Fundada em 2001 por Jimmy Wales e Larry Sanger, a Wikipédia começou como um experimento participativo para complementar a Nupedia, um projeto com artigos escritos e editados por especialistas nos assuntos abordados — e que nunca decolou.
Duas décadas e meia depois, a Wikipédia tornou-se uma rede com mais de 65 milhões de artigos em mais de 300 idiomas, mantida por cerca de 250 mil voluntários ativos em todo o mundo. E agora enfrenta os desafios de um novo cenário, cada vez mais dominado pela inteligência artificial.

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Musk lançou a Grokipédia em 27 de outubro de 2025 com uma publicação massiva: mais de 885 mil artigos gerados automaticamente pelo Grok — muitos deles copiados ou adaptados da Wikipédia.
Conforme o próprio Musk declarou ao podcast All In, o Grok, o modelo linguístico de inteligência artificial da xAI, gerou os primeiros artigos da Grokipédia – todos em inglês – processando informações de um milhão das entradas mais populares da Wikipédia.
Em seguida, elas foram modificadas e complementadas com pesquisas de outras informações publicamente disponíveis na internet.
Se na Wikipédia milhares de voluntários atualizam e revisam constantemente o conteúdo, na Grokipédia os usuários não participam diretamente da criação, edição ou correção dos artigos. O papel deles se limita a sugerir correções, que estão sujeitas a um processo de revisão pela plataforma.
Não há informações públicas sobre o funcionamento ou os modelos utilizados na plataforma, nem sobre as diretrizes para revisão de correções.
O objetivo declarado de Musk é “eliminar a propaganda” e criar uma base de conhecimento “mais objetiva” do que a Wikipédia, que ele acusa de ser “capturada por ativistas de esquerda” e de ter se tornado “woke”.
Acusações de distorções e viés
Essa promessa de neutralidade, porém, não convenceu a todos. A diretora executiva da Wikimedia Alemanha, Franziska Heine, avalia que a Grokipédia não é neutra, mas repleta de preconceitos.
Ela menciona como exemplo artigos sobre a invasão do Capitólio em Washington em 6 de janeiro de 2021 ou o suposto genocídio da população branca na África do Sul.
Diversos veículos de comunicação, incluindo a revista Wired e o jornal The Guardian, identificaram um viés conservador na Grokipédia e afirmaram haver distorções em temas sensíveis, como aids e HIV, direitos LGBTQ+ e a invasão do Capitólio.
Um de seus verbetes, por exemplo, dizia que o consumo de pornografia favoreceu a disseminação da aids, afirmou a Wired.
Para os críticos, o problema não está apenas no conteúdo, mas também na falta de transparência do projeto, já que a Grokipédia opera sem autores ou administradores identificáveis e carece de um sistema aberto de revisão pela comunidade.
Segundo a pesquisadora Nina Jankowicz, citada pelo Guardian, esse modelo transforma a Grokipédia num sistema de informação que, apesar de se apresentar como neutro, pode introduzir vieses sem que o público perceba.
Embora ainda longe do alcance e da influência da Wikipédia, a Grokipédia já está indexada por mecanismos de busca como Google e Bing e gera milhares de visitas diárias, segundo dados compilados pela Search Engine Roundtable.
Seu crescimento é rápido para um projeto tão recente e possivelmente se beneficia da notoriedade e presença midiática de Musk.
Wikipedia defende criação compartilhada de verbetes
A Wikimedia, no entanto, enfatiza que a diferença fundamental continua sendo as pessoas. “O conhecimento da Wikipédia é – e sempre será – humano. Esse conhecimento criado por humanos é o que as empresas de IA usam para gerar conteúdo. Até mesmo a Grokipédia precisa da Wikipédia para existir”, afirmou.
Embora reconheça que controvérsias possam surgir em questões políticas, a Wikimedia rejeita a ideia de que a Wikipédia tenha sido “capturada” por uma ideologia e destaca uma vantagem essencial de seu modelo: os artigos são desenvolvidos a partir de fontes visíveis, debates públicos e um processo coletivo de edição aberto à revisão constante.
A comunidade da Wikipédia também mantém uma postura cautelosa em relação ao uso da inteligência artificial na criação e edição de conteúdo. Embora ferramentas automatizadas sejam usadas para tarefas auxiliares, como a detecção de vandalismo, o conteúdo principal continua sendo criado por pessoas.
Como alerta Heine, a IA “sempre se baseia no que já é conhecido e, no pior cenário, mistura isso com coisas que são completamente falsas ou que não se encaixam”.
Quem decide o que é verdade na era da IA?
A Grokipédia se encaixa no ecossistema tecnológico de Musk – que inclui as empresas X, Tesla, SpaceX e xAI – como mais um elemento em sua cruzada contra o que ele considera uma hegemonia cultural progressista.
Para os críticos da enciclopédia, no entanto, trata-se de um experimento ideológico que utiliza a capacidade da inteligência artificial para remodelar consensos informacionais sem mecanismos claros de responsabilização.
E embora não tenha o impacto da Wikipédia, sua crescente presença nos resultados de buscadores e as citações ocasionais por modelos de IA, como o ChatGPT, como fonte em algumas respostas – como mostrou o Guardian – levanta uma questão preocupante: quem decidirá o que é verdade na era dos chatbots?
A Wikipédia, com seus erros, limitações e campanhas periódicas de doações, continua defendendo a transparência, a colaboração e o debate público.
A Grokipédia promete velocidade, escala e “objetividade”, mas a partir de um modelo centralizado.
Nessa tensão entre conhecimento compartilhado e controle centralizado, está em jogo mais do que apenas o futuro das enciclopédias, mas também a própria maneira como o conhecimento comum será construído na era da inteligência artificial.

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