Hantavírus acende alerta global, mas cenário no Brasil é diferente – UOL

Redação
By
8 Min Read
Hantavírus acende alerta global, mas cenário no Brasil é diferente – UOL

Outra forma de contaminação é caracterizada pela entrada de agentes infecciosos por lesões na pele, como escoriações ou mordeduras de roedores.

Diferente do que se imagina, não são ratos de esgoto comuns (Rattus norvegicus ou Rattus rattus) que transmitem hantavírus. As espécies transmissoras são roedores silvestres nativos, que vivem em áreas rurais: cerca de 70% dos brasileiros com a doença foram infectados na zona rural, segundo o Ministério da Saúde.

Jessica Ramos, médica infectologista do Hospital Sírio-Libanês, destaca que, no Brasil, as espécies reservatórias do vírus são os roedores silvestres nativos:

Oligoryzomys nigripes (rato-do-mato-de-pés-pretos): principal reservatório do vírus Juquitiba, encontrado principalmente na Mata Atlântica ao longo da costa brasileira.

Necromys lasiurus: principal reservatório do vírus Araraquara, predominante no bioma Cerrado (savana), Caatinga e Mata Atlântica.

Akodon montensis, Akodon paranaensis, Akodon cursor: reservatórios secundários de diferentes cepas no Sul e Sudeste.

Continua após a publicidade

“Estes roedores habitam áreas rurais, campos, bordas de florestas e áreas de transição entre biomas. A infecção humana ocorre tipicamente em contextos de atividades agrícolas, florestais, limpeza de áreas previamente não utilizadas, construção e atividades que levantam poeira em celeiros e áreas de armazenamento”, afirmou Ramos.

Uma pessoa pode transmitir para outra?

11.mai.26 - O navio MV Hondius, afetado por um surto de hantavírus, no porto de Granadilla de Abona, em Tenerife, Espanha
11.mai.26 – O navio MV Hondius, afetado por um surto de hantavírus, no porto de Granadilla de Abona, em Tenerife, Espanha Imagem: Pedro Nunes/Reuters

No mundo, os casos de hantavírus transmitidos de pessoa a pessoa são raros. Os únicos episódios descritos na literatura médica são transmitidos pela cepa Andes, comum na Argentina e Chile. Ela ocorre por contato respiratório muito próximo com uma pessoa infectada.

Segundo a OMS, o surto no navio que saiu da Argentina com destino a África pode ter ocorrido dessa forma. O primeiro paciente foi infectado fora do navio, em contato com roedores silvestres. Em seguida, já dentro da embarcação, em ambiente fechado, transmitiu o vírus a outros passageiros.

“Dado o ambiente confinado do navio e o contato próximo prolongado entre passageiros, pode ter ocorrido transmissão secundária do vírus Andes. Com incubação média de 18 dias, os passageiros podem ter sido infectados em terra e desenvolvido sintomas apenas durante a viagem”, explicou Jessica Ramos, médica infectologista do Hospital Sírio-Libanês.

Continua após a publicidade

Quais são os sintomas?

Os sintomas do hantavírus geralmente começam entre uma e oito semanas após a exposição, dependendo do tipo de vírus. Os sinais iniciais podem ser confundidos com gripe ou dengue, incluindo febre, dor muscular e dor de cabeça.

O principal alerta ocorre quando surgem sintomas respiratórios, como tosse seca e falta de ar, associados à queda da pressão arterial.

A evolução é muito rápida. Um paciente pode estar pela manhã apenas com tosse e, à noite, já precisar de UTI. Cezar Carranza Tamoyo, médico infectologista do Comitê Técnico de Medicina Tropical da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia)

Na fase cardiopulmonar —a mais grave da doença— os pulmões acabam ficando “encharcados” de líquido, e o paciente muitas vezes necessita de suporte ventilatório. Também podem ocorrer complicações cardiovasculares, queda acentuada da pressão arterial e comprometimento renal, com presença de sangue na urina, piora da função dos rins e, em alguns casos, necessidade de diálise.

Alta letalidade

O diagnóstico precoce da infecção por hantavírus pode ser desafiador, já que os sintomas iniciais são semelhantes aos de outras doenças febris ou respiratórias, como gripe, coronavírus e pneumonia viral. Essa dificuldade contribui para a alta taxa de letalidade da doença.

Continua após a publicidade

Em média, de cada cinco brasileiros contaminados pelo hantavírus, cerca de dois morrem. No cenário mundial, a taxa de letalidade varia conforme a região: aproximadamente 15% na Ásia e Europa, e até 50% nas Américas, segundo a OMS.

A elevada letalidade nas Américas ocorre porque o vírus desencadeia uma resposta inflamatória intensa no organismo, exigindo diagnóstico rápido. Contudo, como a maioria dos casos acontece em áreas rurais, onde o acesso à saúde é mais demorado, muitos pacientes acabam não recebendo atendimento a tempo e evoluem para morte.

Moacyr Silva, médico infectologista do Einstein Hospital Israelita, destaca que, no Brasil, as regiões com maior incidência de casos são o Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Entre 2007 e 2024, foram registradas 170 mortes por hantavírus no Centro-Oeste, 165 na região Sul, 162 na região Sudeste, 41 na região Norte e apenas 2 na região Nordeste.

Cepas da doença

O hantavírus apresenta diferentes cepas. Elas variam em virulência, distribuição geográfica, reservatórios específicos e taxa de letalidade. As principais identificadas no Brasil são:

Araraquara (ARQV): associado ao roedor Necromys lasiurus, predominante no bioma Cerrado. É considerado o hantavírus mais virulento do país, com taxa de letalidade mais elevada.

Continua após a publicidade

Vírus Juquitiba (JUQV): associado principalmente ao roedor Oligoryzomys nigripes, encontrado na Mata Atlântica e no Cerrado.

Vírus Anajatuba: cepa da espécie Andes virus, identificada na Amazônia brasileira.

Vírus Araucaria: variante do tipo Juquitiba, presente no Sul do Brasil.

Vírus Jabora: associado a roedores do gênero Akodon, também no Sul do Brasil.

São várias as cepas de hantavírus que existem no Brasil. As diferenças entre elas estão nos tipos de manifestação clínica, no grau de gravidade e na forma de transmissão. A única cepa conhecida capaz de transmissão de pessoa a pessoa é o hantavírus Andes —endêmico no Chile e na Argentina. Raquel Stucchi, médica infectologista e diretora da SPI (Sociedade Paulista de Infectologia)

Como evitar

Imagem
Imagem: iStock
Continua após a publicidade

Segundo Moacyr Silva, do Einstein, não existe tratamento específico para as infecções por hantavírus. “As medidas terapêuticas são fundamentalmente de suporte, ministradas conforme cada caso por um médico profissional.”

O ideal é evitar a contaminação. Para isso, é fundamental ter cuidado ao entrar em ambientes fechados ou com sinais de infestação por roedores, especialmente locais que ficaram muito tempo sem limpeza. O principal risco está na inalação de partículas contaminadas presentes nas fezes, urina e saliva desses animais.

Ao limpar esses espaços, recomenda-se o uso de máscara de proteção contra aerossóis, como PFF2/N95, além de luvas.

Também é importante evitar varrer ou levantar poeira, já que isso pode espalhar partículas contaminadas no ar. O mais indicado é realizar uma limpeza úmida, utilizando pano molhado ou desinfetantes.

Além disso, manter os ambientes limpos, evitar acúmulo de lixo e alimentos expostos e controlar a presença de roedores são medidas essenciais de prevenção.

Compartilhe