O presidente russo Vladimir Putin concluiu nesta sexta-feira (5) sua visita de dois dias à Índia, onde se reuniu com o primeiro-ministro Narendra Modi em Nova Délhi. O encontro, o primeiro desde o início da guerra na Ucrânia em 2022, destacou a busca por maior cooperação econômica em meio a pressões ocidentais. Líderes assinaram acordos em áreas como energia, comércio e defesa, visando superar desafios globais.
A recepção incluiu honras militares no Rashtrapati Bhavan e um jantar privado na residência de Modi, sinalizando a proximidade entre os governos. Putin chegou na quinta-feira (4), recebido pessoalmente por Modi no aeroporto, rompendo protocolos habituais. O objetivo principal foi fortalecer a parceria estratégica, com ênfase em diversificação de mercados.
As discussões ocorreram no 23º Cume Anual Índia-Rússia, abordando temas como sanções dos EUA e tarifas impostas por Donald Trump. A Índia, maior compradora de petróleo russo, enfrenta acusações de financiar o conflito em Kiev. Ambos os lados reafirmaram compromissos com a estabilidade energética e o crescimento bilateral.
- Acordos assinados incluem programa de cooperação econômica até 2030.
- Foco em minerais críticos e cadeias de suprimentos para indústrias chave.
- Parceria em farmacêuticos, com fábrica conjunta na região de Kaluga, na Rússia.
Recepção calorosa reforça aliança histórica
A chegada de Putin a Nova Délhi foi marcada por gestos simbólicos que destacam a relação de décadas entre os países. Modi o recebeu com um abraço no aeroporto, gesto reservado a aliados próximos, e os dois líderes compartilharam um jantar informal na quinta-feira. Esse encontro privado permitiu discussões sobre questões sensíveis, como a situação internacional e laços bilaterais.
O presidente indiano Droupadi Murmu ofereceu um banquete no Rashtrapati Bhavan, com cardápio vegetariano que celebrou a culinária regional indiana. Putin depositou flores no memorial de Mahatma Gandhi em Raj Ghat, reforçando o tom de respeito mútuo. Analistas veem esses atos como resposta à isolamento diplomático russo pós-2022.
A mídia russa elogiou o protocolo, descrevendo o palácio presidencial com 340 salas como palco ideal para a visita. Para a Índia, o evento projeta autonomia em meio a tensões com o Ocidente, especialmente após a reeleição de Trump.
Acordos comerciais impulsionam meta ambiciosa
O comércio bilateral saltou de US$ 8,1 bilhões em 2020 para US$ 68,72 bilhões em março de 2025, impulsionado por compras indianas de petróleo russo descontado. Líderes definiram alvo de US$ 100 bilhões até 2030, com ênfase em diversificação além de energia. Putin destacou a prontidão russa para envios ininterruptos de óleo, gás e carvão, atendendo à demanda indiana por segurança energética.
Modi pressionou por maior acesso a mercados russos para produtos indianos, como farmacêuticos e máquinas. Acordos incluem facilitação de vistos para até 1 milhão de trabalhadores indianos qualificados na Rússia e investimentos em novas rotas marítimas. A Índia busca equilibrar tarifas americanas de 50% sobre suas exportações, usando a parceria com Moscou como contrapeso.
Negociações avançaram para um acordo de livre comércio com a União Econômica Eurasiana (EAEU), que abrange Rússia, Armênia, Belarus, Cazaquistão e Quirguistão. Essa estrutura facilitará trocas em múltiplos setores, reduzindo dependência de rotas tradicionais.
O fórum empresarial Índia-Rússia reuniu delegações para discutir “Make in India”, com Putin elogiando iniciativas de Modi para soberania tecnológica. Resultados incluem joint ventures em agricultura, saúde e construção naval.
Energia no centro das negociações sensíveis
Putin prometeu suprimentos estáveis de combustível, apesar de sanções ocidentais que reduziram importações indianas a mínimas de três anos em dezembro. A Índia, que absorve 40% do petróleo russo exportado por mar, vê na parceria uma âncora contra volatilidade de preços. Modi enfatizou diversificação de fontes, incluindo gás natural liquefeito (GNL) e rotas via Irã e Turquia.
Discussões tocaram em reatores nucleares modulares pequenos, com cooperação em projetos como Kudankulam 7-12. A Rússia se comprometeu a apoiar a expansão da capacidade nuclear indiana, alinhada à meta de 22.480 MW até 2031. Minerais críticos, essenciais para baterias e eletrônicos, entraram em acordos de suprimentos conjuntos.
A pressão de Washington, com acusações de financiamento à guerra russa, foi indiretamente abordada. Líderes concordaram em proteger pagamentos via mecanismo rublo-rúpia, isolando trocas de sanções em dólar.
Para a Índia, manter fluxos baratos de energia controlou a inflação interna, beneficiando 1,4 bilhão de cidadãos. Putin, por sua vez, ganha mercado estável em meio a perdas europeias.
Defesa sem grandes anúncios, mas com compromissos firmes
Nenhum contrato blockbuster em defesa foi revelado, mas líderes acordaram remodelar laços para priorizar autossuficiência indiana. Isso inclui pesquisa conjunta e produção de plataformas avançadas, como mísseis BrahMos e sistemas S-400. Entregas pendentes do S-400, atrasadas para 2026 devido ao conflito ucraniano, receberam garantias de prazos.
Especulações sobre caças Su-57 de quinta geração persistem, mas sem confirmação. A Índia busca preencher lacunas na força aérea, especialmente após aquisições paquistanesas de jatos chineses J-35. A renovação de um pacto logístico militar de 10 anos assegura peças sobressalentes russas, cruciais para 60% do arsenal indiano.
Modi reiterou a necessidade de entregas pontuais, enquanto Putin destacou a Rússia como pilar histórico da defesa indiana. Cooperação em treinamento de marinheiros para águas polares e construção naval foi estendida.
Parcerias em novos setores abrem horizontes
Acordos em saúde incluem fábrica farmacêutica em Kaluga, produzindo genéricos para mercados mútuos. Na educação, a Universidade de Délhi firmou parceria com a Universidade Superior de Economia de Moscou para um laboratório de espelhos espaciais. Isso impulsiona pesquisas em óptica e astronomia.
Turismo ganhou com e-visa gratuita de 30 dias para russos, e mobilidade laboral facilita migração de profissionais indianos. Na agricultura, joint ventures visam fertilizantes, com planta russa para exportação à Índia.
Líderes condenaram terrorismo, referenciando ataques em Pahalgam (Índia, abril de 2025) e Crocus City Hall (Rússia, março de 2024). Compromisso com combate a financiamento terrorista fortalece laços de segurança.
Modi presenteou Putin com tradução russa da Bhagavad Gita e chá preto de Assam, gestos culturais que complementam os econômicos.
Compromissos globais e regionais em foco
As conversas abordaram Ucrânia, com Modi reafirmando posição indiana pela paz. Putin rejeitou plano americano recente, citando avanços russos no front. A Índia navega equilíbrio entre Moscou e Washington, negociando acordo comercial com EUA apesar de tarifas.
Contra China, ambos veem oportunidades em rotas árticas e eurasianas. A EAEU-Índia acelera, contrapondo influência chinesa na Ásia. No Sul Global, a parceria reforça liderança indiana no BRICS, com expansão recente.
Putin elogiou o crescimento indiano, atribuindo-o a políticas de Modi. A visita, em meio a isolamento russo, projeta Moscou como ator global via Délhi.
A delegação russa incluiu empresários que assinaram 28 memorandos, de navegação a energia nuclear civil.

