Segundo o relatório, cerca de uma em cada cinco pessoas desenvolverá câncer ao longo da vida. Quando também são considerados os impactos sobre familiares próximos e cuidadores, aproximadamente 92% da população mundial será afetada direta ou indiretamente pela doença em algum momento.
A OMS afirma que, embora avanços importantes tenham sido alcançados na prevenção e no tratamento, as desigualdades entre países continuam determinando quem sobrevive ao câncer. Em muitas regiões, o acesso ao diagnóstico precoce, à radioterapia, aos medicamentos e aos cuidados paliativos permanece insuficiente, especialmente nos países de baixa e média renda.

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Em 2024, foram registrados 20,6 milhões de novos casos de câncer no mundo (19,5 milhões, excluindo os cânceres de pele não melanoma). Mantida a tendência atual, esse número deverá aumentar cerca de 70% nas próximas décadas, impulsionado pelo envelhecimento da população, pelo crescimento demográfico e pela persistência de fatores de risco evitáveis.
Para o oncologista Stephen Stefani, o crescimento da incidência do câncer é resultado de uma combinação de fatores demográficos e comportamentais, especialmente do envelhecimento da população e da exposição prolongada a fatores de risco.
“Como a população que vem envelhecendo e sobrevivendo a doenças, a epidemiologia do crescimento estatístico do câncer tem sido sustentadamente comprovada. A conta biológica que estamos pagando pela exposição a fatores de risco, como tabagismo, sedentarismo, padrão alimentar inadequado, exposição exagerada ao sol… está chegando e vai aumentar.”
Incidência global de câncer — Foto: Arte/g1 – Juan Silva
Sobrevivência varia drasticamente entre países
O relatório apresenta novos dados sobre câncer de mama e câncer infantil que evidenciam a disparidade global.
Nos países de alta renda, onde os tumores costumam ser identificados mais cedo e o acesso ao tratamento é maior, a sobrevida líquida em cinco anos supera 85%. Já nos países de baixa renda, esse índice fica abaixo de 45%.
A OMS também destaca que o câncer vem assumindo um peso crescente entre as causas de morte precoce no mundo.
Em 2021, a doença foi a principal causa de mortalidade prematura em 41 países, a segunda principal em 37 países e a terceira em 47 países. Apesar das metas globais estabelecidas para reduzir essas mortes, apenas 12 países estão atualmente no caminho para atingir, até 2030, a redução de um terço da mortalidade prematura por câncer. Em contrapartida, 48 países apresentam aumento dessas taxas.
Segundo Stefani, as diferenças observadas pela OMS refletem tanto a capacidade dos sistemas de saúde quanto o acesso às tecnologias mais modernas. “A OMS chama atenção para um fator que é muito nítido… o local onde a pessoa nasceu e as condições do sistema de saúde do país em acolher e manejar adequadamente o câncer varia enormemente.”
O especialista ressalta que essas desigualdades também existem dentro de um mesmo país e são agravadas pela dificuldade de acesso ao diagnóstico precoce, ao tratamento adequado e às novas terapias, muitas vezes indisponíveis devido ao alto custo.
Mortalidade global por tipo de câncer. — Foto: Arte/g1 – Juan Silva
O impacto vai muito além da saúde
O documento ressalta que os efeitos do câncer não se limitam ao tratamento da doença.
A OMS realizou uma pesquisa global sobre a experiência de pessoas afetadas pelo câncer e constatou que o diagnóstico costuma provocar consequências emocionais, financeiras e sociais prolongadas.
Entre os participantes da pesquisa:
- mais da metade relatou problemas relacionados à saúde mental;
- pelo menos 45% disseram ter enfrentado dificuldades financeiras;
- praticamente todos os cuidadores relataram algum tipo de sobrecarga, como trabalho não remunerado, isolamento social ou luto prolongado.
Segundo o relatório, aproximadamente metade dos pacientes e de suas famílias enfrenta gastos catastróficos com saúde, mesmo em países que possuem cobertura universal. Além dos custos médicos, pesam despesas indiretas, como perda de renda, transporte e cuidados com crianças.
A OMS estima ainda que, entre 2020 e 2050, o impacto econômico global do câncer seja equivalente a um custo anual de aproximadamente 0,55% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.
Houve avanços, mas a implementação continua insuficiente
O relatório reconhece progressos importantes no controle do câncer, especialmente na formulação de políticas públicas e em algumas estratégias de prevenção.
Entre os exemplos citados estão:
- redução de aproximadamente 27% na prevalência do uso de tabaco desde 2010, impulsionada pela implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco;
- expansão da vacinação contra o HPV, hoje incorporada aos programas nacionais de imunização em 85% dos países;
- aumento da cobertura global da primeira dose da vacina contra o HPV entre meninas, de 17% em 2019 para 31% em 2026, embora ainda distante da meta de 90% prevista para 2030.
Apesar desses avanços, a OMS afirma que existe uma grande distância entre a elaboração de políticas e sua implementação efetiva.
Mortalidade global por tipo de câncer. — Foto: Arte/g1 – Juan Silva
Diagnóstico e tratamento ainda estão longe de alcançar todos
Segundo o relatório, diversos componentes essenciais do cuidado oncológico continuam apresentando lacunas importantes.
- apenas 28% dos países incluem um pacote mínimo de tratamento do câncer na cobertura universal de saúde;
- 47% da população mundial tem pouco ou nenhum acesso a serviços básicos de diagnóstico;
- 23 países de baixa e média renda ainda não possuem nenhuma unidade de radioterapia;
- cerca de 73 milhões de pessoas necessitam de cuidados paliativos a cada ano, mas somente 14% conseguem recebê-los.
A organização destaca ainda que, em alguns países de baixa e média renda, os altos custos pagos diretamente pelos pacientes contribuem para que até 90% das pessoas não consigam concluir adequadamente o tratamento.
Quase 40% dos casos poderiam ser evitados
Embora o cenário seja preocupante, a OMS afirma que uma parcela significativa dos casos de câncer continua sendo prevenível.
Segundo o relatório, quase 40% dos novos casos podem ser evitados por meio da redução da exposição a fatores de risco já conhecidos, como tabagismo, consumo de álcool, alimentação inadequada, infecções e riscos ambientais e ocupacionais.
A diretora da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), Elisabete Weiderpass, afirma no documento que a prevenção continua sendo uma das ferramentas de maior impacto para reduzir a carga global da doença, desde que seja acompanhada da ampliação do diagnóstico precoce, da triagem e do acesso ao tratamento.
O médico oncologista Stephen Stefani afirma que uma parcela expressiva dos casos poderia ser evitada com mudanças de comportamento e maior acesso aos programas de rastreamento. “Sobre a doença inevitável: da literatura sustentam que 40 por cento dos tumores poderia ter sido evitado e/ou identificados muito precocemente.”
Segundo Stefani, os principais fatores modificáveis continuam sendo tabagismo, sedentarismo, alimentação inadequada, consumo de álcool e exposição excessiva ao sol. Ele também destaca que programas de rastreamento, como mamografia, exames para câncer do colo do útero e colonoscopia, precisam estar acompanhados de acesso ao sistema de saúde para garantir diagnóstico e tratamento oportunos.
OMS propõe três mudanças para enfrentar o avanço da doença
Como resposta ao crescimento da carga global do câncer, o relatório propõe uma reorganização das políticas de controle da doença baseada em três grandes eixos:
- ampliar as capacidades dos sistemas de saúde;
- fortalecer a proteção social e a cobertura universal;
- priorizar investimentos que gerem maior valor para pacientes e sistemas de saúde.
Para isso, a OMS apresenta recomendações que incluem:
- fortalecer os sistemas nacionais de controle do câncer
- ampliar o acesso aos serviços
- incorporar pacientes e cuidadores nas decisões
- melhorar a coleta de dados
- promover soluções centradas na equidade
- e alinhar pesquisa e inovação às necessidades da saúde pública, especialmente nos países de baixa e média renda.
Ao concluir o documento, a organização afirma que o principal desafio mundial já não é a falta de conhecimento científico sobre o câncer, mas a distância entre aquilo que já se sabe ser eficaz e o que efetivamente é colocado em prática.
Sem ações mais rápidas e integradas, alerta a OMS, o número de casos continuará crescendo e as desigualdades no enfrentamento da doença tendem a se aprofundar.


