Ganhou visibilidade, nas últimas semanas, a existência de grupos que incitam a violência e o ódio contra mulheres, os chamados “Red Pill”. A pauta voltou ao centro das discussões no ano em que o Brasil bateu o recorde dos últimos seis anos, com 1.470 casos de feminicídio.
O tema acendeu um alerta sobre os riscos da exposição não só de mulheres, mas também de jovens do sexo masculino, que, com a disseminação do conteúdo, podem repassar para as próximas gerações uma mensagem distorcida de que homens são superiores às mulheres.
A psicóloga clínica e social infantojuvenil Flávia Borges explica que um dos principais riscos da exposição dos jovens a esses conteúdos é a imposição de uma “masculinidade estoica”, que pode levar à repressão de emoções e gerar danos psicológicos.
“Quando homens aprendem que demonstrar tristeza, medo ou vulnerabilidade é sinal de fraqueza, esses sentimentos deixam de ser elaborados e acabam aparecendo de outras formas, como irritabilidade, isolamento ou comportamentos agressivos”, explica.
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Flávia destaca que homens que cresceram consumindo a retórica Red Pill podem desenvolver desconfiança em relação às mulheres e dificuldade em reconhecer relações baseadas em igualdade. Segundo a especialista, em ambientes sociais e profissionais, isso gera conflitos, resistências a lideranças femininas e dificuldades de convivência.
“O problema desses conteúdos é que eles transformam relações de gênero em uma disputa permanente, e isso empobrece as possibilidades de convivência”, reforça.
Sinais de alerta
A exposição dos jovens a conteúdos misóginos apresenta alguns sinais de alerta que devem ser observados pelos pais ou responsáveis. A especialista cita alguns comportamentos que merecem atenção e reforça que a intervenção é fundamental para que se tornem cada vez mais distantes essas narrativas que reforçam a misoginia.
Exemplos de alerta:
- Mudanças no discurso sobre mulheres;
- Generalizações negativas, falas de desprezo ou a ideia de que homens seriam “perseguidos” ou prejudicados nas relações;
- Consumo intenso de conteúdos on-line com esse tipo de narrativa;
- Maior hostilidade ou distanciamento de colegas meninas.
“É importante que pais conversem sobre o que os filhos estão consumindo, incentivem pensamento crítico e apresentem outras referências de masculinidade baseadas em respeito, empatia e responsabilidade nas relações”, explica.
Borges também relaciona o acompanhamento psicológico como uma forma de ajudar a não perpetuar a repressão de emoções e discursos de ódio. “O enfrentamento desse tipo de discurso passa menos pela censura e mais pela construção de referências de masculinidade que incluam diálogo, cuidado e responsabilidade nas relações”, finaliza.

