‘Meter bala’: preso homem por ameaçar pessoas de religião de matriz africana

Armas e farda da PM são encontradas em buscas após na casa do suspeito

Armas e farda da PM são encontradas em buscas após homem ameaçar rituais de matriz africana em Goiânia

Armas e farda da PM são encontradas em buscas após homem ameaçar rituais de matriz africana em Goiânia (Foto: PCGO)

A Polícia Civil de Goiás (PCGO) encontrou armas e uma farda da Polícia Militar (PM) na casa de um homem em Aparecida de Goiânia, que ameaçou “meter bala” em praticantes de religião de matriz africana. O suspeito é investigado por crimes de intolerância religiosa, ameaça e injúria e a operação foi deflagrada nesta terça-feira (10) pela Delegacia Estadual de Atendimento à Vítima de Crimes Raciais e de Intolerância (Deacri).

Segundo a corporação, as investigações começaram em novembro de 2025. As vítimas denunciaram à PCGO que realizavam um ritual de religião de matriz africana, nas proximidades do Bosque Alto Paraíso, quando foram abordadas agressivamente por um morador da vizinhança que se opunha à fé deles.

Eles relataram que o suspeito insultou os praticantes de forma discriminatória, além de ameaçá-los com arma de fogo. Conforme a polícia, o investigado chegou a apontar o armamento contra a cabeça das vítimas para que interrompessem o ato religioso. Disse, ainda, que ia “meter chumbo” nelas se repetissem as liturgias. Com medo, as pessoas deixaram o local.

Após a investigação, a Polícia Civil constatou que o suspeito possuía registro da arma de fogo utilizada na intimidação. Com as informações, eles cumpriram mandado de busca e apreensão e apreenderam diversos armamentos, munições e acessórios, assim como uma farda da Polícia Militar (PM) em condições suspeitas, pois o acusado não é membro da corporação.

O suspeito não teve a identidade divulgada. Contudo, ele responderá pelos crimes de injúria preconceituosa, ameaça e impedimento de manifestação religiosa. As penas somadas podem chegar a 6 anos e 6 meses de reclusão, além de multa e perdimento das licenças para possuir ou portar armas de fogo.

Racismo religioso

74% dos terreiros brasileiros já sofreram ameaças ou foram destruídos por atos de racismo religioso. Os crimes contra religiões de matriz africana ocorrem em ambientes variados — das invasões aos terreiros às manifestações nas ruas, nas redes sociais, no trabalho, na escola, em repartições públicas e até mesmo no seio familiar.

Esse dado faz parte de uma pesquisa com 511 terreiros de todas as regiões do país e foi apresentado pela mãe Nilce de Iansã, coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras, em um painel da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, em 4 de dezembro do ano passado.

Sobre a intolerância religiosa, ela pode ser caracterizada pela discriminação contra pessoas ou grupos de uma religião ou crenças por meio de atitudes ofensivas e agressivas. No Brasil, é considerada crime de ódio, com pena de reclusão que varia de um mês a cinco anos. Apesar de a lei abranger todas as crenças, as religiões de matrizes africanas (Umbanda e Candomblé) são as que mais sofrem esse tipo de preconceito.