Uma controversa ordem executiva emitida em 5 de fevereiro de 2026 pelo então presidente Donald Trump, que buscava renomear o Lago Ontário para “Lago América”, provocou discussões acaloradas sobre os limites do poder presidencial e a interpretação de leis federais. Embora a justificativa de Trump se baseasse na porção majoritária do volume do lago estar em território estadunidense, mais da metade de sua superfície, aproximadamente 55%, fica no Canadá.
Decisão de Trump sobre o Lago Ontário gerou debate sobre autoridades
— Fox News (@FoxNews) September 2, 2026NEW: “That very important change of names… is complete, ratified, and binding.”
President Trump praises Google Maps and Apple Maps for both renaming Lake Ontario to Lake America, similar to how both did so with the change from Gulf of Mexico to Gulf of America. pic.twitter.com/p96RVTdz6k
O então presidente fundamentou sua decisão em uma lei federal que, em termos gerais, confere ao Secretário do Interior, em conjunto com o Conselho de Nomes Geográficos, a autoridade para assegurar a uniformidade na nomenclatura e ortografia geográfica em todo o governo federal. Ele argumentou que, como as partes mais profundas do lago e a maior parte de seu volume estão nos Estados Unidos, ele possuía o direito de modificar unilateralmente o nome histórico do corpo d’água.
Mais sobre o assunto: Supremo Tribunal mantém cidadania por nascimento e anula veto de Trump à regra constitucional
Leia mais
Requisitos legais e precedentes ignorados em novas políticas
O professor de direito da Universidade Cornell, Michael Dorf, apontou que a lei citada por Trump exige mais do que uma simples obediência às ordens presidenciais. Segundo Dorf, o Secretário do Interior, Doug Burgum, e o Conselho de Nomes Geográficos deveriam realizar uma investigação para determinar se a mudança de nome atende aos interesses do governo federal e do público em geral. A falta dessa análise tornaria as ações de Burgum ilegais. No entanto, Trump e Burgum já haviam desconsiderado esses critérios ao renomear o Golfo do México para “Golfo da América”.
Como as decisões da Suprema Corte ampliaram o poder presidencial
A Suprema Corte dos Estados Unidos desempenhou um papel significativo na ampliação dos poderes do presidente. Em um precedente, o tribunal anulou uma decisão que permitia ao Congresso estabelecer a independência das agências em relação aos presidentes, exigindo que certos funcionários fossem demitidos apenas “por justa causa”. Dessa forma, a corte conferiu aos presidentes poder irrestrito sobre os chefes das agências, na prática, controlando suas ações sob pena de demissão por insubordinação. Em 2024, o mesmo tribunal concedeu aos presidentes imunidade legal quase ilimitada contra a responsabilização por crimes cometidos no exercício de suas funções, o que dificulta contestar ações como a renomeação do Lago Ontário.
Baixa aprovação pública em contraste com atos mais graves
Uma pesquisa da YouGov revelou que apenas 19% dos americanos apoiavam a renomeação do Lago Ontário, uma afronta ao vizinho Canadá. Curiosamente, essa indignação pública foi maior do que a gerada por outras ações do governo Trump, que incluíram:
- A morte de 18 militares e ferimentos em 756 na guerra contra o Irã.
- A detenção de 66.000 pessoas em centros de imigração, das quais mais de 70% sem antecedentes criminais.
- O aumento da inflação em 0,2 a 0,4 ponto percentual devido a tarifas contínuas.
- Esquemas de corrupção envolvendo indivíduos ultrarricos, corporações e governos estrangeiros.
- A flexibilização dos padrões para recrutas do FBI, que agora toleram roubo, contratação de profissionais do sexo e até bestialidade.
- A aparição do nome de Trump mais de 38.000 vezes nos arquivos de Epstein, ainda não totalmente divulgados.
- A riqueza exorbitante acumulada por Trump e seus familiares não eleitos desde que ele reassumiu o cargo.
Em comparação com essas questões de maior peso, a mudança do nome do Lago Ontário é descrita por colunistas como um detalhe insignificante diante da complexidade dos problemas enfrentados pelo país.
Desafios a tratados e leis internacionais em outras ocasiões
O líder da Nação Seneca, o presidente J. Conrad Seneca, argumentou que a ação de Trump também viola o Tratado de Canandaigua de 1794, assinado entre os EUA e a Confederação Haudenosaunee, um grupo de seis nações tribais. Contudo, Trump já havia conseguido contornar o Congresso em diversas ocasiões, violando a Constituição ao atacar o Irã, sequestrar o então presidente soberano da Venezuela e sua esposa, e impor novas tarifas a nações estrangeiras, apesar de decisões da Suprema Corte confirmando que os poderes constitucionais sobre tarifas pertencem exclusivamente ao Congresso. Mais de 100 especialistas em direito internacional chegaram a sugerir que o presidente cometeu crimes de guerra em outras ações.
Impacto na estabilidade do sistema jurídico americano
A facilidade com que ordens executivas como a renomeação do Lago Ontário foram implementadas, mesmo diante de argumentos legais e constitucionais contrários, levanta questionamentos profundos sobre a autonomia das agências federais e a própria integridade do Estado de Direito nos Estados Unidos. A situação evidencia um cenário onde o poder presidencial, fortalecido por interpretações judiciais, pode operar com poucas restrições, levando a críticas de que o sistema de freios e contrapesos foi significativamente enfraquecido.

