O Índice de Preços ao Produtor (IPP) da indústria brasileira apresentou uma variação negativa de 0,77% em junho de 2026, na comparação com o mês anterior. Este resultado representa a segunda retração consecutiva nos preços praticados “na porta da fábrica”, uma vez que em maio o indicador já havia registrado queda de 0,30% em relação a abril.
A persistência da variação negativa, que se aprofundou no último mês, sinaliza um arrefecimento das pressões inflacionárias no setor produtivo. O IPP, que abrange as indústrias extrativas e de transformação, é um importante termômetro para a inflação futura ao consumidor, uma vez que mede os preços dos produtos sem a inclusão de impostos e fretes. A análise detalhada revela que seis das 24 atividades industriais pesquisadas contribuíram para essa desaceleração, evidenciando um cenário de moderação de custos em diversos segmentos.
Desaceleração industrial e o panorama mensal
A performance de junho de 2026, com a redução de 0,77%, reforça uma tendência observada no ano anterior. Em junho de 2025, o IPP havia registrado uma variação mensal ainda mais acentuada, com declínio de 1,27%. A sequência de dois meses com variações negativas, embora menos intensa que no ano anterior, sugere um comportamento cauteloso do mercado industrial, possivelmente influenciado por fatores como a demanda interna e o ambiente econômico global.
O indicador considera os preços dos produtos no momento em que saem das unidades de produção, antes da adição de custos de transporte e tributos. Essa metodologia permite uma visão mais pura das dinâmicas de custo da indústria, sendo crucial para entender as bases da formação de preços na economia. Dos 24 segmentos industriais acompanhados, uma parcela significativa demonstrou redução nos preços médios, indicando que a deflação não foi um fenômeno isolado.
Destaques e influências por setores
A análise setorial do IPP em junho de 2026 revela que algumas atividades tiveram um impacto mais pronunciado na variação geral. As indústrias extrativas, por exemplo, registraram a maior queda, com -11,85%, exercendo uma influência de -0,56 ponto percentual (p.p.) sobre o índice geral da indústria. Outros segmentos também apresentaram variações notáveis, tanto negativas quanto positivas. As quatro atividades com maiores variações no mês foram:
- Indústrias extrativas: -11,85%
- Outros produtos químicos: -2,74%
- Refino de petróleo e biocombustíveis: -2,30%
- Móveis: 2,08%
Além das extrativas, outros produtos químicos (-0,24 p.p.) e refino de petróleo e biocombustíveis (-0,23 p.p.) também se destacaram pela influência negativa. A variação nos preços desses setores, especialmente aqueles ligados a commodities e insumos básicos, tem um efeito cascata sobre outras cadeias produtivas. A queda nas indústrias extrativas, por exemplo, pode ser reflexo de menores preços internacionais de minérios e petróleo.
Acumulados no ano e em doze meses: um cenário misto
Apesar da retração mensal, o acumulado do IPP no ano de 2026 atingiu 3,99% até junho. Este é o quarto maior resultado para o período desde o início da série histórica em 2014, contrastando fortemente com o acumulado de -3,13% registrado no mesmo período de 2025. Essa diferença sublinha a volatilidade e as mudanças nas condições de mercado entre os anos.
As atividades que mais contribuíram para a variação acumulada no ano foram: outros produtos químicos (17,05%), borracha e plástico (15,07%), impressão (5,91%) e refino de petróleo e biocombustíveis (5,78%). Em termos de influência, outros produtos químicos (1,32 p.p.), borracha e plástico (0,60 p.p.), refino de petróleo e biocombustíveis (0,57 p.p.) e metalurgia (0,27 p.p.) foram os principais motores.
No acumulado em 12 meses, o IPP registrou alta de 2,51% em junho, superando os 2,00% observados em maio. Os setores com as maiores variações nesse período foram borracha e plástico (15,22%), impressão (14,53%), outros produtos químicos (8,88%) e móveis (7,68%). Contudo, a influência negativa do setor de alimentos (-1,11 p.p.) demonstra a complexidade das dinâmicas de preços, mesmo com a contribuição positiva de outros segmentos como outros produtos químicos (0,73 p.p.) e borracha e plástico (0,59 p.p.).
Variações e impactos nas grandes categorias econômicas
A análise do IPP também se estende às grandes categorias econômicas, fornecendo uma visão mais abrangente de como as variações de preços afetam diferentes elos da cadeia produtiva. Em junho de 2026, na comparação mensal, os bens de capital registraram alta de 1,02%. Já os bens intermediários, que têm um peso significativo de 54,66% na composição do índice geral, apresentaram uma variação negativa de 1,70%, exercendo a maior influência de -0,94 p.p. sobre o IPP.
Os bens de consumo, por sua vez, tiveram uma variação positiva de 0,25%, com os duráveis subindo 0,36% e os semiduráveis e não duráveis crescendo 0,23%. A influência dos bens de consumo no índice geral foi de 0,09 p.p., dividida entre 0,02 p.p. dos duráveis e 0,07 p.p. dos semiduráveis e não duráveis. Os bens de capital contribuíram com 0,08 p.p. para a variação total.
No acumulado do ano, a trajetória dessas categorias também se distingue: bens de capital com 0,03%, bens intermediários com 5,95% e bens de consumo com 2,08% (sendo 0,78% para duráveis e 2,34% para semiduráveis e não duráveis). A influência dos bens intermediários foi dominante, respondendo por 3,19 p.p. dos 3,99% acumulados no IPP geral até junho. Os bens de consumo contribuíram com 0,80 p.p. e os bens de capital, com uma influência marginal de 0,00 p.p.
Em um horizonte de 12 meses, os preços dos bens de capital subiram 1,37%, enquanto os bens intermediários registraram aumento de 3,75%. Os bens de consumo tiveram uma variação de 0,99% neste período, impulsionados pelos duráveis (2,14%) e pelos semiduráveis e não duráveis (0,76%). A heterogeneidade dos resultados entre as grandes categorias econômicas reflete as diferentes dinâmicas de oferta e demanda, bem como os custos de produção em cada segmento industrial do país.



