PF prepara relatório sobre menções a políticos nos arquivos de Vorcaro

Redação
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PF prepara relatório sobre menções a políticos nos arquivos de Vorcaro

(O Globo) A Polícia Federal (PF) está preparando um relatório sobre os primeiros achados no celular e nos arquivos de Daniel Vorcaro que podem atingir figuras políticas. Investigadores com acesso ao material já mapearam uma série de menções ao senador Ciro Nogueira, presidente do PP, e estão avaliando se vão pedir a abertura de um inquérito para apurar se o parlamentar atuou para favorecer o banqueiro. O documento será encaminhado nos próximos dias ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso Master.

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Mensagens em posse da Polícia Federal mostram que Vorcaro celebrou uma emenda de Ciro Nogueira inserida em uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que favorecia o Master. A proposta apresentada pelo parlamentar em agosto de 2024 sugeria elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor da indenização paga pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para clientes que tenham aplicações financeiras como CDBs (certificados de depósito bancário) em instituições financeiras que enfrentem crise ou dificuldade para honrar seus compromissos.

Nos diálogos, Vorcaro relata ainda que a repercussão foi imediata. “Kkk todo mundo me ligando” (…) Sentiram o golpe”, comemorou o banqueiro. A proposta de Nogueira acabou sendo rejeitada por falta de apoio.

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Durante as negociações para vender a instituição financeira de Vorcaro para o BRB, o Banco Central deu sinais de que poderia rejeitar a operação. Diante desse impasse, o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), aliado de Ciro Nogueira, articulou um requerimento para acelerar a tramitação de um projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC. A investida contou com apoio de diferentes siglas, mas não foi adiante porque a pressão do mercado enterrou a manobra.

Em mensagem para a sua então namorada, Vorcaro qualificou Nogueira como “um dos meus grandes amigos de vida”. Nessa segunda-feira, o senador disse conhecer “todos os grandes empresários do país”, mas afirmou que tais relações não configuram proximidade.

— Sou convidado para jantares, palestras, encontros. Agora, o CPF dele é um, o meu é outro. O que vai nortear minha trajetória de vida é minha história, e podem ter toda a certeza: se surgir algum dia alguma denúncia que seja comprovada contra o senador Ciro, eu renuncio ao meu mandato — afirmou o senador, ao ser questionado por jornalistas sobre o assunto.

Ao analisar as mensagens e arquivos de Vorcaro, investigadores têm descartado do material que interessa à investigação e que apresenta indícios de irregularidades o conteúdo da vida privada do banqueiro, mesmo que envolva relações pessoais com políticos. O objetivo da Polícia Federal é se concentrar em achados que possam revelar a prática de algum crime.

Para que o inquérito continue tramitando no Supremo Tribunal Federal (STF) é necessário que a PF aponte o envolvimento, no escândalo do Master, de alguma pessoa com direito a foro privilegiado, como, por exemplo, deputado federal ou senador praticando crimes no exercício dos seus mandatos.

Outras relações políticas

Antes de ser preso, Vorcaro costumava reconhecer a importância da sua rede de contatos políticos. Ele dizia a pessoas próximas que havia feito “fortes amigos” em Brasília, que “no Brasil não tem como andar se não tiver esse tipo de proteção” e que, sem o apoio de poderosos, não estaria no lugar a que chegou.

Uma troca de mensagens entre o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e Daniel Vorcaro, dono do Master, mencionou uma suposta reunião com o comandante do União Brasil, Antônio Rueda, durante as negociações da venda do banco para a instituição controlada pelo governo do Distrito Federal.

O diálogo foi extraído do celular de Vorcaro, cujo conteúdo está sendo analisado pela Polícia Federal e pela CPI do INSS no Congresso. Vorcaro, de acordo com a apuração, tirava prints de tela de determinadas conversas de WhatsApp e guardava as imagens na galeria do celular.

De acordo com o diálogo, Costa procurou Vorcaro para contar que havia falado com Rueda e acrescentou que o presidente do União Brasil também gostaria de conversar com o banqueiro.

À época da conversa, Costa e Vorcaro negociavam uma operação de socorro ao Master. O banco público controlado pelo governo do DF anunciou a compra de 58% do capital total da instituição financeira privada por cerca de R$ 2 bilhões. Essa operação foi rejeitada pelo Banco Central, que, no final do ano passado, decretou a liquidação do Master por suspeita de fraudes e dificuldades financeiras para honrar seus compromissos.

Procurado, Paulo Henrique Costa, que deixou o comando do BRB após se tornar alvo de investigação da PF, afirmou, por meio de advogados, que “mensagens foram trocadas no contexto do exercício regular de suas responsabilidades como presidente do Banco de Brasília (BRB), no âmbito das relações institucionais e comerciais mantidas pelo banco.”

Em nota enviada à revista Piauí, o dirigente partidário, que está à frente do escritório Rueda & Rueda, confirmou que prestou serviços jurídicos ao Master e fez “dezenas de pareceres e centenas de reuniões, incluindo mais de 1.000 audiências, cerca de 20 mil protocolos e aproximadamente 400 acordos”. Ele não revelou, porém, os valores.

A nota de Rueda diz ainda que o serviço representa “atividade profissional legítima, regular e plenamente compatível com o exercício da advocacia no país”, que atuou “em caráter estritamente técnico” e que “sempre se deu dentro dos mais rigorosos padrões legais e éticos da advocacia”.

A relação de Vorcaro e do Master com o União Brasil envolveu também o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, vice-presidente da sigla e pré-candidato ao governo da Bahia. Como mostrou O GLOBO, ACM Neto recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da gestora de recursos Reag, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão vinculado ao Banco Central, entre março de 2023 e maio de 2024. Ele confirmou que recebeu os pagamentos por ter prestado consultoria para a instituição, mas disse que os serviços foram regulares.

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