Portugal superou o volume de apreensões de cocaína registradas em 2025, indicando um papel central do país na rota da droga para o mercado europeu em 2026. Este cenário levanta sérias preocupações sobre a segurança no território.
Uma extensa operação policial, que envolveu um helicóptero e a descida de agentes por rapel em um cargueiro, foi deflagrada recentemente a mais de mil quilômetros da costa portuguesa. A ação revelou uma complexa rede de tráfico internacional.
A Polícia Judiciária coordenou a investida, que recebeu apoio da Marinha, Força Aérea e parceiros da Espanha. O objetivo era interceptar cinco toneladas de cocaína transportadas por uma embarcação que havia saído de Colón, no Panamá, com destino final em Tânger, Marrocos.
A intervenção das forças de segurança em Portugal não estava nos planos da organização criminosa responsável pelo carregamento. Com a recente apreensão, o total de cocaína interceptada no país em 2026 atingiu a marca de 28 toneladas, superando as 25 toneladas recolhidas durante todo o ano de 2025.
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Este crescimento evidencia que Portugal se transformou em um ponto estratégico para a entrada de cocaína na Europa. A droga, originária da América do Sul, frequentemente utiliza portos como Matosinhos e Sines como acessos cruciais ao continente.
Gil Carvalho, ex-inspetor da Polícia Judiciária, observou que a interceptação de grandes volumes de entorpecentes tem se tornado uma ocorrência comum. Ele relembrou incidentes anteriores, como a descoberta de um submarino com nove toneladas de cocaína nas proximidades dos Açores no início de 2026.
Essa não foi a primeira vez que as autoridades registraram uma apreensão desse tipo. Em março de 2025, a Polícia Judiciária e a Marinha já haviam interceptado outro submarino, transportando sete toneladas de cocaína, também na região dos Açores.

O ex-inspetor Gil Carvalho destacou que as quantidades apreendidas podem ser relativas, já que muitas quadrilhas descartam a droga em alto-mar ao se sentirem sob perseguição. Ele acrescentou que a magnitude da apreensão recente indica um planejamento detalhado e uma vasta capacidade financeira e logística por parte da rede.
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Sylvie Figueiredo, especialista em Segurança Estratégica e Ameaças Transnacionais, avaliou que o crescimento das apreensões reforça a posição da Europa como um mercado primordial para a cocaína. Ela descreveu Portugal como uma “plataforma logística de entrada” da droga no continente.
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A especialista também ressaltou que, embora não seja a principal, Portugal atua como um acesso genuíno para a cocaína que abastece o mercado europeu.
Gil Carvalho defende que o aumento das apreensões reflete uma maior eficácia das autoridades, que desenvolveram um entendimento aprimorado sobre a atuação das organizações criminosas. Ele pontuou que, apesar do “alto perigo” e “alto risco” envolvidos, as operações têm gerado resultados positivos devido ao empenho das Forças Armadas e outros órgãos.
Ao ser questionada sobre o impacto dessa série de incidentes, Sylvie Figueiredo levantou a possibilidade de Portugal não ser mais apenas uma rota logística, mas também um território de implantação para as operações dessas organizações criminosas.
Segundo ela, o país já se aproxima desse estágio, com a movimentação de etapas da produção de cocaína para Portugal e outras nações europeias, caracterizando uma “trasladação de parte do processo” de fabricação.
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As autoridades confirmaram essa tendência ao localizar aproximadamente doze laboratórios dedicados à finalização da droga, indicando que a cocaína chega em estado bruto para ser processada em pó dentro do território português, um fenômeno observado em diversos países da União Europeia.
Sylvie Figueiredo alertou que “a ameaça é muito séria” e precisa de atenção constante. Ela reiterou que, apesar do bom desempenho das autoridades, a demanda do mercado consumidor impede que o fluxo de entorpecentes seja significativamente afetado, descrevendo a situação como “uma guerra que escalou para outras dimensões”.
Gil Carvalho concordou com a competência das forças de segurança, mas salientou que grandes apreensões como essa também sugerem que “muitas outras já passaram” sem serem descobertas.
O próximo passo das autoridades envolve conectar a droga confiscada a uma rede criminosa específica, o que possibilitará uma compreensão mais aprofundada da extensão das operações desses grupos em Portugal.
Sobre essas investigações, Sylvie Figueiredo reconheceu a existência de um “ecossistema criminal” complexo, composto por “vários tipos de atores” interligados.
Ela afirmou que a produção está cada vez mais diversificada, sem a predominância dos grandes cartéis, e que há uma proliferação de agentes tanto na oferta quanto na distribuição na Europa. Figueiredo adicionou que a capacidade de introduzir o produto por “via lícita” é considerável.
A especialista concluiu que a companhia proprietária do navio porta-contêineres provavelmente não tinha conhecimento da carga ilícita. Isso ocorre porque “especialistas criminais” são capazes de infiltrar e operar em diferentes fases do processo logístico.


