PT tenta atrair MDB com vaga de vice de Lula

(O Globo) Um grupo do PT encarregado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de articular sua reeleição pretende fazer uma ofensiva para incluir o MDB na chapa que será levada às urnas em outubro. O principal trunfo a ser oferecido ao partido é o posto de vice, o que deslocaria Geraldo Alckmin (PSB) para a disputa eleitoral de São Paulo. Atualmente, a legenda ocupa três ministérios no governo, mas a cúpula emedebista resiste a um alinhamento eleitoral.

Caso um acordo vingue, os citados para eventualmente ocupar o posto de vice de Lula são Renan Filho e o governador Pará, Helder Barbalho. Ambos têm, no momento, planos de disputar a eleição em seus estados, concorrendo ao governo e ao Senado, respectivamente.

A história do MDB sempre foi marcada por divisões regionais. Mesmo quando a legenda formalizou as alianças com Dilma Rousseff em 2010 e 2014 com a indicação de Michel Temer para vice, houve dissidências em estados como o Rio Grande do Sul.

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Helder Barbalho: opção para vice de Lula (Foto: Agência Brasil)

Por isso, a cúpula do PT sabe que seria impossível contar com o apoio integral do partido e tenta construir uma aliança formal no plano nacional que garanta o tempo de televisão para o petista, mas com liberação dos diretórios estaduais.

Com a decisão do PSD de lançar um candidato a presidente — reforçada após a entrada do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, no partido na semana passada —, o MDB passou a ser visto pelos petistas como a única opção caso queira ter na chapa uma legenda de centro. Os governistas têm se empenhado em atrair setores do União Brasil, mas sabem que o partido não assumirá uma posição formal a favor de Lula.

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Há uma percepção no entorno de Lula de que a única chance de atrair o MDB é com a oferta do posto de vice. Por isso, o presidente se mostraria disposto a sacrificar Alckmin, apesar de costumar elogiar o seu desempenho no posto. Nesse caso, o atual vice-presidente poderia disputar o Senado ou o governo de São Paulo.

Nunes resistente

A maior resistência hoje no MDB a um acordo com o PT está no prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. No segundo turno da eleição presidencial de 2022, Nunes resistiu a um apoio formal do partido ao petista contra Jair Bolsonaro (PL), enquanto a candidata emedebista naquela eleição, Simone Tebet, subiu no palanque e foi peça importante para a vitória de Lula.

Na disputa de 2024, em que foi reeleito, o prefeito de São Paulo teve o apoio de Bolsonaro, que chegou a indicar o seu vice, Coronel Mello Araújo (PL). Ao longo da campanha, porém, Bolsonaro se distanciou de Nunes.

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Filiação de Caiado fez PT de Lula desistir de acordo com PSD (Foto: Governo de Goiás)

O prefeito da capital paulista afirma respeitar a posição de seus colegas de partido que estão no governo, os ministros Jader Filho (Cidades), Renan Filho (Transportes) e Simone Tebet (Planejamento), mas acredita que uma adesão a Lula não seria aprovada nas instâncias internas.

— A maioria do partido tem uma posição predominante contrária ao apoio a esse governo do PT, que tem sido uma catástrofe — diz Nunes.

Aliados de Lula no MDB entendem que a posição assumida pelo prefeito da capital paulista é, em parte, resultado do papel desempenhado pelo presidente na eleição de 2024. O mandatário se engajou com afinco na campanha de Guilherme Boulos (PSOL), que perdeu a disputa no segundo turno, com participações no horário eleitoral, presenças em comícios e pressão para que o PT colocasse R$ 44 milhões na campanha do ex-líder dos sem teto.

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A decisão recente do presidente de fazer com que Simone Tebet mude o seu domicílio eleitoral para São Paulo para disputar uma cadeira no Senado pelo estado também contribuiu para acirrar os ânimos com o comando do MDB.

Dirigentes petistas acreditam que Tebet poderia permanecer no MDB se a aliança com Lula vingasse. Mas Nunes tem um compromisso de apoiar a reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) na disputada estadual. Uma hipótese é a ministra do Planejamento se transferir para o PSB.

Caciques veem demora

No grupo dos defensores da aliança entre Lula e o MDB estão, além dos ministros, os ex-presidentes do Senado Renan Calheiros (AL), Jader Barbalho (PA) e Eunício Oliveira (CE), além do senador Eduardo Braga (AM). A ala governista do partido avalia, porém, que a cúpula do PT está demorando muito para iniciar as conversas em torno da possível aliança.

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Ministro de Lula em seu primeiro mandato, Eunício afirma que o caminho do partido ainda não está definido:

— Tenho uma aliança no estado do Ceará, já liberada pela direção nacional do partido, para apoiar o presidente Lula. Ainda não sabemos como o MDB vai defender a sua posição a nível nacional.

Caso não haja acordo, a definição sobre os rumos do partido na eleição pode ser levada para a convenção. Os dois lados dizem ter maioria para vencer a disputa.

Nesse caso, os números de delegados que cada diretório tem na convenção é calculado com base na votação para deputado que o partido obteve em cada estado na eleição anterior. Parlamentares também votam e podem ter o voto computado em dobro se também forem designados delegados. Baleia Rossi, por exemplo, vota como delegado, deputado e presidente do partido. Pelos cálculos de lideranças nacionais da sigla, hoje 17 diretórios são contra uma aproximação com o PT e dez são a favor.