Antônio Carlos chegou a Iquego após um contrato firmado, em 2012, entre o Governo de Goiás e a Cruz Vermelha
Empresário teve passagem pela Indústria Química do Estado de Goiás entre os anos de 2012 e 2014 e, mais tarde, voltou a demonstrar interesse na estatal (Foto: Lula Marques/ABR)
Preso no fim do ano passado sob suspeita de liderar um esquema milionário de descontos fraudulentos em aposentadorias e pensões, o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido nacionalmente como “Careca do INSS”, teve passagem pela Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego) entre os anos de 2012 e 2014 e, mais de uma década depois, voltou a demonstrar interesse na estatal goiana.
Antônio Carlos chegou ao cargo de diretor comercial da empresa após um contrato firmado, em 2012, entre o Governo de Goiás, sob a gestão de Marconi Perillo (PSDB), e a Cruz Vermelha Brasileira (CVB). À época, a promessa era de recuperação da empresa por meio de investimentos milionários e modernização da produção. No entanto, dois anos depois, em 2014, o contrato foi encerrado diante do não cumprimento das metas estabelecidas.
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Contexto
Conforme revelou reportagem do jornal O Popular, após deixar a presidência da estatal, Antônio Carlos passou a atuar como lobista junto à própria Iquego e tentou, sem sucesso, em 2024, viabilizar parcerias que resultassem em contratos com o Ministério da Saúde (MS), em Brasília.
As movimentações vieram à tona a partir de entrevista concedida por um ex-funcionário do empresário ao portal Metrópoles, da divulgação de conversas de WhatsApp pelo G1 e de uma investigação conduzida pelo O Popular, após a Iquego passar a ser citada em documentos e depoimentos entregues à Polícia Federal (PF). As apurações indicam o interesse do lobista em utilizar a empresa como instrumento para viabilizar contratos e parcerias.
Novo interesse na Iquego
O interesse, segundo as reportagens, estaria relacionado a uma vantagem estratégica da Iquego no mercado. Isso porque, por se tratar de uma empresa pública, a estatal pode fornecer produtos ao Sistema Único de Saúde (SUS) sem necessidade de processo licitatório, condição restrita a poucas instituições no país.
Na entrevista ao Metrópoles, o ex-funcionário afirmou que o empresário utilizava a própria cunhada, identificada como Cláudia Santos, para representá-lo em contratos de menor porte. Ainda segundo o relato, em 2024 Antônio Carlos teria conseguido uma nova oportunidade de aproximação com a Iquego, com a possibilidade de apresentar empresas interessadas em parcerias. Em mensagens de WhatsApp, o empresário questiona sobre o andamento dos processos e Cláudia responde que a empresa já teria protocolado 15 projetos para análise no MS.
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Dias depois, Antônio Carlos anunciou, em um grupo de WhatsApp, uma reunião com o “pessoal do Goiás”. De acordo com o ex-funcionário, Cláudia também mantinha contato frequente com integrantes do chamado “grupo Iquego”.
Cannabis medicinal
As articulações tinham como pano de fundo interesses ligados à empresa World Cannabis, controlada por Antônio Carlos. Isso porque, desde o ano anterior, a Iquego havia manifestado intenção de produzir cannabis medicinal, além de outros produtos como testes rápidos de dengue e itens de nutrição.
Ainda conforme a entrevista, uma servidora da Iquego repassava informações ao grupo. O ex-funcionário a identificou como Vilma. Posteriormente, reportagem do O Popular apontou tratar-se de Vilma Aparecida Moreira, servidora da empresa desde 1983. Outros servidores ouvidos afirmaram que ela atuava há muitos anos em contatos institucionais da Iquego em Brasília.
Procurada, a atual direção da Iquego afirmou inicialmente desconhecer a citação envolvendo a servidora e informou que abriria procedimento interno para apuração dos fatos. Vilma chegou a ser localizada pela reportagem do O Popular, mas disse, segundo o jornal, que estava em reunião e não retornou o contato posteriormente.
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Investigação da PF
Os interesses de Antônio Carlos na tentativa de comercialização de medicamentos à base de cannabis, testes rápidos e produtos de nutrição passaram a ser investigados pela Polícia Federal.
Em nota, a Iquego afirmou que Antônio Carlos não mantém qualquer relação com a atual gestão. A estatal também declarou que nunca houve influência direta dele ou de sua cunhada em negociações com o Ministério da Saúde durante o período da nova administração, e acrescentou que não há registro oficial de visitas à empresa por parte de Antônio Carlos, Cláudia Santos ou pessoas a eles associadas.
A empresa ressaltou ainda que os processos para busca de parcerias comerciais e institucionais seguem procedimentos rigorosamente regulados, por meio de seleções públicas transparentes e abertas, e que não existe qualquer contrato ou parceria da Iquego com empresas ligadas ao empresário. A defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes não foi localizada. O espaço permanece aberto para manifestação.


