Um dos humoristas de stand-up mais populares da China, Guo Degang, está enfrentando uma rigorosa investigação oficial e teve suas apresentações agendadas canceladas. A situação se desencadeou no final de julho de 2024, após o comediante improvisar uma nova versão da letra de uma canção profundamente associada ao Partido Comunista Chinês durante um espetáculo em Wuhan. Este incidente joga luz sobre os desafios e riscos crescentes enfrentados por artistas no ambiente cultural altamente controlado da China.
A denúncia formal foi apresentada à Secretaria de Cultura e Turismo de Wuhan, alegando que Guo Degang “não apenas distorceu e vulgarizou uma obra revolucionária clássica, mas também violou a moral pública e os padrões de conduta aceitos”. Uma captura de tela da carta de denúncia, veiculada por um jornal estatal, detalhou as acusações. A resposta das autoridades, com a abertura de um processo, demonstra a seriedade com que tais transgressões são tratadas no país, mesmo envolvendo figuras culturais de grande influência.
O significado histórico de “Tocando minha amada pipa” e a controversa adaptação
A canção “Tocando minha amada pipa” não é uma melodia qualquer no repertório chinês; ela representa um poderoso símbolo de resistência e heroísmo. A obra captura o espírito indomável das forças guerrilheiras comunistas que se opuseram aos invasores japoneses durante a Guerra Sino-Japonesa. Sua importância cultural e política é tamanha que, em 2019, foi selecionada como uma das 100 canções oficiais para celebrar o 70º aniversário da fundação da República Popular da China, sendo também tema de um célebre filme chinês da década de 1950, “Guerrilheiros da Ferrovia”. A letra original evoca uma cena de serenidade, com versos como: “O sol está prestes a se pôr no oeste; tudo está calmo no lago Weishan”.
Saiba mais: China busca reduzir dependência de alimentos importados
Durante sua apresentação, Guo Degang escolheu modificar a segunda parte dessa letra, transformando-a em “tudo está calmo na Cidade Proibida”, e a interpretou de uma forma claramente cômica. A escolha da “Cidade Proibida” é particularmente sensível; este extenso complexo palaciano no coração de Pequim foi o centro do poder imperial chinês por séculos e, hoje, mantém uma forte conotação com a soberania e a estabilidade do governo. A Secretaria de Cultura e Turismo de Wuhan informou que a versão adaptada não constava nos materiais aprovados previamente para a apresentação, o que configuraria uma violação direta do Regulamento sobre a Administração de Apresentações Comerciais.
Consequências para o humorista e o cenário de crescente repressão cultural
A investigação sobre Guo Degang está em andamento, conforme confirmado pela Secretaria de Cultura e Turismo de Wuhan, que não estabeleceu um prazo para a divulgação dos resultados. Tentativas de contato com o comediante por parte da imprensa não obtiveram resposta. Este episódio ilustra a linha cada vez mais tênue que artistas e humoristas são obrigados a trilhar na China, onde a censura se intensifica em consonância com a campanha ideológica do Partido Comunista Chinês para alinhar todas as esferas da sociedade, incluindo a cultura e a mídia, com o “Pensamento de Xi Jinping”.
A turnê nacional de Guo Degang, que celebrava o décimo aniversário de seu influente grupo teatral, foi diretamente impactada. Várias de suas apresentações foram abruptamente canceladas. Um representante do Xi’an Chanba Poly Grand Theater, onde Guo tinha um show agendado, comunicou que “não há data nem previsão para um possível retorno” e que os detentores de ingressos seriam reembolsados automaticamente. A notícia da investigação rapidamente se tornou um dos tópicos mais comentados nas plataformas de mídia social chinesas, revelando uma divisão de opiniões. Enquanto alguns internautas defendiam a punição do humorista por alterar canções “vermelhas”, argumentando que “a arte serve ao povo”, outros criticavam as autoridades por uma suposta “sensibilidade excessiva” à sátira.
No mesmo tema: Mais de 1 milhão são evacuados na China com a passagem do Tufão Dolphin e risco de inundações
O histórico de punições a artistas e o futuro da expressão na China
O caso de Guo Degang não é um incidente isolado, mas sim parte de um padrão de repressão artística na China. Ao longo dos anos, diversos artistas tiveram suas carreiras severamente afetadas ou encerradas por declarações que foram consideradas ofensivas ou politicamente incorretas pelas autoridades. O governo chinês tem apertado o cerco à expressão cultural, exigindo que o conteúdo esteja em total conformidade com a doutrina oficial do Partido Comunista.
- Li Haoshi (2023): Este comediante foi multado em 14,7 milhões de yuans (equivalente a cerca de US$ 2 milhões) e proibido de se apresentar indefinidamente. Sua infração foi o uso de uma expressão associada ao Exército de Libertação Popular em uma anedota sobre cães de rua, o que gerou a ira das autoridades militares.
- Li Bo (2022): Foi penalizado com uma multa de 50.000 yuans (aproximadamente US$ 7.400) após fazer piadas sobre o rigoroso lockdown da pandemia de Covid-19 em Xangai e zombar de adolescentes.
Guo Degang é amplamente creditado por ter revitalizado o *Xiangsheng*, uma tradicional forma de comédia chinesa de diálogos cruzados, e é uma figura cultural amplamente reconhecida. Ele também co-fundou a companhia de teatro Qilin, dedicada a promover formas de arte tradicional chinesa para um público mais amplo. A investigação atual coloca seu nome na crescente lista de figuras públicas que enfrentam as consequências de cruzar as linhas da censura governamental, sinalizando um futuro incerto para a liberdade criativa no país.

