Via Folha de São Paulo – Anunciada em fevereiro do ano passado, a venda dos negócios de níquel da Anglo American no Brasil para a chinesa MMG segue travada na União Europeia. A demora do bloco em aprovar a negociação incomoda investidores e executivos das duas mineradoras, que precisarão postergar pela segunda vez o prazo limite para a conclusão da transferência.
A venda havia sido comunicada aos órgãos reguladores da União Europeia em maio de 2025. À época, executivos das duas empresas esperavam a conclusão da análise até setembro daquele ano.
Nos meses seguintes, no entanto, sucessivas decisões do bloco impediram o andamento da negociação, avaliada em até US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões). De acordo com as empresas, a MMG pagará US$ 350 milhões à Anglo quando a venda for concluída e poderá pagar US$ 100 milhões a depender da variação do preço do níquel, além de US$ 50 milhões se optar por desenvolver projetos no Pará e em Mato Grosso que hoje são de propriedade da mineradora britânica.
Em novembro, os europeus abriram uma investigação sobre os efeitos que a venda traria para os países do bloco. A UE teme que a venda para os chineses possa desviar o destino do níquel hoje extraído pela Anglo American nas cidades de Barro Alto e Niquelândia, em Goiás –alegação que ambas as empresas negam.
De acordo com pessoas a par do assunto, um terço da produção de ferroníquel da Anglo atende atualmente o mercado europeu. Além disso, o Brasil é o maior fornecedor dessa matéria-prima para a UE –além da Anglo, a Vale, que opera uma mina no Pará, é uma das fornecedoras brasileiras de ferroníquel para a Europa.
Na investigação conduzida pela União Europeia, os reguladores europeus acessam milhares de documentos das duas empresas, inclusive bancos de dados e trocas de emails.
Esse estágio geralmente leva 90 dias úteis, mas no final de novembro o bloco suspendeu o prazo, o que obrigou as duas mineradoras a adiarem pela primeira vez a data limite para a conclusão da venda –de 18 de novembro de 2025 para 30 de junho de 2026.
Agora, no início de maio, o prazo segue suspenso. Nas contas de executivos envolvidos na operação, o período de análise foi interrompido quando faltavam 78 dias para a conclusão, o que pode ultrapassar o prazo anteriormente definido pelas duas empresas.
Em conversas com investidores, tanto a Anglo American quanto a MMG já mencionam um novo prazo para a conclusão: desta vez, setembro de 2026. A data ainda não foi atualizada no contrato entre as duas empresas.
Os reguladores europeus, no entanto, ainda podem pedir uma série de ajustes nas operações para garantir que a extração futura dos chineses vá, de fato, para o mercado europeu. Ao final do processo, o bloco pode ainda optar por negar a venda.
O diretor-geral da MMG no Brasil, Jorge de Carvalho, afirmou que o atraso no processo não estava no radar da mineradora.
“O processo da UE está a levar muito mais tempo do que antecipávamos, tanto do ponto de vista concorrencial quanto com base em nossas orientações jurídicas. Somos totalmente favoráveis a processos regulatórios rigorosos; no entanto, vivemos em um ambiente geopolítico tenso e que está em constante mudança, e essas tensões podem acabar se sobrepondo aos interesses comerciais e às realidades de mercado”, disse.
No final de abril, durante uma teleconferência com investidores, a gerente-geral executiva da MMG, Sandra Xiangjun Guan, chegou a ser questionada duas vezes sobre o assunto. Na ocasião, ela disse que a empresa já tinha submetido a maior parte dos documentos exigidos pela UE.
“Todas as outras condições para a conclusão já foram satisfeitas. Assim que obtivermos a aprovação da UE, a conclusão pode acontecer muito rapidamente”, afirmou.
A Anglo também está pressionada. A mineradora anunciou ainda em 2024 planos para vender seus ativos de carvão, níquel, platina e diamante para focar apenas em cobre, minério de ferro e fertilizantes –uma resposta à tentativa de compra pela gigante BHP. A demora na análise da UE, no entanto, frustra o andamento da reestruturação.
A mineradora britânica também está no meio de uma fusão com a Teck Resources, processo previsto para se encerrar até o final do ano. De acordo com a Anglo, a operação não está condicionada à venda dos ativos de níquel, ainda que seus executivos esperam que a venda seja aprovada pela UE antes da conclusão.
Pesa ainda sobre os executivos da Anglo o interesse da CoreX Holding sobre os ativos de níquel da empresa. O empresário turco dono da holding, Robert Yüksel Yildirim, foi o responsável por acionar a Comissão Europeia sobre a venda para os chineses –ele alega que, embora tenha oferecido um valor maior pelos ativos, a Anglo preferiu vender para a MMG.
Conforme a Bloomberg noticiou no final de abril, o turco ampliou a oferta em meio à análise da UE, de US$ 450 milhões para US$ 750 milhões, sendo US$ 400 milhões à vista. Ainda é incerto se a Anglo aceitará a nova oferta, mas entre investidores há um entendimento que a aproximação com a holding turca seria mais aceita pelos reguladores europeus do que com os chineses.
Procurada, a Anglo disse que segue avançando no processo de venda de seu negócio de níquel. “A Anglo American segue trabalhando de forma construtiva com as partes envolvidas para a conclusão do processo, ao mesmo tempo em que ressalta a importância de que avaliações dessa natureza avancem com previsibilidade e clareza, em benefício da segurança jurídica e do ambiente de negócios”, afirmou em nota.
A mineradora não quis comentar a nova proposta da CoreX Holding.
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