Ex-modelo francesa relata como escapou de Jeffrey Epstein com falsas propostas de trabalho em Nova York

Redação
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A ex-modelo francesa Juliette, hoje com 43 anos, divulgou como escapou das garras de Jeffrey Epstein há mais de duas décadas. Seu relato emerge enquanto a promotoria de Paris investiga a rede do milionário americano após revelações sobre novas vítimas potenciais na França. Juliette conseguiu se esquivar da engrenagem de exploração sexual que capturou dezenas de jovens mulheres através de falsas promessas profissionais e ofertas de trabalho internacional.

A procuradora Laure Beccuau informou à rádio RTL que pelo menos dez potenciais vítimas procuraram a promotoria parisiense após a divulgação dos “Epstein Files” pelo Departamento de Justiça dos EUA em janeiro de 2026. O testemunho de Juliette fornece detalhes cruciais sobre como o predador operava na capital francesa, aproveitando a vulnerabilidade profissional de modelos jovens e ambiciosas.

Como a abordagem aconteceu em Paris

Em 2004, entre dois castings na capital francesa, Daniel Siad, recrutador de modelos suspeito pelo FBI de trabalhar para Epstein, abordou Juliette. Oferecia “oportunidades” em Nova York com promessas vagas de carreira internacional. A agência de Siad confirmou sua reputação como profissional confiável, o que levou Juliette a aceitar. Ela recebeu imediatamente uma passagem aérea e instruções inusitadas: solicitar apenas um visto de turista, não de trabalho. Um endereço de apartamento em Nova York foi fornecido sem maiores detalhes.

“Me deram o endereço de um apartamento em Nova York. Não sabia se era ligado a uma agência. Não me deram detalhes, nem horários, nada. Presumi que era profissional”, relembrou Juliette em seu depoimento. A falta de informações convencionais sobre o processo de seleção deveria ter soado como alerta, mas a jovem modelo interpretou como procedimento padrão de discretão profissional.

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Jeffrey Epstein - Reprodução/ TV Globo
Jeffrey Epstein – Reprodução/ TV Globo

O primeiro encontro e sinais de perigo

Ao chegar em Nova York, Juliette encontrou Epstein em seu apartamento. Ele imediatamente reteve seu passaporte, alegando falta de tempo para recebê-la, e agendou um encontro para o dia seguinte. A mãe de Juliette, desconfiada, ligou para alertá-la sobre o risco de tráfico sexual. Apesar da advertência, Juliette decidiu permanecer em Nova York: nada de prejudicial havia acontecido ainda, e seu objetivo era conseguir um contrato profissional.

No segundo encontro, Epstein tentou criar uma atmosfera de confiança. Mostrou o apartamento e apresentou um estúdio que parecia improvisado e desprofissional. As paredes eram cobertas com fotos de close de partes íntimas de mulheres. Juliette sentiu incômodo imediato ao presenciar aquelas imagens inadequadas para um ambiente profissional.

Epstein a conduziu por um corredor com quartos. Sentou-se em uma cama e fez sinal para que ela se aproximasse. Juliette parou na porta e advertiu: “Te aviso, não vou fazer nada”. Epstein recuou momentaneamente, afirmando que apenas queria “avaliar” se poderia apresentá-la às agências de moda. Ela entrou, mas a situação deteriorou rapidamente. Ele pediu que ficasse de roupa íntima, procedimento comum em seleções de modelo, mas também exigiu que removesse o sutiã algo atípico e inadequado.

Epstein a examinou fisicamente, tocou suas coxas, quadris e nádegas. Criticou seu corpo, dizendo que ela “não estava pronta” e precisava perder peso. Ofereceu acesso a academias enquanto aguardava apresentação às agências, mas também sugeriu “pequenos trabalhos” como aeromoça em jato privado e acompanhante noturna. Foi neste momento que Juliette compreendeu o verdadeiro risco.

A fuga e o silêncio prolongado

Juliette se vestiu, pediu o passaporte de volta e disse que pensaria sobre a proposta. “Acho que ele sentiu que eu não ia permitir, ou que eu tinha entendido como funcionava”, recordou. Ela permaneceu alguns dias em Nova York realizando castings, mas descobriu que estava “queimada” em todas as agências de modelo. A rejeição sistemática confirmava que havia sido marcada como não cooperativa.

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A vergonha acompanhou Juliette por anos. “Vergonha se fosse uma oportunidade de trabalho que perdi. Vergonha se fosse uma rede criminosa, por ter acreditado que podia ser outra coisa.” O silêncio durou 15 anos. Somente em 2019, ao ouvir o nome de Epstein no rádio após sua prisão, Juliette entrou em choque e compreendeu completamente o que havia escapado.

A estrutura da rede em Paris

As investigações na França uma sobre violência sexual e outra sobre aspectos financeiros analisam como a rede de Epstein funcionava em Paris, cidade onde o milionário viveu por anos. Juliette reconhece hoje os sinais do processo de aliciamento: falta de informações convencionais, tipo inadequado de visto, apartamento sem vínculo oficial com agência, retenção do passaporte, pressão psicológica e promessas nebulosas de “oportunidades”.

Os recrutadores identificavam jovens modelos, mas também mulheres em fim de carreira, oferecendo contratos internacionais. A vulnerabilidade profissional era explorada sistematicamente como porta de entrada para a rede. “Ele testava limites. Era um processo”, refletiu Juliette.

Testemunho como evidência investigativa

Juliette prestou depoimento à polícia francesa em 2019. Seu nome aparece nos “Epstein Files”, os três milhões de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA. Ela conservou documentação da época: seu book profissional, e-mails, anotações e agenda onde registrou manualmente os contatos de Epstein e de Siad.

Epstein foi condenado em 2008 por solicitação de prostituição e incitação de menores, cumprindo apenas 13 meses de prisão. Foi preso novamente em 2019 e encontrado morto em sua cela um mês depois. O testemunho de Juliette, agora público, ajuda autoridades a mapear o funcionamento da rede e compreender como tantas jovens foram capturadas por um sistema que misturava glamour, poder e violência.

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