Oficialização do Dia das Mães em 1932 moldou celebração nacional com raízes americanas

Redação
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Oficialização do Dia das Mães em 1932 moldou celebração nacional com raízes americanas

O dia das mães, celebrado anualmente no segundo domingo de maio, foi oficialmente instituído no brasil em 1932. Uma promulgação do então presidente Getúlio Vargas, através do decreto de número 21.366, datado de 5 de maio, formalizou a homenagem. Este ato legislativo buscou reconhecer a relevância dos sentimentos maternos e sua contribuição para a bondade e solidariedade humana na sociedade. A oficialização da data reflete uma influência direta do modelo de comemoração adotado nos Estados Unidos, onde a efeméride já havia ganhado forte apelo popular.

Apesar da criação oficial, a consolidação plena do dia das mães como uma das datas mais significativas do calendário brasileiro ocorreria nas décadas seguintes. O período do regime militar, entre 1964 e 1985, desempenhou um papel crucial neste processo de enraizamento cultural e social. Naquela época, houve uma valorização intensa da família e, em particular, da figura materna, alinhando-se a um ideal social propagado pelo governo.

Instituição oficial: o decreto de getúlio vargas em 1932

O decreto de número 21.366, assinado por Getúlio Vargas, estabelecia de forma explícita que “o segundo domingo de maio é consagrado às mães, em comemoração aos sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano, contribuindo para seu aperfeiçoamento no sentido da bondade e da solidariedade humana”. Esta redação sublinha o caráter moral e social que se desejava atribuir à celebração. A legislação buscava fundamentar a decisão em princípios de reconhecimento coletivo e virtudes humanas.

    Para justificar a criação da data, o documento apresentou três considerações principais:
  • Vários dias do ano já haviam sido oficialmente dedicados à lembrança e comemoração de fatos e sentimentos profundamente marcados na consciência coletiva.
  • O sentimento de ternura, respeito e veneração evocado pelo amor materno é um dos que mais distinguem e dignificam a espécie humana.
  • O Estado não pode ignorar as legítimas imposições da consciência coletiva, e é seu dever reconhecê-las e prestar apoio moral a toda obra que vise cultuar e cultivar os sentimentos que lhes conferem força afetiva de cultura e de aperfeiçoamento humano.

Esses pontos demonstram uma preocupação em alinhar a iniciativa governamental com anseios sociais e morais da época. A medida, portanto, não apenas formalizava uma homenagem, mas também se inseria em um contexto maior de construção de valores cívicos e familiares, sob a ótica da gestão varguista.

Anna jarvis e a origem do modelo contemporâneo nos estados unidos

O modelo para a celebração do dia das mães no brasil foi diretamente influenciado pelos Estados Unidos. A historiografia e pesquisas acadêmicas apontam para a figura de Anna Maria Jarvis (1864-1948) como a idealizadora do formato contemporâneo da data. A história de Jarvis começou em 1905, ano em que sua mãe faleceu. Profundamente afetada pela perda, ela iniciou uma campanha vigorosa para que houvesse uma data oficial dedicada à exaltação do sentimento materno e das figuras das mães.

A mãe de Anna Jarvis, também chamada Anna, era uma mulher muito respeitada em sua comunidade na Virgínia Ocidental. Conforme relatado pelo psicólogo social Sérgio Silva Dantas, professor de marketing da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ela era amplamente reconhecida como uma “grande mãezona”. Sua atuação na Igreja Metodista e o desenvolvimento de diversos trabalhos sociais fizeram com que sua morte gadesse grande comoção local.

A iniciativa de Anna Jarvis, mesmo sendo uma mulher solteira e sem filhos, rapidamente ganhou proporções consideráveis. Sem a existência de redes sociais ou ferramentas de comunicação de massa como as conhecidas hoje, a ideia “viralizou”. O apelo emocional e a ressonância com o público foram tão fortes que o então presidente americano, Woodrow Wilson (1856-1924), decidiu oficializar o segundo domingo de maio como o dia das mães em todo o país. Este reconhecimento presidencial solidificou a data no calendário americano, servindo de inspiração para outras nações, incluindo o brasil.

A consolidação da data no brasil: do regime militar ao apelo social

Embora tenha sido oficializada em 1932, a verdadeira consolidação e o forte apelo da data no brasil ocorreram mais intensamente durante o regime militar. A ditadura, que vigorou de 1964 a 1985, implementou políticas de valorização familiar que ressoavam com a importância da figura materna. A historiadora Mary Del Priore, autora de “História das Mulheres no Brasil”, observa que, neste período, “copiava-se tudo dos Estados Unidos”, e houve uma “valorização enorme da família e das mães, em particular”.

A maternidade era um ideal social amplamente exaltado. Mulheres dedicadas aos filhos eram perfiladas em concursos e ganhava destaque em capas de revista, tornando-se um modelo a ser seguido. Antes da oficialização de Vargas, contudo, já existiam no brasil algumas manifestações de homenagem às mães. Pesquisas do professor Dantas indicam que celebrações eram observadas, principalmente ligadas a igrejas cristãs.

O mês de maio, em particular, era tradicionalmente associado à comemoração do mês de Maria, a mãe de Jesus, o que facilitava as associações com o papel materno. Registros históricos apontam que em 12 de maio de 1918, por exemplo, houve uma celebração dedicada ao dia das mães no Rio Grande do Sul, organizada pela Associação Cristã de Moços. A Igreja Católica no brasil, por sua vez, incorporou a tradição de forma mais ampla em 1947, por iniciativa do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, D. Jaime de Barros Câmara.

A oficialização por Getúlio Vargas em 1932 também pode ser vista como um reflexo de um momento de crescente visibilidade e valorização da mulher na sociedade. As mulheres começavam a conquistar direitos civis importantes, como o direito ao voto, garantido no mesmo período. Vargas, segundo o professor Dantas, “queria fazer uma ação junto ao público feminino”, utilizando a data para estreitar laços com esse eleitorado emergente. A celebração, assim, unia o reconhecimento social e político ao papel feminino.

O pilar comercial: dia das mães no varejo nacional

A transição da celebração do dia das mães para um evento de forte cunho comercial foi um processo natural e relativamente rápido. Na cultura ocidental, muitas datas comemorativas se interligam ao consumo e à troca de presentes, e o dia das mães não foi exceção. Conforme Dantas explica, “não há grandes registros históricos sobre como isso foi se desenvolvendo, mas o que se sabe é que o comércio começou a visualizar no dia das mães uma grande oportunidade”.

Atualmente, o dia das mães ocupa a posição de segunda data mais importante para o comércio brasileiro, superada apenas pelo natal. A movimentação econômica gerada supera a do dia dos namorados, dia dos pais e dia das crianças, impulsionada pelo forte apelo emocional e sentimental que a figura materna representa na cultura do país. Essa proeminência no calendário do varejo tem sido, contudo, desafiada nos últimos anos por outra data de menor carga afetiva: a black friday.

Para certos segmentos de produtos, a black friday já se mostra mais relevante em termos de volume de vendas. No entanto, Marcel Solimeo, superintendente institucional da Associação Comercial de São Paulo, ressalta que a black friday é, em muitos casos, uma antecipação das compras de natal. Os consumidores aproveitam as promoções de novembro para adquirir presentes para o fim do ano. O dia das mães, em contraste, representa um adicional significativo no primeiro semestre, sendo, sem dúvida, a data comercial mais importante da primeira metade do ano para o varejo.

Em alguns segmentos, como artigos de uso pessoal, o dia das mães mantém sua supremacia, superando até mesmo a black friday. A data se consolidou no calendário comercial brasileiro devido ao seu forte apoio no apelo emocional e na importância da figura materna em nossa cultura. Lojistas sempre utilizaram o dia das mães para comercializar não apenas vestuário e artigos pessoais (como perfumes, joias, maquiagem, bolsas), mas também eletrodomésticos.

Historicamente, a ideia de que um presente para a mãe era um presente para o lar impulsionava a venda de bens duráveis. Segmentos de móveis e eletrodomésticos, por exemplo, sempre registraram um desempenho muito bom neste período. Hoje, a narrativa pode ter se modernizado um pouco, mas as lojas continuam a usar a data como uma oportunidade vital para comercializar esses produtos de maior valor agregado. Caso contrário, a próxima grande oportunidade para vendas de itens de maior custo seria apenas no final do ano.

A perenidade da data: entre o afeto e a economia

A trajetória do dia das mães no brasil ilustra como uma celebração pode evoluir de uma iniciativa política e social para um fenômeno de vastas implicações culturais e econômicas. Desde sua oficialização por Getúlio Vargas, inspirada por movimentos americanos, a data se entrelaçou profundamente com o tecido social brasileiro. A valorização da maternidade, que remonta a tempos antigos e celebrações da primavera, encontrou no formato contemporâneo uma maneira de ser expressa e reverenciada.

A campanha incansável de Anna Jarvis nos Estados Unidos, motivada por uma perda pessoal e um desejo de honrar o amor materno, demonstrou o poder de um sentimento universal de gerar um movimento de grande escala. Essa ressonância atravessou fronteiras, encontrando terreno fértil no brasil. Aqui, a data foi não apenas acolhida, mas também moldada por contextos históricos específicos, como a exaltação familiar durante o regime militar e a crescente visibilidade feminina em momentos cruciais da história política.

A dualidade do dia das mães é evidente: ele permanece como um símbolo de amor e gratidão familiar, ao mesmo tempo em que se solidificou como um motor essencial para a economia varejista. O apelo emocional da data, inegável para milhões de brasileiros, transforma-se em um impulso significativo para diversos setores do comércio, desde pequenos empreendedores até grandes redes. Este equilíbrio entre o sentimental e o comercial assegura a sua perenidade no calendário nacional.

Mesmo diante de novas concorrências, como a black friday, o dia das mães mantém sua posição de destaque. A capacidade de adaptação e a centralidade da figura materna na cultura brasileira garantem que, ano após ano, o segundo domingo de maio continue sendo um momento de celebração. É uma data que transcende a mera compra e venda, enraizando-se nos laços familiares e na homenagem a uma das relações humanas mais fundamentais e valorizadas.

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