O promotor Marcelo Leite foi um dos membros do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) que atuou na condenação dos suspeitos do caso conhecido como chacina do DF, quando dez pessoas da mesma família foram assassinadas entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023. As penas dos acusados, proferidas no sábado (18), ultrapassaram 1,2 mil anos.
“Foi um julgamento muito emocional por envolver crianças. A família esteve presente em todos os dias, muito sentida pela tragédia. Essa dor foi combustível para o Ministério Público, especialmente durante nossa sustentação. O resultado foi dentro do esperado, onde os principais envolvidos foram condenados em todos os crimes propostos. Essa barbaridade teve resposta à altura”, disse Marcelo Leite.
“Ao identificarmos a complexidade do que se apresentava, montamos uma força-tarefa composta por, pelo menos, cinco promotores. Assim, ante a interação constante com a Polícia Civil, foi possível a construção de uma investigação e uma ação penal robusta, recheada de provas e depoimentos altamente esclarecedores, trazendo assim a certeza necessária para que os jurados pudessem condenar cada um dos réus pelos crimes por eles praticados”, detalhou o promotor Daniel Bernoulli.
Já o promotor Nathan Neto disse que, “ao longo de todo o processo e neste julgamento, o Ministério Público buscou, com responsabilidade e firmeza, reconstruir a verdade dos fatos, na tentativa de entregar à sociedade a resposta que a lei permite. Que essa resposta não apague a dor, mas ajude a reafirmar valores, fortalecer a confiança nas instituições e apontar para um futuro em que tragédias como essa não se repitam”.
Confira as penas:
- Gideon Batista de Menezes foi condenado a 397 anos, 8 meses e 4 dias de reclusão, além de 1 ano e 5 meses de detenção e pagamento de 716 dias-multa pela morte de todos os membros da família. Ele foi apontado como um dos principais articuladores do crime.
- Carlomam dos Santos Nogueira teve pena de 351 anos, 1 mês e 4 dias de reclusão, além de 11 meses de detenção e 716 dias-multa. Ele foi considerado responsável pelo plano e atuação direta nos sequestros e execuções, tendo sido o autor do tiro na nuca que matou Marcos Antônio, autodeclarado dono da chácara. Ele confessou os crimes.
- Horácio Carlos Ferreira Barbosa teve condenação de 300 anos, 6 meses e 20 dias de reclusão, mais 1 ano de detenção e 407 dias-multa. Ele, que fingiu ser vítima em um falso assalto, atuou no sequestro das vítimas, enterro, esquartejamento e incêndio dos corpos e veículos.
- Fabrício Silva Canhedo foi condenado a 202 anos, 6 meses e 28 dias de reclusão, além de 1 ano de detenção e 487 dias-multa. Ele atuou, principalmente, como vigia do cativeiro e ocultação do carro de Cláudia, “segunda esposa” de Marcos Antônio.
- Carlos Henrique Alves da Silva, por fim, foi absolvido de um dos homicídios (Thiago), mas condenado a 2 anos de reclusão por participar da rendição de uma das vítimas.
O júri durou seis dias e contou com a participação de 18 testemunhas.
Os suspeitos já estavam detidos em prisão preventiva. Eles respondem por crimes de homicídio, extorsão e sequestro.
Conforme as autoridades, o crime foi motivado pelo interesse dos acusados em uma fazenda avaliada em R$ 2 milhões. Eles, inclusive, foram acusados de matarem três crianças entre as vítimas para que não restassem herdeiros da propriedade.

Investigação
A investigação começou com o desaparecimento de Elizamar da Silva. O carro dela foi encontrado em Cristalina, região do entorno, com quatro corpos dentro, em 12 de janeiro de 2023. Antes, em 23 de outubro, os acusados alugaram o cativeiro em Planaltina (DF), onde manteriam as vítimas reféns.
Elizamar foi emboscada com os três filhos, Gabriel, 7, e os gêmeos Rafael e Rafaela, 6, com o marido, Thiago Gabriel Belchior. Segundo a Polícia, ela saiu do salão onde trabalhava, na 307 Norte, naquela noite, após ser atraída para a casa onde moravam os sogros, Marcos Antônio Lopes, 54, e Renata Belchior, 52, também assassinados.
A irmã de Thiago, Gabriela Belchior, 25, também foi vítima, assim como Claudia Regina de Oliveira e Ana Beatriz Marques de Oliveira, integrantes da outra família de Marcos Antônio. A motivação do crime seria uma chácara em que parte das vítimas vivia. O imóvel, em Itapoã, era avaliado em R$ 2 milhões. A execução dos dez assassinatos levou 18 dias.
Segundo a denúncia, quatro réus (Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos, Fabrício Silva Canhedo e Carloman dos Santos Nogueira) são acusados de crimes em que as penas podem passar de 340 anos de prisão para cada um. Já o quinto envolvido, Carlos Henrique Ales da Silva, o “Galego”, enfrenta o crime de homicídio de Thiago Gabriel.
Resumo das informações da chacina do DF
As dez vítimas (família Belchior):
- Elizamar Silva (39): Cabeleireira, a primeira a desaparecer.
- Thiago Gabriel Belchior (30): Marido de Elizamar.
- Gabriel (7), Rafael (6) e Rafaela (6): Filhos do casal.
- Marcos Antônio Lopes (54): Sogro de Elizamar (pai de Thiago).
- Renata Belchior (52): Sogra de Elizamar (mãe de Thiago).
- Gabriela Belchior (25): Cunhada de Elizamar (irmã de Thiago).
- Cláudia Regina (54): Ex-companheira de Marcos Antônio.
- Ana Beatriz (19): Filha de Marcos Antônio e Cláudia Regina.
Os cinco réus e as acusações:
- Gideon Batista de Menezes: Apontado como líder. Responde por homicídio, sequestro e ocultação de cadáver.
- Horácio Carlos Ferreira: Responde por homicídio, extorsão e sequestro.
- Carlomam dos Santos Nogueira: Responde por homicídio e associação criminosa.
- Fabrício Silva Canhedo: Responsável por vigiar o cativeiro em Planaltina.
- Carlos Henrique Alves (“Galego”): Responde especificamente pelo envolvimento na morte de Thiago Gabriel.
Cronologia do crime:
- Início (12/Jan/23): Desaparecimento de Elizamar e dos três filhos após emboscada.
- Cativeiro: As vítimas foram mantidas em uma casa alugada em Planaltina (DF).
- Motivação: Ganância por uma chácara avaliada em R$ 2 milhões e valores em contas bancárias.
- Desfecho da Investigação: 18 dias de execuções coordenadas entre DF, Goiás (Cristalina) e Minas Gerais (Unaí).



