Entenda o fenômeno Red Pill e como ele se espalha pelas redes sociais

Redação
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Entenda o fenômeno Red Pill e como ele se espalha pelas redes sociais

O ódio contra as mulheres tem ganhado uma nova roupagem nas redes sociais com o termo red pill. A terminologia passou a ser associada a comunidades on-line que estimulam hierarquias de gênero e ódio contra o grupo feminino.

A expressão tem origem no filme Matrix (1999), em que o protagonista recebe a opção de tomar uma pílula vermelha para enxergar a “verdade” do mundo.

Na internet, o conceito foi apropriado por comunidades masculinas, formando o que se conhece como machosfera ou manosfera. Esses grupos utilizam o termo como símbolo de um suposto despertar para o que consideram as verdadeiras dinâmicas de poder entre homens e mulheres.

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Redpill e a violência mulher

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Entenda o que é o grupo RedPill

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Pesquisa sugere que suplemento pode reduzir agressividade. Veja qual

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De acordo com a psicóloga de adolescentes e jovens adultos Maysa Nóbrega, em entrevista ao Metrópoles, o apoio a esse tipo de discurso costuma estar ligado à forma como muitos homens aprendem a lidar com as emoções.

Na infância, muitos são expostos a frases que associam vulnerabilidade ao feminino, como “vira homem” ou “para de ser mulherzinha”. Esse tipo de mensagem, segundo ela, ensina que algumas emoções, como tristeza e medo, são, na verdade, sinais de fraqueza.

“Quando eles não se encaixam nesse modelo de masculinidade idealizado, falta repertório emocional para lidar com essa experiência”, afirma Maysa.

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Nesse contexto, comunidades on-line ligadas à chamada manosfera acabam oferecendo um espaço de acolhimento e identificação. A entrada nesses grupos, segundo a psicóloga, costuma ocorrer de forma gradual. “No início, não aparece um discurso abertamente agressivo. Muitas vezes começa com memes, ironias ou piadas que parecem inofensivas, mas que normalizam ideias discriminatórias”, diz a psicóloga.

Esses grupos passam a desenvolver uma linguagem própria, com classificações que reforçam o sentimento de pertencimento entre os integrantes. A psicóloga afirma que “eles utilizam estatísticas e referências que parecem científicas, mas que na verdade são distorções de estudos ou interpretações fora do contexto, criando uma aparência de autoridade para sustentar aquilo que já acreditam”.

Para a especialista, romper com esses espaços pode ser um processo difícil, quase como perder uma parte da própria identidade. Ao sair, a pessoa não só perde a validação constante de suas opiniões, mas também precisa enfrentar sentimentos complexos.

Câmara de Eco

Outro elemento que fortalece esse ambiente é o fenômeno conhecido como câmara de eco, comum nas redes sociais. O termo representa um ambiente no qual informações e opiniões são repetidas, ou seja, um espaço em que o usuário só consome o conteúdo que confirma suas próprias visões, criando a falsa sensação de que a maioria pensa daquela forma.

“Nesses espaços, as pessoas estão sempre expostas a opiniões muito parecidas com as delas. Mesmo que alguém inicialmente não concorde com tudo, acaba encontrando pontos de identificação e vai ficando. Com o tempo, parece que aquilo é uma verdade absoluta, porque todo mundo ali pensa da mesma forma”, explica Maysa.

Além disso, é justamente nas redes sociais em que são disseminadas mensagens que incentivam comportamentos agressivos. “Assim, as mulheres passam a ser descritas como manipuladoras ou interesseiras, e deixam de ser vistas como indivíduos. Quando essas ideias são repetidas e validadas, comportamentos como controle, ciúme excessivo e violência psicológica passam a ser interpretados como uma forma de restaurar a ordem.”, destaca a psicóloga.

O conteúdo, publicado nas redes sociais, muitas vezes, são vídeos curtos, com linguagem direta e histórias de vida pessoal. De acordo com a especialista, essa é uma forma de criar proximidade com o público e também de apresentar essas ideias como verdades.

“Mais tarde, ao se tornarem pais ou mentores, esses jovens tendem a reproduzir essas ideias sobre gênero e relacionamento, perpetuando o machismo nas gerações seguintes”, explica Maysa.

Sinais de alerta

A exposição dos jovens a conteúdos misóginos apresenta alguns sinais de alerta que devem ser observados pelos pais ou responsáveis. A especialista cita alguns comportamentos que merecem atenção e lembra que a intervenção é fundamental para que se tornem cada vez mais distantes essas narrativas que reforçam a misoginia.

Veja:

  • Mudanças no discurso sobre mulheres;
  • Generalizações negativas, falas de desprezo ou a ideia de que homens seriam “perseguidos” ou prejudicados nas relações;
  • Consumo intenso de conteúdos on-line com esse tipo de narrativa;
  • Maior hostilidade ou distanciamento de colegas meninas.
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