Megaoperação no Rio elimina chefes do CV de outros estados em ação histórica

Rio de Janeiro guerra 2025

Rio de Janeiro guerra 2025 – Foto: X

A Polícia Civil e Militar do Rio de Janeiro deflagrou, na terça-feira (28), a Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital, visando desarticular a estrutura nacional do Comando Vermelho (CV). A ação resultou em 121 mortes, incluindo quatro policiais, e 113 prisões, com foco em líderes da facção que usavam as comunidades como quartel-general para treinamentos e decisões estratégicas. Embora o principal alvo, o traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, tenha fugido, nove chefes regionais de outros estados foram neutralizados em confrontos.

Autoridades confirmam que os complexos se tornaram centros de comando do CV, atraindo criminosos de diversas regiões para formação em manuseio de armas e expansão territorial. A operação mobilizou 2.500 agentes e apreendeu 118 armas, entre 91 fuzis e 26 pistolas, em uma das maiores ações contra o crime organizado no estado.

  • Entre os mortos, 40 eram de fora do Rio, oriundos de Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Pará, Ceará, Goiás e Paraíba.
  • Pelo menos 78 dos identificados possuíam histórico criminal relevante, incluindo mandados por tráfico e homicídios.
  • A estratégia incluiu o “Muro do Bope”, que cercou áreas de mata para isolar suspeitos.

O governador Cláudio Castro classificou a operação como sucesso, apesar das críticas por letalidade, e anunciou plano de ocupação sustentável para as favelas até dezembro.

Perfis dos líderes neutralizados

Douglas Conceição de Souza, o Chico Rato, de 32 anos, atuava em Manaus (AM) como chefe do tráfico no bairro Tancredo Neves. Condenado a 40 anos por duplo homicídio em 2019, ele cumpria regime semiaberto por porte ilegal de arma e mantinha laços com a extinta Família do Norte, aliada recente ao CV.

Francisco Myller Moreira da Cunha, o Gringo, também de 32 anos e natural de Eirunepé (AM), estava foragido desde abril de 2024 por homicídio e organização criminosa. Ele completou aniversário um dia antes da operação e era investigado por envolvimento em execuções locais.

Alisson Lemos Rocha, conhecido como Russo ou Gordinho do Valão, de 27 anos, veio de Vitória (ES) e liderava o tráfico no bairro Barro Branco, ligado à área de Nova Carapina. Investigado por assassinato em abril de 2025, ele fugira do estado e não ocupava topo da hierarquia local, segundo a Polícia Civil capixaba.

Megaoperação na zona norte do Rio de Janeiro
Megaoperação na zona norte do Rio de Janeiro – Foto: Reprodução/ TV Globo

Expansão do CV e treinamentos nos complexos

Os complexos da Penha e do Alemão serviam como base para o CV coordenar ações em pelo menos dez estados, com treinamentos em tiro e táticas de guerrilha para “formar” traficantes enviados de volta às origens. O secretário Felipe Curi destacou que decisões nacionais eram tomadas ali, facilitando a disseminação de drogas e armas.

Investigações de mais de um ano revelaram comunicações via aplicativos para punições internas e segurança em bocas de fumo. A operação identificou 94 alvos iniciais, muitos foragidos de outros estados, que usavam a região para proteção mútua.

A presença de criminosos de fora complicou identificações, exigindo cruzamento de dados interestaduais. Pelo menos 33 presos também eram de regiões como Amazonas e Pará, reforçando o caráter transnacional da facção.

Dados do Geni/UFF indicam que, de 2007 a outubro de 2025, ações policiais no Rio causaram 2.905 mortes civis, com esta operação superando recordes anteriores como Jacarezinho (2021, 28 mortos) e Vila Cruzeiro (2022, 23 mortos).

Detalhes da operação e apreensões

A ação começou às 6h com drones e helicópteros, enfrentando barricadas e tiros de fuzis. Policiais avançaram pela Serra da Misericórdia, empurrando suspeitos para áreas de mata onde equipes do Bope aguardavam. Imagens captadas mostram 23 homens armados, alguns em uniformes falsos, se deslocando para fuga.

Foram cumpridos 100 mandados de prisão e 150 de busca, resultando em 113 detidos. Entre eles, Thiago do Nascimento Mendes, o Belão, braço direito de Doca, capturado na Favela da Chatuba.

Apreensões incluíram nove motos usadas em fugas e celulares com mensagens sobre aquisições de drones e armas. Dois fuzis marcados “CV AM” confirmam influxo de armamento amazônico.

Estratégias de cerco e confrontos na mata

Na área de mata, conhecida como Pedreira, ocorreram os principais embates, com suspeitos encurralados pela tática do “Muro do Bope”. Moradores relataram remoção de corpos por famílias, totalizando mais de 50 resgatados informalmente antes da perícia oficial.

O Instituto Médico-Legal (IML) identificou 99 dos 117 civis mortos até sexta-feira (31), com 42 tendo mandados pendentes. Quatro inocentes foram confirmados como danos colaterais, segundo o secretário Victor Santos.

Câmeras corporais foram usadas em parte da ação, mas gravações ainda não foram divulgadas. O Ministério Público Federal e a Defensoria Pública pediram esclarecimentos sobre a letalidade.

Histórico criminal dos baianos Mazola, DG e FB

Danilo Ferreira do Amor Divino, o Mazola ou Dani, de Feira de Santana (BA), comandava o tráfico local e foi apontado como chefe principal pela Polícia Civil do Rio. Ele nasceu na cidade e expandia rotas de distribuição para o CV.

Diogo Garcez Santos Silva, o DG, também de Feira de Santana, tinha passagens por associação ao tráfico e porte ilegal de arma. Ele atuava em conjunto com Mazola, gerenciando pontos de venda na região metropolitana baiana.

Fábio Francisco Santana Sales, o FB, de Alagoinhas (BA), respondia por ameaça e ligações com o tráfico. Sua morte enfraquece a rede nordestina do CV, que usava o Rio como hub logístico.

Impacto regional e próximos passos

Países vizinhos, como Paraguai e Argentina, reforçaram fronteiras após a operação, declarando CV e PCC como terroristas. No Brasil, o plano de retomada de favelas, exigido pela ADPF 635 do STF, será entregue ao governo federal em dezembro, priorizando inteligência e presença permanente.

A operação expôs a rede de proteção do CV, com Doca usando “soldados” para escapar. Apesar do saldo alto, autoridades preveem redução de 25% na expansão da facção nos próximos meses.

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