A empresária Maria Machadão completou 69 anos cercada por amigos em uma festa que já virou tradição em Goiânia. A comemoração, no entanto, também serviu de ponto de partida para uma conversa sobre as mudanças na noite da capital. Em entrevista exclusiva ao Mais Goiás, ela afirma que a crise econômica afetou o setor em que construiu sua história e lembra de uma época em que sua casa ficava lotada.
A declaração chama atenção justamente pela experiência de quem atravessou décadas acompanhando o comportamento do público goianiense. Maria viu mudanças de moeda, períodos de inflação elevada, expansão do crédito, crescimento da cidade e transformações na forma de se relacionar. Agora, observa um consumidor que precisa escolher mais onde gastar.
Do aniversário lotado ao movimento da noite
O contraste aparece no próprio aniversário. A comemoração de Maria reúne convidados e mantém uma tradição iniciada em 1997, segundo contou a empresária ao Mais Goiás. Em outra reportagem desta série, o portal mostrou como Leandro e Leonardo ajudaram a transformar o aniversário de Maria Machadão em tradição em Goiânia.
A festa, porém, é uma ocasião especial e não representa o movimento cotidiano do estabelecimento. Ao falar sobre a participação dos filhos no negócio, Maria recorda que houve uma época em que precisava colocá-los para trabalhar no caixa diante da quantidade de clientes. “Há uns anos atrás, a minha casa lotava, superlotava. Então, assim, eu botava eles como caixa”, afirma.
A história da empresária com o sertanejo também atravessa essas décadas. O Mais Goiás revelou ainda o episódio em que Leonardo ficou retido na portaria de Maria Machadão por causa de um Martini, ocorrido antes de o cantor alcançar projeção nacional.
Os números mostram uma situação mais complexa do que simplesmente perda de renda. O rendimento domiciliar per capita de Goiás passou de R$ 2.098 em 2024 para R$ 2.407 em 2025 — aumento nominal de 14,7%. O valor goiano também ficou acima da média brasileira, de R$ 2.316.
Ao mesmo tempo, o custo de vida continuou avançando. O IPCA acumulou 4,64% nos 12 meses encerrados em junho de 2026 e 3,36% somente no primeiro semestre. O indicador mede a variação do custo de vida de famílias com rendimento entre um e 40 salários mínimos. Confira os dados de renda do IBGE.
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Para o economista Marcelo Marques, o ponto central está no quanto sobra depois das despesas obrigatórias.“Quando aumenta a parcela da renda comprometida com despesas essenciais, o consumidor não necessariamente deixa de sair, mas passa a selecionar mais. Reduz a frequência, procura opções mais baratas ou estabelece um limite para gastar. O lazer concorre diretamente com todas as outras despesas do orçamento familiar”, explica.

O dinheiro, contudo, não explica sozinho a transformação percebida por Maria. O consumidor passou a ter outras formas de entretenimento, enquanto aplicativos, streaming, delivery e novas maneiras de socialização passaram a disputar renda e tempo.
“O consumidor de hoje possui muito mais alternativas disputando sua renda e seu tempo. Portanto, não se pode atribuir uma eventual redução de movimento exclusivamente à inflação. Existe uma combinação entre orçamento mais seletivo, novas formas de entretenimento e mudança de comportamento”, afirma Marcelo Marques.
Os próprios indicadores exigem cautela ao falar em crise generalizada. O fato de Maria perceber menos movimento em seu estabelecimento não significa automaticamente que toda a noite de Goiânia esteja encolhendo. Trata-se da percepção de uma empresária que acompanha o segmento há décadas.
“A percepção de um empresário é um indicador qualitativo importante, principalmente quando existe uma longa série de experiência naquele mercado. Mas ela precisa ser separada de um indicador estatístico. Para afirmar que existe retração do setor, seria necessário analisar faturamento, volume de clientes e desempenho de um conjunto de empresas ao longo do tempo”, pondera o economista.
Aos 69 anos, Maria não fala em aposentadoria
Se o aniversário convida a olhar para o passado, Maria também fala sobre o futuro. Aos 69 anos, a empresária não estabelece uma data para deixar a atividade e diz que pretende continuar enquanto tiver condições físicas.“Quando eu estiver respirando, eu vou estar trabalhando, vou dar continuidade, porque eu gosto”, afirma em entrevista ao Mais Goiás.
Maria conta que um dos quatro filhos conhece o funcionamento da empresa e ajuda no negócio, mas admite que não preparou formalmente um sucessor. Os filhos, aliás, fazem parte da memória dos tempos de maior movimento: eram eles que, segundo a empresária, ajudavam no caixa quando a casa lotava.
Neste ano, a festa de aniversário voltou a reunir pessoas em torno de uma personagem que se confunde com parte da história da noite de Goiânia. Mas, entre as lembranças e a comemoração, Maria também deixa um retrato econômico de quem observa o consumidor há décadas: a cidade continua saindo para se divertir, mas o dinheiro e a forma de gastá-lo mudaram.

