Por que o Comando Vermelho não conseguiu se instalar no Rio Grande do Sul

Locais de atuação do Comando Vermelho

Locais de atuação do Comando Vermelho – Arte/Fantástico

O Rio Grande do Sul é um dos poucos estados brasileiros sem atuação direta do Comando Vermelho (CV), facção criminosa surgida no Rio de Janeiro na década de 1970. Especialistas apontam que a forte identidade cultural gaúcha e a consolidação de grupos criminosos locais formam uma barreira à expansão da organização. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) mostram que o CV está presente em 24 estados, mas não em presídios do RS, São Paulo e Distrito Federal. A ausência da facção no estado reflete um “ecossistema criminal próprio”, segundo pesquisadores.

O fenômeno é atribuído à organização precoce de facções gaúchas, que dominaram territórios e presídios antes da expansão nacional do CV, iniciada em 2013. A integração entre forças de segurança estaduais e federais também contribui para limitar a entrada de grupos externos. No RS, o crime organizado local foca na interiorização, controlando cidades médias sem disputas por “bandeiras” nacionais.

  • Fatores que barram o CV: forte identidade cultural, facções locais consolidadas, vigilância policial.
  • Atuação do CV no Brasil: presente em 24 estados, com destaque para o Rio de Janeiro e Norte.
  • Estratégia gaúcha: interiorização do crime, evitando conflitos com grupos nacionais.

Ecossistema criminal consolidado

O RS desenvolveu um sistema próprio de crime organizado nas décadas de 1990 e 2000. Grupos locais, como a Falange Gaúcha e Os Manos, ocuparam espaços em presídios, como o antigo Presídio Central de Porto Alegre, antes do avanço do CV.

Essa estrutura autônoma criou barreiras para facções externas. A ausência de vácuo de poder impediu a entrada do CV, que depende de alianças com grupos locais para se expandir.

Police operation against drug trafficking at the favela do Penha in Rio de Janeiro
Members of the military police special unit detain suspected drug dealers during a police operation against drug trafficking at the favela do Penha, in Rio de Janeiro, Brazil, October 28. REUTERS/Aline Massuca

Influência cultural gaúcha

A identidade cultural do Rio Grande do Sul é um obstáculo ao CV. Especialistas destacam um “pacto informal” entre facções locais para evitar a entrada de grupos de fora.

Essa resistência reflete tradições regionais que moldam até o crime organizado. A forte coesão local dificulta a imposição de uma organização externa como o CV.

Interiorização do crime local

As facções gaúchas priorizam a expansão para cidades médias e áreas rurais, diferente da estratégia interestadual do CV. Essa interiorização fortalece o controle territorial sem atrair atenção de grupos nacionais.

A estratégia reduz conflitos abertos e aproveita rotas logísticas locais. Cidades do interior, antes sem crime organizado, agora são dominadas por esses grupos.

Rodrigo Azevedo, professor da PUCRS, explica que o foco é a sustentabilidade dos negócios ilícitos. Tentativas de expansão para Santa Catarina foram frustradas pela presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) e facções locais.

Relações comerciais limitadas

Embora o CV não tenha presença fixa no RS, há interações comerciais com facções locais. Essas relações se limitam ao fornecimento de drogas e armas, sem subordinação.

O diretor do Instituto Cidade Segura, Alberto Kopittke, cita a “guerra civil nacional” de 2016 e 2017, entre CV e PCC, que elevou a violência no estado.

Azevedo reforça que esses contatos são pontuais, sem integração estrutural. O RS mantém sua autonomia criminal, distinta de estados onde o CV domina.

Vigilância policial reforçada

A integração entre Polícia Civil, Militar e Rodoviária Federal é um diferencial no RS. O trabalho conjunto dificulta a entrada de facções externas, especialmente em rotas de fronteira com Uruguai e Argentina.

A Secretaria de Segurança Pública destaca a vigilância constante e a ausência de áreas dominadas por facções, ao contrário do Rio de Janeiro.

O coronel Mario Ikeda, titular da pasta, afirma que viaturas policiais acessam qualquer região do estado. A falta de restrições judiciais, como no RJ, facilita operações.

Ausência de vácuo de poder

Diferentemente de outros estados, o RS não apresenta espaços desocupados para facções externas. A ocupação prévia de presídios e comunidades por grupos locais impede a consolidação do CV. O juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, destaca que as facções gaúchas dominam as principais prisões do estado. O controle territorial capilar, aliado à forte tradição cultural, forma uma blindagem contra a expansão do CV, mantendo o estado como uma exceção no Brasil.

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