semana no Mais Goiás, cuja principal imagem é o photochart de sua vitória, em conjunto com o cavalo Brasileiro do Delta, no Rio de Janeiro.

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Saber o que o cavalo sente e como reage à corrida é parte fundamental da atividade de todo jóquei, assim como a destreza sobre o cavalo. Experiência e sensibilidade se unem nesse profissional de mais de 5 mil montarias, realizadas ao longo de mais de meio século de carreira.

Tanto a habilidade para conduzir quanto a capacidade de “sentir o cavalo” não surgem de repente. É preciso treino e persistência, que se iniciam cedo. William José Souza, o W.Souza, já aposentado, começou sua história no turfe em 1977, aos 16 anos. Montou mais de mil cavalos em corridas oficiais, principalmente nos hipódromos de Brasília, Paracatu-MG, Goiânia e São Paulo. Destes, apenas os dois últimos continuam abertos. 

William relata que a preparação de um jóquei começa com um treinador de cavalos de olhar peculiarmente treinado para notar talentos naturais para o esporte. Geralmente, a rotina de ensino começa quando o aprendiz tem entre 14 e 17 anos, e acontece em níveis. O primeiro é o “galope na manta”, sem uso de selim. A ideia é transformar a montaria em hábito.

No segundo nível, o aluno aprende o “trote inglês”, ainda sem alta velocidade. Essa fase acontece já com um tipo especial de posição, que o público em geral liga imediatamente ao jóquei: nele, o profissional parece estar de cócoras, com as pernas mais flexionadas. É a posição “estribado curta”. O objetivo dessa etapa é ensinar o jóquei a aprender a sincronizar seus movimentos com os do cavalo. “Você também tem que ganhar força nas pernas. Em nenhum momento seu corpo pode tocar o lombo do cavalo”, explica William.

O terceiro nível é o da preparação final. Nela, o jóquei iniciante aprende a praticar a sincronização montando o cavalo na posição estribado baixo, mas já a plena velocidade. Um Puro Sangue Inglês é capaz de ultrapassar 80 km/h durante uma disputa.

Leveza e risco

Um aprendiz de jóquei tem de ter entre 42 kg e 54 kg. O peso do jóquei é a principal condição limite para a participação em disputas. Os limites estão definidos no Código de Corrida, conjunto de regras que definem a atividade desse profissional no Brasil. Para cavalos de topo, de histórico vencedor, que concorrem nos principais páreos, o limite permitido de peso do jóquei é de 61kg. Para cavalos medianos, 59kg. Para animais menos capazes, 57kg.

A atividade de jóquei implica alto risco. No momento desta reportagem, W. Natal estava com o braço esquerdo imobilizado devido a uma queda durante um treinamento. Somente na última década, ele afirma ter sofrido quatro acidentes, dos quais resultaram fraturas. “É muito importante ficar imóvel o máximo possível depois do acidente. Se o jóquei se movimentar demais depois da queda, ele pode piorar a situação”, alerta o veterano.

Às vezes, o temperamento do animal gera o ambiente propício para um acidente. Quem relata é Jesim Gouveia, o G. Gouveia. “Montei um cavalo bravo no Rio de Janeiro. Não conhecia direito. Torcia o pescoço, não aceitava a embocadura. Era um páreo com 17 (animais). Estava em terceiro. Tentei me posicionar mais para fora para acalmar o cavalo. Fui fechado.

Caí e quebrei três dedos do pé”, rememora. G.Gouveia iniciou sua carreira em 1979. Na última corrida no Hipódromo da Lagoinha, realizada no dia 28 de março, ele ganhou o 2º páreo e ficou em segundo nos outros três.

“Jóquei que fala que nunca caiu é porque nunca montou”, decreta William, que tem em seu currículo costelas quebradas, com direito a uma clavícula em fratura exposta. Se um jóquei cair quando estiver na fila dianteira, é quase certo que será atropelado pelos retardatários. “Estava com três meses de casado. Caí em segundo lugar, na frente do pelotão. Foi a única vez em que aconteceu um milagre, e eu não me machuquei. Quem está atrás tenta desviar, mas nem todos agem da mesma forma”, relata Natal.

Sem herdeiros

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No momento, não há nenhum jóquei aprendiz no Hipódromo da Lagoinha. Os quatro profissionais mais jovens têm mais de 40 anos. Entre eles, o de menor idade vem de Brasília, onde não há mais corridas desde o encerramento das atividades do hipódromo da capital federal.  “Os jóqueis mais jovens, de outras cidades, começam achando que já sabem de tudo. Acham que dominam o esporte só vendo vídeo na internet”, comenta William.

W. Souza, W. Natal e G. Gouveia são saudosos dos tempos de ouro do turfe brasileiro – a era de J. Ricardo e suas 13.312 vitórias. Mas também falam com entusiasmo do futuro, de J. Moreira, o brasileiro considerado por muitos o maior jóquei em atividade do mundo.

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É com esperança que os jóqueis veteranos falam sobre o renascimento do Hipódromo da Lagoinha. “Na última corrida, de casa lotada, eu me senti como nos anos 80 novamente”, comenta Natal. Caso aconteça, os jóqueis não vão faltar. “O cavalo faz você ficar jovem”, conclui G.Gouveia, campeão da estatística (temporada no mundo do turfe) de 2024-25 em Goiânia, com 18 vitórias.

Especial para o Mais Goiás

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