Quem é Iván Mordisco? Ataques de criminoso matam dezenas no sudoeste colombiano

Redação
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Quem é Iván Mordisco? Ataques de criminoso matam dezenas no sudoeste colombiano

Iván Mordisco comanda a facção dissidente mais poderosa das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e se consolidou como a principal ameaça ao governo de Gustavo Petro. Seu grupo, conhecido como Estado-Maior Central, reúne cerca de 3.200 combatentes financiados por narcotráfico, mineração ilegal e extorsão. No fim de semana, seus homens executaram pelo menos 31 ataques no sudoeste colombiano, deixando 21 civis mortos e 56 feridos em uma bomba detonada em rodovia.

O presidente colombiano o compara a Pablo Escobar desde que o guerrilheiro abandonou as negociações de paz em 2024. Mordisco utiliza explosivos e drones como marca registrada de suas operações, realizando demonstrações de força às vésperas das eleições gerais do país. Seu nome verdadeiro é Néstor Gregorio e, aos olhos de Petro, ele representa a continuação do conflito que marca a Colômbia há mais de 60 anos.

De adolescente a comandante de elite

Mordisco ingressou na guerrilha quando ainda era adolescente e conquistou fama entre os combatentes por sua destreza com fuzis e explosivos. Especialista em armamentos, ele se tornou um atirador de elite respeitado nas fileiras das Farc. Sua proficiência técnica e liderança no campo de batalha lhe permitiram avançar nos postos hierárquicos do grupo.

Quando as Forças Armadas Revolucionárias depuseram as armas em 2016 para se tornarem um partido político, Mordisco tomou uma decisão radical. Ele se recusou a assinar o acordo de paz que desarmou a maior parte da organização guerrilheira e concedeu anistia a seus ex-membros. Em vez disso, permaneceu na selva com seus seguidores mais leais, semeando o terror em comunidades rurais.

Jorge Mantilla, pesquisador de conflitos, descreveu a posição de Mordisco nas Farc como intermediária. “Ele era um comandante de nível médio. Nunca esteve entre os comandantes históricos, mas sua experiência militar e sua oposição inicial às negociações lhe conferiram significativa legitimidade”, afirmou Mantilla à AFP. Sua recusa em depor armas e sua determinação em manter viva a luta armada o transformaram em uma figura central para dissidentes.

‼️#URGENTE
El presidente de Colombia, Gustavo Petro, afirmó que disidencias de alias Iván Mordisco y la Segunda Marquetalia estarían traficando explosivos desde #Ecuador para afectar las elecciones. Además, señaló: “La junta del narcotráfico quiere que la extrema derecha gobierne… pic.twitter.com/aXxjLkJsAZ

— Ecuadorinmediato (@ecuainm_oficial) April 28, 2026

O rompimento com as negociações

Mordisco não compareceu às negociações de paz de 2016 realizadas em Havana e deixou claro desde o início que não deporia suas armas. Seu ex-comandante superior, Iván Márquez, enviou um líder conhecido como Gentil Duarte para convencê-lo a aderir ao processo de paz com o então presidente Juan Manuel Santos.

A estratégia fracassou. Duarte se juntou a Mordisco em vez de convencê-lo, e ambos abandonaram o pacto. Para Mordisco, o acordo representava uma “morte” e uma “desapropriação”. Ele acreditava que o tratado beneficiaria apenas a liderança das Farc enquanto deixaria os combatentes de base desprotegidos e vulneráveis. Sua resistência ideológica o posicionou como herdeiro legítimo do projeto revolucionário marxista original.

Como líder do Estado-Maior Central, Mordisco impediu que a sigla Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia desaparecesse completamente. Seus combatentes se consideram herdeiros diretos da luta histórica do grupo e veneram suas principais figuras políticas e militares. A dissidência ganhou força estrutural e recursos financeiros ao longo dos anos.

O reaparecimento público e o rompimento com Petro

Em abril de 2023, Mordisco fez sua única aparição pública conhecida em uma área de selva densa. Chegou a bordo de um SUV blindado de luxo para anunciar o início de negociações com Petro, que havia assumido a presidência meses antes com promessas de diálogo. Vestia seus característicos óculos escuros e portava um fuzil Tavor X95 de fabricação israelense, símbolo de seu poder militar.

As negociações duraram pouco. Em 2024, Mordisco rompeu definitivamente com o governo Petro. O presidente, em resposta, não poupou críticas e o chamou de “traqueto”, termo coloquial para narcotraficantes na Colômbia. “Quero Iván Mordisco capturado vivo, não morto”, declarou Petro, lançando uma caçada implacável com recompensas milionárias. O governo ofereceu cifras substanciais por informações que levassem à captura do guerrilheiro.

Petro o identifica como responsável pelo fortalecimento de grupos dissidentes através de negócios ilícitos, recrutamento forçado e aliciamento de jovens empobrecidos em plataformas como TikTok. As Forças Armadas estimam que a facção de Mordisco cresceu exponencialmente em armas, recursos e combatentes desde o colapso das negociações de paz.

Ataques, reputação e morte anunciada

Mordisco ganhou reputação como comandante implacável que ordena execuções por traição ou corrupção dentro de suas fileiras. Pesquisadores da violência colombiana o descrevem como brutal e determinado na imposição de disciplina. Em vídeos divulgados online, ele afirma estar “do lado dos pobres” e apresenta-se como defensor do meio ambiente, discurso que contrasta radicalmente com seus atos.

Os ataques coordenados deste fim de semana exemplificam sua capacidade operacional. Drones explosivos e carros-bomba tornaram-se a marca registrada de suas operações militares. Os 31 assaltos simultâneos no sudoeste colombiano durante o final de semana, cronometrados para coincidir com período próximo às eleições gerais de 31 de maio, visavam demonstrar força política e militar.

A morte de Mordisco foi anunciada em diversas ocasiões. Em 2022, o governo de direita de Iván Duque divulgou oficialmente seu falecimento. Semanas depois, o rebelde reapareceu em um vídeo que circulou entre seus comandados, desmentindo as afirmações governamentais. Esse padrão de morte anunciada e reaparecimento estratégico reforçou sua mística entre seguidores e demonstrou capacidade de evadir operações militares de larga escala.

O financiamento da guerra

O Estado-Maior Central de Mordisco financia suas operações por meio de múltiplas atividades criminosas. O tráfico de cocaína permanece como principal fonte de renda, aproveitando a localização estratégica de seus territórios em regiões produtoras. Mineração ilegal de ouro e outros minerais gera receitas significativas. Extorsão sistemática de comunidades rurais, comerciantes e pequenos produtores constitui mecanismo de controle territorial e arrecadação.

A combinação desses fluxos financeiros permite que Mordisco mantenha uma estrutura militar com aproximadamente 3.200 combatentes equipados e pagos regularmente. Diferentemente de grupos criminosos que priorizam lucro, Mordisco investe em armamento pesado, drones, explosivos sofisticados e infraestrutura de treinamento. Sua facção representa, portanto, um desafio militar substancial ao Estado colombiano, não apenas uma organização criminosa tradicional.

A ameaça eleitoral

Petro considera Mordisco a principal ameaça à segurança nacional de um país mergulhado em mais de seis décadas de conflito entre guerrilheiros, paramilitares, narcotraficantes e agentes do Estado. O timing dos ataques deste fim de semana, pouco antes das eleições gerais programadas para 31 de maio, não é coincidência. Mordisco busca influenciar a dinâmica política colombiana através de demonstrações de força e terror.

Seus ataques simultâneos, envolvendo explosivos de grande potência em rodovias, coordenação entre múltiplos destacamentos e uso de tecnologia (drones), revelam sofisticação operacional. O governo responde com operações militares, oferecimento de recompensas e diplomacia de rua. Petro prometeu intensificar esforços para sua captura, elevando a prioridade de segurança pública.

A questão permanece em aberto: conseguirá o Estado colombiano neutralizar Mordisco antes que ele consiga derrotar definitivamente os esforços de paz iniciados há décadas? Sua permanência na selva, como herdeiro ideológico das Farc e líder de uma facção armada crescente, representa fracasso parcial do acordo de 2016 e desafio contínuo à estabilidade regional.

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