Mulheres que foram agredidas têm quase 30% de chance a mais de serem vítimas de homicídio em Goiânia, aponta estudo

Um levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS) em parceria com a Vital Strategies identificou, entre os anos de 2010 e 2020, 11.900 meninas e mulheres com notificação de violência no município. O projeto mapeou a trajetória dessas vítimas e concluiu que mulheres com notificação de violência têm 29,1 vezes mais risco de serem vítimas de homicídio em comparação às demais mulheres da capital.

O diagnóstico foi possível por meio do cruzamento de dados de diferentes sistemas de informação da saúde, revelando fatores de risco associados ao agravamento da violência e ao aumento da mortalidade.

A análise utilizou registros do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan-Violência), do Sistema de Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS). A partir do pareamento de dados, foi possível acompanhar os desdobramentos dos casos e comparar os índices de mortalidade entre mulheres com e sem notificação de violência.

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Entre as vítimas notificadas, 26,7% sofreram agressões cometidas por membros da família, como pai, mãe, padrasto, madrasta, irmão ou filho. Outros 20,6% tiveram como agressor o parceiro íntimo, ou seja, o cônjuge, ex-cônjuge, namorado ou ex-namorado. Já 15,6% apontaram conhecidos, como patrão ou cuidador, como autores da violência.

A maior parcela das notificações envolve adolescentes de 10 a 19 anos (26,5%). Em seguida aparecem mulheres de 30 a 59 anos (25,1%), crianças de 0 a 9 anos (24,1%), jovens de 20 a 29 anos (19,9%) e idosas com mais de 60 anos (4,4%).

Os tipos de violência variam conforme a faixa etária. Entre crianças de 0 a 9 anos, prevalece a negligência ou abandono (57,9%). Na adolescência, a violência sexual é predominante, atingindo 65,2% dos casos. Já entre mulheres de 20 a 29 anos e de 30 a 59 anos, a violência física é majoritária, com 64,1% e 77,2%, respectivamente. Entre idosas, volta a se destacar a negligência ou abandono (50,6%).

Quanto aos meios de agressão, o espancamento lidera com 34,9% das ocorrências, seguido por ameaças (21,3%). Também foram registrados casos envolvendo arma de fogo (11,2%), objeto perfuro-cortante (10,9%), envenenamento (4,3%) e objeto contundente (3,9%).

Risco de morte

O estudo aponta ainda que mulheres com notificação de violência tiveram 8,6 vezes mais chances de morrer por causas externas e 29,1 vezes mais risco de serem vítimas de homicídio em comparação às demais mulheres da capital. Entre meninas de 0 a 9 anos com notificação, a probabilidade de morte por causas externas foi 15,8 vezes maior do que entre aquelas sem registro de violência.

O risco de suicídio também é mais elevado nesse grupo. Mulheres com notificação tiveram três vezes mais chances de morrer por essa causa. Entre jovens de 20 a 29 anos, o risco de morte por suicídio foi 4,2 vezes maior em comparação às mulheres da mesma faixa etária sem registro de violência.

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De forma geral, as Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT) respondem por 65% dos óbitos femininos em Goiânia. No entanto, entre mulheres com histórico de violência, essa proporção cai para 30%. 

Enquanto os homicídios representam apenas 1% das mortes de mulheres na cidade, eles passam a ser a principal causa de óbito entre aquelas com notificação de violência, correspondendo a 33% dos casos. Já os acidentes de transporte, que somam 2% das mortes no total feminino, representam 8% entre as vítimas previamente notificadas.

Protagonista

Conforme mostrado pela reportagem do Mais Goiás, um movimento articulado por pesquisadores e gestores públicos de Goiânia pode colocar o feminicídio no centro das estatísticas globais de saúde. A proposta, em elaboração para ser apresentada à Organização Mundial da Saúde (OMS), pretende incluir este tipo de crime na Classificação Internacional de Doenças (CID-11).

A ideia é tirar o feminicídio da invisibilidade estatística na área da saúde onde, muitas vezes, as mortes são tratadas como causa externa. Em meio a esse cenário, a capital de Goiás se posiciona como uma das protagonistas desse projeto. A cidade lidera estudos que podem, de fato, mudar como o mundo aborda o assunto. 

De acordo com Cheila Maria de Lima, assessora da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e titular da Diretoria de Políticas Públicas de Saúde, a inclusão na classificação internacional permitiria estruturar uma vigilância contínua, integrando dados da saúde, segurança pública, justiça e assistência social. “Quando eu tiro esses casos da invisibilidade, eu aperfeiçoo as políticas públicas sobre o tema”, resume.

“A violência é subnotificada. O feminicídio também é subnotificado”, destaca Cheila. Segundo ela, um eventual aumento inicial nos números não significaria crescimento real dos casos, mas sim a revelação de ocorrências antes mascaradas por classificações genéricas. Clique aqui para ler mais sobre o estudo.