‘É muita lacração’, diz defesa de Fabiana Bolsonaro
Imagem: Alesp
Via Folha de São Paulo – A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou a Justiça Eleitoral nesta quinta (19) para pedir a instauração de inquérito policial eleitoral contra a deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL-SP), que é acusada de uso de blackface e transfobia após se pintar com base para peles negras na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo). A ação é motivada pela mudança de autodeclaração racial de Fabiana entre 2020 e 2022.
Em 2020, quando concorreu e ganhou a eleição para vice-prefeita do município de Barrinha (SP), na chapa do prefeito Zé Marcos (PL), Fabiana Barroso se autodeclarou branca. Já nas eleições de 2022, quando concorria ao cargo de deputada estadual, a parlamentar se declarou da cor parda e passou a adotar o sobrenome Bolsonaro —ela não tem relação de parentesco com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo a peça apresentada por Hilton, essa autodeclaração teve impacto no acesso a verbas públicas de campanha vinculadas às cotas raciais estabelecidas pela Justiça Eleitoral naquele ano. Segundo dados do portal DivulgaCand, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em 2022, a parlamentar recebeu R$ 1 milhão da direção nacional do PL e R$ 12 mil da direção estadual.
Em fala ao plenário na quarta (18), Fabiana afirmou que não poderia representar as pessoas negras ao se pintar de negra, em protesto contra a eleição de Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados.
“Eu tive os privilégios de uma pessoa branca durante toda a minha vida. Agora, aos 32 anos, decido me maquiar, me travestir como uma pessoa negra. E agora, virei negra?”, questionou.
Em nota, a deputada nega o uso de blackface e afirma que a manifestação não foi um deboche, e sim sinal de reconhecimento e respeito pela luta histórica do povo negro. A prática de blackface acontece quando uma pessoa branca pinta o rosto ou o corpo para simular uma pessoa negra e é historicamente associada à ridicularização e desumanização dessa população.
“Não sou negra, e por isso não tenho lugar de fala em favor dos negros, mas aproveitei para deixar claro o meu respeito e afirmar que não sofro com esse odiável preconceito”, afirmou Fabiana na nota.
Para Hilton, há indícios de que a autodeclaração foi utilizada de forma indevida, o que configuraria, em tese, o crime de falsidade ideológica eleitoral, previsto no artigo 350 do Código Eleitoral. A ação destaca a contradição entre o benefício obtido por meio da autodeclaração racial e a posterior banalização da identidade racial em um ato público marcado pelo uso de blackface.
A deputada federal pede que a Justiça apure a regularidade da autodeclaração e a eventual destinação irregular de recursos públicos, além de avaliar possíveis responsabilidades criminais e eleitorais no caso, como a devolução do recurso utilizado indevidamente.

