Empresa tem como sócia uma tia idosa de Altineu Côrtes, que nega envolvimento; Max Clean fica no mesmo endereço de antiga firma do ramo que fez o pai do deputado ser preso
RESUMO
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GERADO EM: 10/06/2026 – 16:23
Crescimento suspeito de lavanderia ligada a deputado do PL no RJ
A lavanderia Max Clean, de propriedade da tia do deputado Altineu Côrtes, presidente do PL no Rio, multiplicou por oito seu faturamento entre 2020 e 2026, durante o governo de Cláudio Castro. Mais de 80% dos contratos foram sem licitação, totalizando R$ 78,8 milhões. Altineu nega envolvimento com a empresa. A Max Clean opera no mesmo endereço de uma antiga firma de seu pai, envolvida em fraudes.
Uma lavanderia registrada no nome da tia de 75 anos do deputado federal Altineu Côrtes, presidente do PL no Rio, multiplicou por oito seu faturamento com o governo do Rio enquanto o aliado Cláudio Castro (PL) comandou o estado, entre 2020 e 2026. Mais de 80% dos contratos durante a gestão de Castro não passaram por licitação. Procurado, Altineu alegou não ter relação com a empresa e disse que não atuou em prol dos contratos.
Focada em limpeza hospitalar, a Max Clean Lavanderia Industrial começou a fechar contratos com o poder público há nove anos. Entre 2017 e 2020, os governos de Luiz Fernando Pezão e Wilson Witzel pagaram R$ 9,6 milhões à empresa. Com Castro no comando do estado, os números deram um salto. Em seis anos, a lavanderia acertou compromissos de R$ 78,8 milhões com o governo do Rio e, dos 23 contratos fechados, 19 foram sem licitação.
O endereço da Max Clean, no município de São Gonçalo, é o mesmo de uma antiga empresa do ramo, a Brasil Sul, que era do pai de Altineu. Xará do filho, ele foi preso em 2005 com base em investigação da Polícia Federal sobre fraudes nas redes de saúde federal, estadual e municipal no mesmo ramo de limpeza hospitalar. Voltaria a ser preso em 2009, na Operação Sexta-Feira 13, sob suspeita de lavagem de dinheiro por meio do envio de recursos ao exterior.
Quando colocou em curso a Operação Roupa Suja, de 2005, a PF mostrou conversas do pai do deputado combinando esquemas para criar falsas concorrências em licitações. Outra suspeita recaiu sobre a prática de superdimensionar serviços a fim de cobrar mais caro pelo trabalho.
A Justiça condenou Altineu Pires Coutinho, na primeira instância, em dois processos. No primeiro, a 14 anos e nove meses de prisão por fraude em licitação, formação de quadrilha e corrupção ativa. Depois, a oito anos por corrupção ativa. Decisões de tribunais superiores fizeram os condenados responderem a maior parte do tempo em liberdade.
Dona desconhecida na empresa
A Max Clean tem como única sócia Alice Maria Ramos Freitas, irmã da mãe de Altineu. O GLOBO esteve em quatro endereços de Niterói e São Gonçalo para conversar com Alice, mas não a encontrou. Ela também não foi localizada por telefone.
Na sede da lavanderia, no bairro do Pacheco, um funcionário informou que funcionava ali a “lavanderia do Altineu” — e que nenhuma Alice era conhecida no local. Não havia um gerente que soubesse dar informações detalhadas sobre quem comanda de fato a empresa.
Procurado, o deputado, que é o principal fiador da candidatura do presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL) ao Palácio Guanabara, negou vínculo atual com a empresa em nome da tia, embora admita já ter sido sócio da lavanderia que funcionava no mesmo local décadas atrás, a Brasil Sul.
— Não tenho nada a ver com essa lavanderia. Me desvencilhei dela em 2001, antes da minha primeira eleição, e nunca mais pisei lá, desde antes de a operação (de 2005) quebrar a empresa. Não sei nem quem está como sócio dela — diz.
Na investigação de 2005, a PF mencionou que o atual presidente do PL-RJ havia sido sócio da lavanderia Brasil Sul, embora ele não tenha entrado no foco das apurações que levaram o pai à prisão. Altineu diz que quando entrou na política, em 2002, se desfez da sociedade de algumas empresas da família. Quatro anos depois, o deputado declarou à Justiça Eleitoral, como parte de seus bens, que tinha R$ 720 mil a receber pela venda de uma parcela da lavanderia.
Contratos com a Fundação Saúde
Todos os contratos da Max Clean na esfera estadual foram firmados com a Fundação Saúde, entidade vinculada à Secretaria de Saúde e responsável por gerir a rede. A fundação é um tradicional feudo do PP no estado, e Altineu afirma que “nunca pediu nada” relacionado ao órgão.
Nos últimos meses, tanto a secretaria quanto a fundação vêm passando por auditorias do governador interino do Rio, desembargador Ricardo Couto. No início de maio, Couto determinou, além de exonerações, a criação de um modelo de avaliação de desempenho dos servidores.
Entre os contratos da lavanderia da família de Altineu que dispensaram a concorrência, destaca-se um de 2024 que garantiu à Max Clean, por um ano, o serviço de limpeza de roupas hospitalares do Hospital Getúlio Vargas, na Zona Norte do Rio. O valor é de R$ 8,2 milhões, o que dá uma média de mais de R$ 600 mil por mês.
Já o maior contrato da lavanderia foi assinado após licitação em março de 2024 e chegou a R$ 37,9 milhões, depois de aditivos triplicarem o valor previsto originalmente. Ativo até hoje, o documento dá à empresa o direito de exercer o serviço de limpeza hospitalar de sete unidades da rede estadual.
Jogo Político
Análises de Thiago Prado, editor de Política e Brasil do GLOBO


