O vereador Salvino Oliveira (PSD-RJ) foi preso, nesta quarta-feira, durante uma operação da Polícia Civil, suspeito de ter negociado diretamente com o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos chefes do Comando Vermelho (CV) no Rio, uma autorização para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul, área sob domínio da facção criminosa. Cinco policias militares suspeitos também já estão presos.
— Entrei na política para mudar a vida das pessoas. Eu estou sendo vítima de uma briga política que não é minha — afirmou Oliveira ao Bom Dia Rio, da TV Globo, ao chegar à Cidade da Polícia.
De acordo com a polícia, o parlamentar teria articulado benefícios ao grupo criminoso, apresentados publicamente como ações voltadas à população local. Um dos exemplos investigados, afirma polícia, envolve a instalação recente de quiosques na região. A apuração indica que parte dos beneficiários teria sido determinada diretamente por integrantes da facção, sem processo público transparente.
Ainda durante o Bom dia Rio, questionado sobre uma possível ligação com Edgar Alves de Andrade, Salvino afirmou que “absolutamente não”. O vereador também negou ter qualquer responsabilidade na instalação recente de quiosques na região da Gardênia Azul. Ao ser perguntado sobre uma eventual relação com Landerson Nepomuceno, sobrinho de Márcio dos Santos Nepomuceno, respondeu: “Não sei quem é esse”.
Segundo a Polícia Civil, a suposta ligação de Salvino com Doca foi identificada na investigação sobre tentativas de interferência política em áreas dominadas pelo tráfico, com o objetivo de transformar esses territórios em bases eleitorais.
A prisão foi no âmbito da Operação Contenção Red Legacy, realizada por policiais civis da Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (Dcoc-LD). A ação visa a desarticular a estrutura nacional do Comando Vermelho, identificada pela investigação como uma organização criminosa com características de cartel e atuação interestadual altamente estruturada. As investigações reuniram um conjunto de provas que revelam o funcionamento interno da facção, demonstrando a existência de uma cadeia de comando organizada, divisão territorial e articulação entre integrantes em diferentes estados do país.
Em nota, o gabinete de Salvino Oliveira afirmou que até o momento “não recebeu qualquer informação oficial sobre o ocorrido. A assessoria jurídica já foi acionada e aguardamos esclarecimentos das autoridades competentes para compreender os fatos”.
Criminosos se passavam por PMs
Durante as investigações, ainda conforme a Dcoc-LD também foram identificados casos de criminosos que se passavam por policiais militares para obter vantagens, incluindo vazamento de informações e simulação de operações. Para a Polícia Civil, “tais condutas representam traição à instituição e não refletem a atuação da grande maioria dos profissionais da segurança pública, que desempenham seu trabalho com dedicação e compromisso com a sociedade”.
VP é apontado como chefe de conselho federal
A Dcoc-LD afirma que o material coletado na investigação aponta ainda para uma estrutura criminosa de grande complexidade, com conselho nacional, conselhos regionais e articulação entre organizações criminosas de diferentes estados. Há indícios, inclusive, de cooperação entre o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Mesmo após quase três décadas no sistema prisional, as investigações indicam que Marcinho VP continua exercendo papel central na estrutura de comando da facção, apontado como chefe do chamado conselho federal permanente do grupo.
A apuração também identificou outros integrantes com funções estratégicas na organização, entre eles o traficante Doca, apontado como principal liderança nas ruas; Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, responsável pela gestão financeira do grupo; e Carlos da Costa Neves, o Gardenal, encarregado de operacionalizar determinações da liderança.
De acordo com a Polícia Civil, a Operação Contenção Red Legacy “representa um avanço significativo no enfrentamento ao crime organizado, ao expor, com base em provas técnicas e investigação aprofundada, o funcionamento estrutural de uma das maiores organizações criminosas do país”. As investigações continuam para aprofundar a responsabilização penal de todos os envolvidos e ampliar o combate às estruturas financeiras, operacionais e institucionais utilizadas pela organização criminosa.
A operação desta quarta contam com o apoio de agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e de policiais de delegacias especializadas e da capital.
Saiba quem é Salvino, vereador pelo PSD
Salvino Oliveira nasceu e foi criado na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio. Ainda criança, aos 7 anos, ingressou por sorteio no tradicional Colégio Pedro II, onde estudou durante parte da formação básica. Segundo ele, para se manter na escola e ajudar nas despesas, trabalhou em diferentes atividades informais ao longo da juventude. Entre os trabalhos relatados por ele estão a venda de água em sinais de trânsito e de balas em ônibus, além de funções como recepcionista em casa de festas.
Anos depois, ingressou no ensino superior e se formou em Gestão Pública pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2023.
Já em 2020, Salvino se aproximou do prefeito Eduardo Paes durante o período de campanha eleitoral. Em 2021, no início do terceiro mandato do prefeito Eduardo Paes, foi convidado a assumir a recém-criada Secretaria Especial da Juventude Carioca, tornando-se o primeiro titular da pasta.
À frente do órgão, implantou programas voltados à formação profissional e à inclusão social de jovens de comunidades. Entre as iniciativas está o Pacto pela Juventude, desenvolvido em parceria com a Unesco, que oferece formação e auxílio financeiro temporário para jovens lideranças comunitárias desenvolverem soluções para problemas locais.
Em 2024, Salvino disputou pela primeira vez uma eleição e foi eleito vereador do Rio pelo Partido Social Democrático (PSD), com mais de 27 mil votos. O resultado marcou sua entrada na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
Agredido durante operação na Cidade de Deus
Salvino já havia se envolvido em um episódio de tensão pública durante o período pré-eleitoral de 2024. Em julho daquele ano, ele foi agredido durante uma confusão na Cidade de Deus, na Zona Oeste, durante uma operação de demolição de construções irregulares realizada pela prefeitura. Na ocasião, vídeos que circularam nas redes sociais mostraram o então pré-candidato cercado por manifestantes e atingido por tapas, socos e empurrões. Garrafas e ovos também foram arremessados, e ele chegou a ser atingido por spray de pimenta após a intervenção de policiais.
Na ocasião, ele afirmou que havia ido ao local após receber mensagens de moradores sobre a operação e disse que tentava mediar o diálogo entre comerciantes e o poder público quando a situação saiu do controle.

