Polícia Militar de São Paulo – Foto: Cesar Okada/ Istockphoto.com
Polícia Civil de São Paulo desarticulou nesta sexta-feira (17) uma fábrica clandestina de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. A operação resultou na prisão de quatro membros de uma família envolvida na produção e distribuição dos produtos tóxicos, que causaram seis mortes no estado. As investigações apontam que o metanol utilizado era fornecido por dois postos de combustíveis locais, identificados durante as buscas. O esquema operava há meses, afetando bares e distribuidores na capital e região metropolitana.
As vítimas iniciais identificadas consumiram as bebidas em estabelecimentos na zona leste de São Paulo, como o Bar Torres, interditado pela Vigilância Sanitária. Autoridades confirmam que o grupo familiar atuava de forma coordenada, utilizando etanol batizado para reduzir custos na fabricação de vodca, gim e whisky falsificados.
- Principais itens apreendidos incluem 1.800 garrafas vazias e cheias, galões de etanol contaminado, rótulos falsos e equipamentos de envase.
- Dois postos em Santo André e São Bernardo foram fiscalizados pela Agência Nacional do Petróleo, com amostras coletadas para análise.
- O Ministério da Saúde registra 41 casos confirmados de intoxicação por metanol no país, com oito óbitos totais.
Origem do metanol nos postos
Agentes da Polícia Civil identificaram os dois postos de combustíveis durante análise de transações financeiras ligadas ao núcleo familiar. Os estabelecimentos, de bandeiras diferentes, vendiam etanol com concentrações elevadas de metanol, substância industrial usada para baratear o combustível e desviada para a produção de bebidas.
A fiscalização conjunta com a ANP ocorreu na manhã de sexta-feira, resultando na apreensão de celulares e documentos que comprovam as entregas regulares. Um dos postos em Santo André é apontado como principal fornecedor, com compras monitoradas até 30 de setembro, data em que São Paulo já registrava intoxicações.
Investigadores verificam se o desvio era intencional ou decorrente de adulteração nos próprios tanques de armazenamento.
Prisões e composição do grupo familiar
Vanessa Maria da Silva, presa em flagrante na semana passada, liderava a operação na fábrica localizada no bairro Alvarenga. Seu pai, irmão e cunhado foram detidos por participação direta na mistura e envase das bebidas, com provas de divisão de tarefas no esquema.
A delegacia especializada em crimes contra o consumidor reuniu depoimentos de representantes e distribuidores que adquiriam os lotes falsificados. Todos os envolvidos respondem por falsificação de produtos alimentícios, com pena máxima de oito anos de prisão.
Autoridades destacam que o grupo mantinha relações comerciais com bares na Mooca, facilitando a entrada das bebidas no mercado.
O inquérito avança para mapear compradores em outras regiões, com buscas adicionais programadas.
Casos de intoxicação em São Paulo
Ricardo Lopes, de 54 anos, consumiu vodca no Bar Torres em 12 de setembro e faleceu quatro dias depois por complicações renais e hepáticas causadas pelo metanol. Marcos Antônio Jorge Júnior, de 46 anos, apresentou sintomas semelhantes após ingestão no mesmo local e morreu em 2 de outubro.
- Pelo menos três outros óbitos em São Paulo estão ligados às bebidas da fábrica, incluindo um caso de cegueira permanente em vítima internada em UTI.
- Análises laboratoriais confirmaram concentrações acima de 40% de metanol em oito das nove garrafas apreendidas no bar.
- Uma quarta vítima, identificada como frequentadora do Bar Nova Europa, permanece em tratamento com perda parcial de visão.
Os sintomas surgem entre 12 e 24 horas após o consumo, incluindo náuseas, confusão mental e danos ao nervo óptico. Hospitais estaduais receberam protocolos para administração de etanol farmacêutico como antídoto.
Vigilância Sanitária ampliou inspeções em 200 estabelecimentos na capital desde o início das mortes.
Expansão do esquema para outros estados
Autoridades paulistas investigam conexões entre a fábrica de São Bernardo e casos em Pernambuco, onde duas mortes recentes elevaram o total nacional para oito. O Ministério da Saúde elevou as notificações para 195 em todo o país, com 14 confirmações laboratoriais.
Distribuidores interestaduais são alvos de nove mandados de busca cumpridos nesta semana. Relatórios indicam que lotes de gim e vodca falsificados circularam para o Nordeste via transportadoras registradas.
- Pernambuco registra três casos confirmados além dos óbitos, com internações em Recife e Olinda.
- Paraná e Rio Grande do Sul notificaram ocorrências isoladas ligadas a importações de São Paulo.
- O governo federal distribuiu 4.300 ampolas de antídoto para unidades de saúde em estados afetados.
A Receita Federal iniciou operação paralela para rastrear a origem industrial do metanol desviado.
Fiscalização em bares e distribuidores
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo lacrou 15 bares na zona leste após testes rápidos em estoques de bebidas. O Bar Torres emitiu nota afirmando aquisição de produtos com nota fiscal, mas análises contradizem a procedência.
- Agentes coletaram 500 amostras em comércios da Grande São Paulo para exame toxicológico.
- Inscrições estaduais de três distribuidores foram canceladas por venda de itens sem selo de procedência.
- Parceria com a indústria de bebidas prevê selos de autenticação em estabelecimentos credenciados.
A operação conjunta com a Vigilância Sanitária prioriza regiões com alto consumo de destilados, como Mooca e Jardins. Proprietários devem notificar autoridades sobre compras suspeitas para evitar responsabilização.
Protocolos médicos para tratamento
Hospitais em São Paulo adotaram diretrizes unificadas para intoxicações por metanol desde setembro, com ênfase em hemodiálise para remoção rápida da substância. O antídoto etanol farmacêutico inibe a metabolização tóxica, reduzindo riscos de coma e falência orgânica.
Casos graves demandam internação em UTI, com monitoramento de funções visuais e renais. Até o momento, 20 pacientes paulistas receberam o tratamento, com taxa de recuperação de 70% em estágios iniciais.
O Ministério da Saúde orienta notificação imediata de sintomas como dor abdominal e alterações visuais para centros de vigilância.

