Real brasileiro cai 2,3% após apoio de Bolsonaro a Flávio nas eleições de 2026

Redação
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Real brasileiro cai 2,3% após apoio de Bolsonaro a Flávio nas eleições de 2026

Os ativos financeiros brasileiros registraram perdas acentuadas nesta sexta-feira, 5 de dezembro de 2025, em São Paulo, logo após a divulgação de que o ex-presidente Jair Bolsonaro indicou seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, como candidato à Presidência nas eleições de outubro de 2026. A moeda nacional desvalorizou 2,3% em relação ao dólar, marcando a maior queda diária desde outubro, enquanto o índice Ibovespa da B3 recuou até 4%, fechando abaixo dos 158 mil pontos. Investidores interpretaram a notícia como um sinal de polarização política, que reduz as chances de uma oposição competitiva contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atual mandatário que busca reeleição.

A revelação veio de interlocutores próximos a Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos por conspiração em golpe de Estado desde o final de novembro, na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Flávio, senador pelo PL-RJ, confirmou o apoio em postagem nas redes sociais por volta das 13h (horário de Brasília), assumindo a missão de continuar o projeto familiar. O movimento frustrou expectativas de que Bolsonaro endossaria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, visto como opção mais moderada e viável para atrair o centro político.

Essa desvalorização ocorre em meio a uma recuperação geral dos mercados emergentes ao longo de 2025, impulsionada por fluxos de capital estrangeiro. No entanto, a percepção de risco fiscal e político elevou os contratos de swap de taxas de câmbio em mais de 30 pontos-base, sinalizando preocupações com a sustentabilidade das contas públicas sob um cenário de divisão na direita.

  • Principais impactos observados:
    • Real: cotação atingiu R$ 5,72 por dólar, pior patamar intradiário.
    • Ibovespa: perda de 6 mil pontos em 15 minutos após a notícia.
    • Dólar futuro: alta de 2,5% em contratos para 2026.

Reações imediatas dos investidores

Analistas em São Paulo destacaram a surpresa com a escolha de Flávio, que mantém laços com partidos de centro, mas carrega bagagem polarizadora da família Bolsonaro. Milena Landgraf, sócia da Jubarte Capital, observou que o mercado precificava otimismo com Tarcísio, cujo perfil técnico favorecia expectativas de reformas econômicas. A transição para Flávio altera esse cálculo, com projeções de maior volatilidade nos próximos pregões.

O Tesouro Direto suspendeu negociações temporariamente devido à instabilidade, medida adotada para proteger investidores de varejo. Operadores relataram volume de vendas acelerado em ações de bancos e exportadoras, setores sensíveis a flutuações cambiais. Essa reação reflete o apetite por ativos de risco em declínio, com fundos internacionais reduzindo exposições ao Brasil.

Ibovespa
Ibovespa – Foto: Edson Souza/iStock

Contexto da escolha familiar

Bolsonaro, impedido de concorrer por condenações no STF e TSE, comunicou a decisão durante visitas à prisão, priorizando a unidade do PL. Aliados como o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, ratificaram o apoio, prevendo agendas nacionais para Flávio unificar governadores bolsonaristas. Essa estratégia ignora apelos do centrão, que pressionava por Tarcísio como ponte para o União Brasil e PP.

A família Bolsonaro já testou opções semelhantes: o deputado Eduardo vive nos Estados Unidos, focado em lobby internacional, enquanto a ex-primeira-dama Michelle explora conexões evangélicas. Flávio, no entanto, surge como herdeiro direto, com histórico no Senado desde 2019. Críticos apontam que a indicação mantém o controle familiar sobre a base eleitoral, mas dilui chances em estados chave como São Paulo.

Olga Yangol, chefe de pesquisa do Credit Agricole, classificou o anúncio como “sequestro da direita” por Bolsonaro, prevendo negociações nos bastidores para mitigar danos. Partidos aliados monitoram o impacto, com possibilidade de coalizões alternativas emergirem nas próximas semanas.

Percepção de risco eleitoral

Pesquisas recentes, como a LatAm Pulse de novembro de 2025, mostram Flávio com imagem negativa de 56% entre brasileiros, contra 34% positiva, contrastando com Tarcísio, equilibrado em 46% positivo e 45% negativo. Lula lidera intenções de voto em todos os cenários, mas Freitas encostava em 47% contra 49% do petista em segundo turno. A ausência de Flávio nessas simulações reforça dúvidas sobre sua viabilidade.

Economistas como Dan Pan, do Standard Chartered, notam que a divisão opositora beneficia Lula, esfriando o entusiasmo do mercado com perspectivas de continuidade fiscal. Sérgio Vale, da MB Associados, enfatiza que Flávio carece de visão reformista comparável a governadores, o que afeta apostas em privatizações e ajuste orçamentário. O risco político, já elevado pela prisão de Bolsonaro, agora pressiona ativos emergentes.

Movimentações no cenário opositor

Tarcísio de Freitas, informado da decisão, deve focar na reeleição em São Paulo, evitando confronto direto. O governador evitou declarações públicas até o fim do pregão, mas fontes indicam que sua campanha priorizará infraestrutura local. No PL, Flávio assume protagonismo, com planos de viagens a capitais do Nordeste e Sul para consolidar apoios.

O centrão acelera movimentos para lançar nomes moderados, como Romeu Zema (Novo-MG), visando atrair indecisos. Essa fragmentação pode elevar custos de campanha e diluir recursos da direita, segundo operadores da Faria Lima. Gustavo Cruz, da RB Investimentos, alerta que a falta de maioria congressional clara compromete avanços fiscais, independentemente do vencedor.

  • Fatores agravantes da fragmentação:
    • Perda de unidade no PL e aliados.
    • Aumento de 20% em buscas por “eleições 2026” após o anúncio.
    • Projeção de Selic em 12% até fim de 2026, per analistas.

Implicações para a economia em 2026

A desvalorização do real impacta importadores e eleva custos de combustíveis, com reflexos na inflação projetada em 4,5% para o ano que vem. Bancos como Itaú BBA revisam projeções, prevendo influxo menor de investimentos estrangeiros. A B3 registra alta em derivativos de proteção, sinal de hedge contra volatilidade prolongada.

Flávio planeja discursos focados em segurança e família, temas testados em 2022, mas analistas questionam apelo além da base bolsonarista. A Bloomberg registra que moedas emergentes como o peso mexicano resistiram melhor, destacando vulnerabilidade brasileira ao risco doméstico. O episódio reforça a sensibilidade do mercado a eventos políticos, com monitoramento contínuo de negociações partidárias.

O governo Lula, por sua vez, aprova a LDO de 2026 no Congresso, garantindo execução de emendas impositivas até julho. Essa medida estabiliza gastos, contrastando com incertezas opositoras. Investidores aguardam sinais de moderação no PL para recuperação parcial na segunda-feira.

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