Influenciador de 26 anos é preso em Hong Kong por debochar de vítimas em incêndio com 159 mortes no complexo de Tai Po

Foto: Kenny Cha preso em Hong Kong por debochar de vítimas em incêndio – Reprodução/Rede Sociais

Autoridades de Hong Kong detiveram um influenciador digital de 26 anos suspeito de publicar conteúdos com intenção sediciosa após o incêndio mais letal da história recente da região. Kenny Chan, administrador do canal Kowloon King no YouTube, postou selfies e vídeos em frente ao complexo residencial Wang Fuk Court, em Tai Po, onde 159 pessoas morreram no dia 26 de novembro de 2025. Ele classificou as vítimas como portadoras de pecados profundos e o desastre como uma forma de retribuição, o que gerou repúdio imediato nas redes sociais.

A prisão ocorreu na quarta-feira, 3 de dezembro, por ordem do Departamento de Segurança Nacional da polícia. Kenny, cidadão chinês, enfrentava acusações relacionadas a declarações de ódio que incitavam divisões sociais. O caso destaca o uso ampliado de leis de segurança para coibir críticas em meio a tragédias públicas.

O incêndio começou por volta das 14h no bloco Wang Cheong House, durante obras de reforma no complexo de oito edifícios construídos nos anos 1980. Mais de 800 bombeiros atuaram por mais de 24 horas para conter as chamas, que se espalharam rapidamente devido a materiais inflamáveis.

  • Mortes confirmadas: 159, incluindo uma criança de 1 ano e uma idosa de 97 anos.
  • Identificações: 140 corpos reconhecidos, com 19 ainda em análise por DNA.
  • Feridos: 79, dos quais 37 permanecem em tratamento hospitalar.
  • Desaparecidos: 31, majoritariamente ajudantes domésticas estrangeiras.

Detalhes da prisão de Kenny Chan

Polícia de Hong Kong agiu após denúncias sobre os posts de Kenny Chan. O influenciador transmitiu ao vivo pelo menos duas vezes mencionando o fogo no título dos vídeos. Ele sorria e gesticulava com sinal de vitória diante das torres em chamas.

Kenny se descreve como membro da White Card Alliance, grupo online que promove desafios para ultrapassar limites éticos em busca de visualizações. Essa afiliação já o ligou a incidentes polêmicos, como ameaças a criadores de conteúdo e vandalismo.

A detenção ocorreu em sua residência, com apreensão de equipamentos eletrônicos. Autoridades investigam se os materiais visam fomentar ódio ou desordem social.

Ele pode receber até sete anos de prisão sob a lei de sedição. O caso é o primeiro ligado diretamente a uma tragédia recente sob essa legislação.

incendio honk kong
incendio hong kong – TACC

Contexto do incêndio em Tai Po

O fogo no Wang Fuk Court eclodiu em um dia de baixa umidade, com alerta de perigo de incêndio emitido dois dias antes. O complexo abrigava cerca de 4.800 residentes, muitos em apartamentos de baixa renda.

Investigadores apontam falhas em redes de proteção usadas nas reformas. Amostras de malha de segurança não atendiam padrões de retardância a fogo em sete de 20 testes realizados.

Especialistas em identificação de vítimas trabalharam em condições difíceis, recuperando restos carbonizados de pilhas de entulhos. Equipes usaram testes de DNA para confirmar idades variando de 1 a 97 anos.

Vigílias ocorreram em locais como o Kowloon Funeral Parlour, onde famílias queimaram oferendas. Autoridades coordenaram buscas por 31 desaparecidos, incluindo trabalhadoras indonésias e filipinas.

Investigação aponta negligência na construção

Três executivos de uma empresa de construção foram detidos por suspeita de homicídio culposo. Eles respondem por negligência na seleção de materiais externos, como painéis de espuma plástica perto de elevadores.

Seis funcionários foram presos por desativar alarmes de incêndio durante manutenções. Essa ação impediu alertas precoces em partes do complexo.

Autoridades inspecionam o Binzhou Inspection and Testing Center, na China continental, que certificou a rede de proteção. Sete amostras falharam em testes de inflamabilidade.

O governo ordenou uma investigação independente liderada por juiz. Foco recai sobre o uso generalizado de andaimes de bambu em Hong Kong, presente em 80% das obras.

O secretário de Segurança, Chris Tang, prometeu justiça rápida. Equipes continuam varrendo escombros por restos humanos ou pertences.

Reações públicas e medidas de apoio

Moradores afetados retornaram ao local em 3 de dezembro para recuperar itens. Unidades de resposta rápida do governo auxiliaram na triagem de bens danificados.

Comunidades em Tóquio, Londres e Taipei organizaram tributos. Em Hong Kong, quase HK$800.000 foram alocados para famílias de trabalhadoras migrantes mortas.

Legisladores pediram debate emergencial sobre alívio pós-desastre, mas o pedido foi negado para priorizar investigações criminais.

Cerca de 4.800 desalojados recebem abrigo temporário. Doações de roupas e alimentos chegam a centros de distribuição.

ONGs oferecem suporte psicológico a sobreviventes. Pelo menos 40 pessoas estavam em estado crítico inicialmente, reduzido para quatro.

Histórico de controvérsias do Kowloon King

Kenny Chan ganhou notoriedade por conteúdos provocativos. Seu canal acumula visualizações com desafios que testam limites morais.

Em outubro, membros da White Card Alliance enviaram cartas com lâminas de barbear a rivais online. Em maio de 2024, o grupo danificou o túmulo de um cantor falecido.

Durante festivais em Kowloon City, em abril de 2023, agressões a policiais e jornalistas foram ligadas a participantes. Kenny nega envolvimento direto, mas promove o ethos de transgressão.

O incêndio de Tai Po ampliou o escrutínio sobre plataformas digitais. Autoridades monitoram discursos que explorem desastres para ganhos pessoais.

Esforços de resgate e lições técnicas

Bombeiros elevaram o alarme para nível 5 às 18h22 do dia 26. Equipes resgataram 56 pessoas de janelas e escadas externas.

Um bombeiro morreu durante operações, elevando o total de óbitos para 159. Treze prisões ocorreram em inquérito de corrupção relacionado a aprovações de obras.

Redes de proteção verde, comuns em reformas, aceleraram a propagação. Um incêndio similar em Tsuen Wan, em fevereiro de 2025, expôs riscos semelhantes.

Autoridades revisam normas para andaimes. Estimativas indicam 80% dos projetos usam bambu, com umidade relativa de 40-50% no dia do fogo.

Investigadores coletam amostras de cinzas para causas iniciais. Fumaça densa limitou visibilidade, complicando evacuações.