Concessionária da Chapada busca R$ 150 milhões e quer fazer parques disputarem turistas com praias

Redação
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Concessionária da Chapada busca R$ 150 milhões e quer fazer parques disputarem turistas com praias

A concessionária responsável pelos serviços turísticos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, busca R$ 150 milhões no mercado para ampliar a operação, reformar um hotel histórico e assumir novas concessões. O plano da Parquetur inclui dobrar de 500 mil para um milhão o número de visitantes recebidos anualmente pelo conjunto de seis parques atendidos pela companhia.

Para alcançar a meta nos próximos três anos, a empresa precisa registrar crescimento acumulado de 100%, equivalente a um avanço médio próximo de 26% ao ano. A estratégia tenta colocar os parques naturais na disputa com praias e outros destinos procurados pelos brasileiros durante fins de semana e feriados.

A captação, entretanto, não será destinada exclusivamente à Chapada dos Veadeiros. Dos R$ 150 milhões, R$ 40 milhões, ou 26,7% do total, serão distribuídos entre os seis parques sob concessão da companhia. A Parquetur não informa quanto desse valor ficará com a unidade goiana nem quais intervenções serão executadas em cada destino. Outros R$ 20 milhões financiarão a entrada da empresa em novas operações. A maior parcela, de R$ 90 milhões, equivalente a 60% da captação, será aplicada no retrofit do Hotel Simon, localizado dentro do Parque Nacional do Itatiaia, entre Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Fechado há cerca de 20 anos, o hotel deve ser reformado com inspiração no Hotel das Cataratas, empreendimento instalado no Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu, no Paraná. Segundo o diretor-executivo da Parquetur, Pedro Cleto, duas bandeiras hoteleiras internacionais já apresentam cartas de intenção para participar do projeto. As informações foram divulgadas pela coluna Painel S.A., da Folha de S.Paulo.

Além da Chapada dos Veadeiros e de Itatiaia, a Parquetur opera serviços turísticos na Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso; no Caminhos do Mar, em São Paulo; e nos parques estaduais do Ibitipoca e do Itacolomi, em Minas Gerais.

Na Chapada dos Veadeiros, a empresa administra serviços de controle de acesso, bilheteria, recepção, alimentação, loja de conveniência, campismo e transporte interno. A fiscalização ambiental, a proteção da biodiversidade, a aplicação de sanções e o poder de polícia permanecem sob responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio.

A distinção é necessária porque a concessão não significa a privatização do parque. A área permanece pública, enquanto a iniciativa privada recebe autorização temporária para explorar os serviços previstos no contrato.

A concessão da Chapada dos Veadeiros começa em dezembro de 2018, tem prazo de 20 anos e pode ser prorrogada por mais cinco. O valor estimado do contrato é de R$ 16,28 milhões, correspondente à projeção das outorgas arrecadadas durante a vigência, segundo informações do ICMBio.

O relatório anual mais recente do instituto mostra que o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros recebe 96.927 visitantes em 2024. Desse total, 91.276 pagam ingresso e 5.651 têm acesso gratuito.

A operação alcança receita bruta de R$ 3,99 milhões no período. A concessionária repassa R$ 631 mil ao ICMBio e mantém 22 postos diretos de trabalho. A pesquisa aplicada entre julho de 2023 e julho de 2024 registra índice geral de satisfação de 92,69%, conforme o Relatório Anual das Concessões.

A reserva de R$ 40 milhões para os seis parques equivale a cerca de dez vezes toda a receita operacional registrada pela concessão da Chapada em 2024. A comparação, porém, não representa o valor que será investido em Goiás, já que o recurso será dividido entre todas as unidades da companhia.

Segundo Cleto, 95% dos funcionários da operação na Chapada dos Veadeiros são moradores dos municípios do entorno, entre eles antigos trabalhadores do garimpo. O executivo também afirma que cada R$ 1 aplicado pela concessionária produz R$ 15 de impacto social e ambiental. A metodologia utilizada para chegar ao cálculo não foi detalhada na divulgação do levantamento.

O modelo econômico da Parquetur não depende apenas da cobrança de ingresso. Metade da receita vem da bilheteria, enquanto os outros 50% são gerados por alimentação, bebidas, eventos e lojas de lembranças. O tíquete médio por visitante é de aproximadamente R$ 70.

A empresa pretende ampliar essas receitas com a realização de eventos e a divulgação dos parques como alternativas de lazer. “O brasileiro não tem isso culturalmente, de ir ao parque. A opção é sempre ir à praia”, afirma Cleto.

O crescimento do turismo em áreas naturais aparece nos números nacionais. As unidades de conservação federais registram 25,5 milhões de visitas em 2024, aumento real de 4,9% em relação a 2023, de acordo com o ICMBio.

O desafio é transformar o aumento do público em receita, empregos e conservação, sem afastar moradores ou limitar o acesso às áreas públicas. Pesquisa conduzida por Grislayne Guedes Lopes da Silva, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, e por Sidnei Raimundo, professor da USP, aponta fragilidades no acompanhamento das concessões. Entre elas estão a falta de fiscais técnicos dedicados, a ausência de indicadores padronizados e a dificuldade para medir os impactos ambientais, sociais e econômicos nas comunidades do entorno.

Em análise publicada pela Fundação Getulio Vargas, o especialista em gestão sustentável Samuel Lloyd resume o principal ponto de atenção: “O grande desafio é equilibrar a conservação com o uso sustentável do espaço.”

Lloyd possui formação pelo Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade da FGV e dirige a Urbia Parques, empresa que também atua no mercado de concessões. Segundo ele, o crescimento da estrutura turística precisa ser acompanhado por fiscalização pública, cumprimento dos contratos, educação ambiental e participação das comunidades locais. A análise publicada pela FGV não trata especificamente da Chapada dos Veadeiros, mas avalia os efeitos do mesmo modelo adotado em parques brasileiros.

A meta de um milhão de visitantes, portanto, representa uma oportunidade econômica para os destinos atendidos pela Parquetur, mas também amplia a necessidade de controle ambiental. Na Chapada dos Veadeiros, o resultado dependerá de quanto dos R$ 40 milhões será efetivamente destinado a Goiás, de quais estruturas serão implantadas e da capacidade do poder público de fiscalizar a operação.

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