Castração química: acusação que perseguiu Michael Jackson até a morte

Redação
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Castração química: acusação que perseguiu Michael Jackson até a morte

O lançamento da cinebiografia de Michael Jackson reacendeu debates sobre um dos capítulos mais sombrios da vida do Rei do Pop. Entre os temas que ressurgem está a acusação de que seu pai, Joe Jackson, teria submetido o filho a um tratamento hormonal para manter sua voz aguda — uma prática que, se verdadeira, deixaria marcas profundas no artista.

A alegação ganhou corpo em 2011, quando o pesquisador francês Alain Branchereau, professor de cirurgia vascular no hospital Timone de Marselha, afirmou em seu livro “O segredo de uma voz” que Michael “sofreu, sem saber, uma castração química entre os 12 e os 20 anos”. Branchereau baseou sua conclusão em documentos médicos, inclusive na autópsia do cantor.

O que dizem os médicos sobre o caso

Michael Jackson

Branchereau reconheceu em sua análise que os órgãos genitais de Michael “eram perfeitamente normais e [ele] era apto para as relações sexuais”. Porém, argumentou que o artista “foi privado não só de sua infância, como de sua adolescência, o que obrigatoriamente teve repercussões psicológicas”.

O medicamento suspeito seria um remédio contra acne. Essa hipótese ganha peso ao comparar com relatos da própria autobiografia de Michael, que mencionou sofrer com acne severa a partir dos 12 anos. O próprio médico pessoal do cantor, Conrad Murray — condenado pela morte de Michael por homicídio culposo — abordou o tema em seu livro “This Is It! The Secret Lives of Dr. Conrad Murray and Michael Jackson”, lançado em 2016. Murray acusou Joe Jackson de forçar Michael a tomar injeções de hormônio a partir dos 12 anos sob o pretexto de curar espinhas e prevenir mudanças vocais.

A habilidade vocal extraordinária de Michael Jackson parecia confirmar a teoria para alguns especialistas:

  • Capacidade de cobrir três oitavas, enquanto grandes tenores alcançam apenas duas
  • Manutenção de voz aguda característica desde a infância até a idade adulta
  • Controle vocal incomum para um homem adulto
  • Particularidade acústica raramente observada em outros cantores masculinos

O custo emocional de um segredo familiar

Michael Jackson nunca confirmou publicamente ter sofrido castração química. Mesmo assim, quem o conheceu afirma que a questão o atormentou. Sharon Carpenter, jornalista que produziu o documentário “Forever the King: A Tribute to Michael Jackson”, deu uma entrevista reveladora ao site Daily Star. Ela estava no hospital no dia da morte do cantor, em 2009, e conversou com Joe Jackson três dias depois.

“Você acha que o Michael Jackson perdoou Joe pelo que ele fez com ele? Não sei se perdão é a palavra certa, mas tentar superar é provavelmente a melhor maneira de explicar isso”, revelou Carpenter. A jornalista foi contundente ao avaliar a relação entre pai e filho: acreditava que Joe nunca havia amado Michael genuinamente.

O contexto familiar de Michael Jackson não favorecia benefício da dúvida para Joe. O empresário mantinha uma rotina de abusos diversos com todos os filhos que integravam o Jackson 5. A cinebiografia recente, que conta com o sobrinho Jaafar Jackson no papel-título, voltou a despertar interesse pelo tema e gerou reações distintas dentro da própria família do astro.

A prática dos castratis: história que pode ter se repetido

A castração de cantores para preservar vozes agudas é prática antiga. Os homens submetidos a esse procedimento eram chamados de castratis. Relatos dessa prática existem desde o século XVI, mantendo-se até o século XIX.

A Itália foi o principal epicentro dessa tradição. O procedimento tornou-se tão aceito que o Papa Clemente III autorinou castratis a cantarem nos corais da Capela Sistina em 1599 — apesar de a Igreja Católica considerar a amputação ilegal para qualquer outro fim que não fosse salvar vidas. A própria Igreja motivou a prática: o Papa Sisto V havia proibido mulheres de cantarem em público no século XVI. Com a castração realizada aos 8 anos, meninos mantinham vozes agudas e conseguiam fazer os papéis de sopranos e contraltos, preservando os arranjos vocais das óperas.

A prática durou séculos até 1870, quando a Itália finalmente a proibiu. O último castrati conhecido foi Alessandro Moreschi, cantor de ópera italiano que morreu em 1922 — 36 anos antes do nascimento de Michael Jackson. Sua morte marcou o fim de uma era da música clássica europeia.

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